Em entrevista exclusiva ao Brasil Econômico, senador do PDT defende que seu partido se aproxime do governador de Pernambuco, do PSB, nas eleições de 2014

Brasil Econômico

O senador Cristovam Buarque é considerado um “rebelde” dentro de seu partido, o PDT. Mas, apesar de não se envolver nas disputas internas da legenda trabalhista criada por Leonel Brizola, ele é de longe o maior puxador de votos da sigla. Em 2006, quando disputou a Presidência da República pelo PDT, ficou em quarto lugar depois de receber 2.538.834 votos. Fez campanha o tempo todo batendo em apenas uma tecla: a educação. Com isso, atraiu para seu palanque dezenas de artistas e intelectuais.

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Reeleito senador em 2010 pelo Distrito Federal com 833.480 votos, Cristovam manteve a postura de parlamentar independente na Casa e foi um dos mais veementes opositores da eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para presidir o Senado. Quando a presidente Dilma decidiu demitir o presidente do PDT, Carlos Lupi, do Ministério do Trabalho e colocar em seu lugar o jovem deputado Brizola Neto, Cristovam não se envolveu. Menos de um ano depois, porém, o PDT deflagrou um processo de fritura pública contra o neto do líder trabalhista justamente no momento em que se preparava para eleger uma nova direção partidária.

Cristovam Buarque é considerado um “rebelde” dentro de seu partido, o PDT
Agência Senado
Cristovam Buarque é considerado um “rebelde” dentro de seu partido, o PDT

Ao ceder às pressões de seu ex-ministro Carlos Lupi e colocar à frente da pasta um indicado dele, a presidente acabou por favorecer Lupi na convenção do PDT que aconteceu no último fim de semana. Isso tirou Cristovam do sério. “Eu não votaria no “Brizolinha”, mas era preciso que o partido tivesse uma opção ao Lupi. O que Dilma fez foi uma intervenção direta. Isso é um absurdo”, bradou o senador. Ele vai além e diz considerar um erro que o PDT mantenha uma vaga na Esplanada dos Ministérios. “Com isso o partido se atrela e fica impossibilitado de formular alternativas”.

Nessa entrevista exclusiva ao Brasil Econômico , Buarque diz que seu partido não vai se alinhar automaticamente ao projeto de reeleição da presidente. E mais: ele prega a aproximação dos trabalhistas com o governador socialista de Pernambuco, Eduardo Campos. “Não tenho dúvida que devemos ter um diálogo e até construir um projeto junto com ele. O Campos é a força mais viável e de esquerda que a gente pode ter”.

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Já sobre o tucano Aécio Neves, outro presidenciável que já se apresentou no tabuleiro, Cristovam tem outro discurso. “Com o Aécio é diferente. Os partidos são todos iguais, mas existe o lado de lá e o lado de cá. Aprendi isso com o ex-ministro Fernando Lyra. Tenho respeito pelo PSDB, mas o ideário deles não é o mesmo do nosso lado”.

O senador aproveitou a entrevista para acabar com os rumores de que estaria se aproximando da “Rede”, a sigla que está sendo criada pela ex-ministra Marina Silva. “A Marina tinha que ser o Betinho do século 21. Ele não criou partido, mas um movimento. A Marina tinha que ser Martin Luther King ou Gandhi. Ou seja: a líder de um grande movimento”. Sobre o futuro político, Buarque deixa no ar a possibilidade de concorrer a um novo mandato como governador do Distrito Federal em 2014.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Brasil Econômico: É verdade que o senhor está se aproximando da “Rede”, o partido político que está sendo criado pela ex-ministra Marina Silva?

Cristovam Buarque: A Marina tinha que ser o Betinho do século 21. Ele não criou partido, mas um movimento. A Marina tinha que ser Martin Luther King ou Gandhi. Ou seja: a líder de um grande movimento. Mas ao criar um partido, ela se iguala pois tem que se submeter a regras e a pessoas que não são exatamente o que ela quer. Não existe a menor possibilidade de eu fazer parte do partido da Marina. Apesar disso, eu gostaria de ser do movimento.

Brasil Econômico:  Pensa em sair do PDT?

Buarque:  Não. Eu já saí de um partido (o PT). Isso é algo muito dolorido para quem não é oportunista ou fisiológico. Sofri muito. Já estou com quase 70 anos. Esgotei minha cota e minha idade.

Brasil Econômico:  Espera concorrer a um cargo majoritário, como governador?

Buarque:  Meu maior problema hoje é não ser candidato a governador do Distrito Federal. Há um vazio muito grande. (Agnelo Queiroz, do PT) é um não - governador. No outro lado, do (Joaquim) Roriz, sumiu todo mundo: Arruda, Paulo Octávio...Eu teria que dispensar o Brasil e meus 20 anos de luta pela educação para me dedicar ao Distrito Federal.

Brasil Econômico:  Falta uma bancada dedicada à educação no Congresso?

Buarque:  As bancadas da educação que existem são corporativas. Tem a dos professores, do ensino superior privado e das universidades federais. A bancada da revolução da educação eu não tive competência para montar.

Brasil Econômico:  Como avalia a gestão do ministro Aloizio Mercadante na educação?

Buarque:  Não se avalia ministro, o que se avalia é o presidente. Ministros não têm o menor poder para fazer nada, nem para mandar projeto de lei para o Congresso Nacional. Portanto não avalio o Mercadante, mas a presidente Dilma. Nem ela, nem FHC, nem Lula quiseram dar o grande salto educacional. Eles fizeram apenas pequenos avanços.

Brasil Econômico:  O PDT é, hoje, um partido de caciques regionais?

Buarque:  O PDT não é um partido de caciques regionais. Ele tem um só cacique no Brasil inteiro e ele se chama Carlos Lupi. Ao redor dele, existem algumas pessoas com muita força. Uma delas é o deputado Paulinho da Força.

Brasil Econômico:  Qual é a dimensão do poder dele na sigla?

Buarque:  O PDT quase não tem sindicatos, enquanto ele tem a Força (Sindical) inteira. Se o Paulinho sair, o partido fica sem trabalhador. Mas essa força política dele não casa com o que (Leonel) Brizola defendia.

Brasil Econômico:  Por quê?

Buarque:  Porque o PDT entrou em um processo de fazer apenas pequenos acordos conjunturais sem olhar o longo prazo. Todos os partidos do Brasil perderam o vigor transformador da sociedade. Todos nós políticos somos acomodados. Cada um puxa para o seu lado em vez de empurrar o Brasil para a frente.

Brasil Econômico:  O Paulinho está articulando a criação de um partido, o Partido da Solidariedade. Seria um duro golpe para o PDT?

Buarque:  Eles não assume que está fazendo isso. Se estiver mesmo, seria uma imensa perda da nossa força imediata. Ele é forte e tem uma central. Mas por outro lado, a saída dele daria a oportunidade do partido reencontrar com as suas origens.

Brasil Econômico:  Acha então que a Força Sindical está muito distante dos valores pregados pelo Brizola?

Buarque:  Não só a Força, mas todas as centrais. Os sindicatos hoje apenas reivindicam. Eles não propõem mais transformações oficiais. Defendo que a gente vá além das reivindicações.

Brasil Econômico:  Como explica a ascensão e a fritura pública do Brizola Neto no Trabalho?

Buarque:  A escolha dele foi motivada por razões pessoais da presidente Dilma. Dizem que ela tem relações pessoais com a esposa do Brizola e com neto dele. Não acho que a escolha tenha sido uma forma de minar o poder do Carlos Lupi no PDT. Ela quis prestigiar o Brizola.

Brasil Econômico:  Acha que o Brizola Neto foi alvo de fogo amigo do PDT na curta passagem dele pela Esplanada dos Ministérios?

Buarque:  A queda se deve ao fato de que o PDT não o apoiou e não foi o responsável pela indicação. Ele não representava o partido. E não digo isso como crítica porque eu também não represento o PDT – portanto jamais seria apoiado. Então o Brizola Neto ficou isolado. Sofreu muito desgaste. Ficou sendo o ministro que ninguém via e ninguém sabia. A demissão foi uma tentativa da presidente de levar o PDT para o lado antes que a gente fosse para o lado do Eduardo Campos ou lançasse um candidato de forma irreversível, como fizemos em 2006.

Brasil Econômico:  Acha que o PDT deveria dialogar mais e eventualmente até apoiar o Eduardo Campos na eleição do ano que vem?

Buarque:  Primeiro precisamos saber qual é o projeto do Eduardo Campos. Isso ainda não está claro. Mas não tenho dúvida que devemos ter um diálogo e até construir um projeto junto com ele. O Campos é a força mais viável e de esquerda que a gente pode ter.

Brasil Econômico:  E com o senador Aécio Neves (PSDB-MG)?

Buarque:  Com o Aécio é diferente. Os partidos são todos iguais, mas existe o lado de lá e o lado de cá. Aprendi isso com o ex-ministro Fernando Lyra. Tenho respeito pelo PSDB, mas o ideário deles não o mesmo do nosso lado.

Brasil Econômico:  A Convenção do PDT foi no fim de semana foi esvaziada pela decisão de Dilma de demitir Brizola Neto?

Buarque:  Não foi esvaziado, mas já estava tudo pré-definido. Todos já sabiam que o Lupi seria o escolhido.

Brasil Econômico:  O PDT estará unido em cima do palanque de Dilma em 2014?

Buarque:  Não estará. O próprio Carlos Lupi tem dito e repetido dentro do partido que não acertou nada para 2014. O convite ao Manuel Dias (para assumir o ministro do Trabalho) não envolveu negociação para as eleições. Muitos de nós achamos que a melhor posição do PDT é estar fora do governo. Isso não significa ir para a oposição, pois isso é papel das forças mais conservadoras. É possível estar ao lado das forças de esquerda sem necessariamente estar dentro do governo. Com a entrada do Lupi no governo o PDT perdeu personalidade, deixou de debater alternativas e se acomodou. O Brasil precisa de alternativas porque as coisas não estão bem. Eu distribuí na convenção um documento, assinado por mim, pelo senador Pedro Taques e pelo deputado Paulo Rubens, com uma lista de 25 grandes preocupações.

Brasil Econômico:  Como é a vida de senador independente? Sente-se isolado?

Buarque:  Nós independentes estamos absolutamente isolados no Senado. Vivemos sob ameaça.

Brasil Econômico:  Que tipo de ameaça?

Buarque:  Ontem estava circulando pelo Senado um cara que prometeu matar o senador Pedro Taques (PDT-MT). Esse cara aparece no blog dele com um fuzil dizendo que vai matar o Taques.

Brasil Econômico:  O que achou das nomeações polêmicas para as comissões da Câmara, como aquela do pastor Marco Feliciano?

Buarque:  Isso faz parte do esgotamento da democracia no Brasil. As comissões do Congresso Nacional são presididas pelos indicados dos partidos, sendo que a ordem de prioridade é para os maiores. Ou seja: o maior escolhe a comissão que quer. Depois dos grandes, distribuem o que sobra para os pequenos. Isso precisa acabar. É errado o presidente da comissão refletir apenas o tamanho do partido. O presidente da comissão deve ser aquele que está mais preparado. O deputado pastor Marco Feliciano (do PSC) vai cuidar dos direitos humanos de todo o Brasil, e não apenas dos filiados do partido dele.

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