'Evidências de traição eram muito fortes', diz ex-companheiro sobre Zorro

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Faria Lima teve comportamentos suspeitos em ações programadas por militantes da esquerda que não deram certo

O comportamento suspeito de Faria Lima chamou a atenção de seus companheiros em ações organizadas para resgatar da prisão um militante que certamente seria morto, Eduardo Collen Leite, o Bacuri, executado depois de 103 dias de tortura. A primeira ação havia sido planejada para o dia 7 de setembro de 1970. Militantes do MRT e da ALN sequestrariam o delegado Sérgio Fleury, o nome forte da repressão, quando este chegasse, pela manhã, ao distrito policial de Vila Rica, zona leste da capital, onde Bacuri estava preso.

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O plano era usar Fleury como escudo e exigir a libertação do militante. Quando o grupo preparava-se para agir, descobriu-se que o delegado, provavelmente avisado, já se encontrava na delegacia cercado por seus homens de confiança e que Bacuri havia deixado o local. Anos depois, relatos de sobreviventes apontaram que militantes haviam sido levados para a sede da Oban horas antes da ação. Faria Lima havia sumido no intervalo entre o planejamento e o horário de execução do plano.

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Zorro chegou a ser condenado a pena de morte durante por assassinatos na ditadura

Dois meses depois, a guerrilha faria uma nova e ousada ação para tentar, mais uma vez, libertar Bacuri. Um comando formado por militantes do MRT, ALN e VPR rendeu o comandante do II Exército, general Humberto Souza Melo, quando este deixava a Igreja Batista da Rua Joaquim Távora, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo.

Três militantes chefiados por Devanir José de Carvalho, conhecido por Comandante Henrique, encostaram as armas no corpo do general no mesmo instante em que eram surpreendidos por militares à paisana, que chegaram ao local no momento em que a ação guerrilheira estava em andamento. Em maior número e favorecido pelo fator surpresa, um segundo grupo guerrilheiro, que estava na retaguarda, apontou as armas contra os militares. Seria o mais feroz confronto do período se o general não tivesse assumido o comando e gritado que ninguém disparasse. O acordo de emergência foi, então, cumprido à risca e cada grupo se dispersou, deixando o general na escadaria da igreja, cercado pelos militares.

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Os dois guerrilheiros sobreviventes que participaram do episódio, Ivan Seixas - que tinha duas granadas nas mãos para jogar contra os militares - e Carlos Eugênio Paz confirmam a ação cinematográfica e as suspeitas sobre Faria Lima. Quando o chefe da ação, Devanir Carvalho, avisou a todos, uma hora antes, que tipo de ação seria feita naquele dia, Faria Lima, sob o pretexto de ir a uma farmácia comprar medicamentos para fazer curativo num ferimento de bala numa das pernas, se ausentou do grupo por cerca de uma hora. As suspeitas são de que naquele instante ele tenha avisado os militares. A chegada repentina dos agentes reforça a hipótese.

“Com o sequestro do comandante do II Exército nós não libertaríamos apenas Bacuri. Abriríamos as portas das cadeias. Mas a ação teve de ser abortada. Se o plano não tivesse sido delatado em cima da hora, os agentes teriam preparado uma armadilha e matado todos nós”, lembra Carlos Eugênio Paz, conhecido na guerrilha como Clemente.

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Documento mostra as atividades de informante de Faria Lima no Brasil

Em outra atitude suspeita, Faria Lima livrou-se de uma confusão de trânsito mostrando um documento aos policiais. Um dos carros da guerrilha, por barbeiragem do motorista, havia batido na traseira de um Fusca da polícia, interrompendo o tráfego. Segundo Ivan Seixas, Faria Lima pediu aos companheiros que relaxassem, desceu, mostrou um documento aos policiais e a confusão se desfez. “Os caras já estavam pegando as armas quando ele convenceu os policiais”, lembra.

A guerrilha tinha um setor que cuidava de preparação de documentos falsos. Serviam, por exemplo, para a compra de munição, que só era vendida em lojas para policiais. Carlos Eugênio lembra que logo depois do episódio do acidente com o carro da polícia, perguntou ao líder do MRT, Devanir José de Carvalho, se a organização havia dado a Zorro os documentos falsos. Como a resposta foi negativa, ele levantou a hipótese de traição e disparou o alerta.

Ivan Seixas afirma que o comando do MRT chegou a preparar uma ação de justiçamento. Faria Lima acabou escapando graças a ação da polícia que, nos dias seguintes, exterminou a organização inteira, eliminando ou prendendo todos os integrantes. “As evidências de traição eram muito fortes. Provavelmente nós o teríamos justiçado, mas todo mundo caiu antes”, revela Ivan.

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Em meados de 1971, único sobrevivente do MRT, Faria Lima pediu a Carlos Eugênio Paz para ingressar na ALN. Foi vetado por causa das suspeitas. “Não poderíamos justiçá-lo porque pertencia a outra organização. Mas avisei que, se ele não deixasse o País, seria morto”, conta Paz. A ALN ainda providenciou documentos falsos e algum dinheiro, entregues a Zorro, que desapareceu.

A hipótese de um acordo com os órgãos de repressão foi reforçada por outro ex-companheiro de Faria Lima, Ariston de Oliveira Lucena. Os dois treinaram guerrilha sob o comando de Carlos Lamarca no Vale do Ribeira, estiveram juntos na execução do tenente da PM e também foram alvos da mesma sentença de condenação à morte por fuzilamento. “Tem muitas histórias sobre a traição. O fato real é que ouvi da mãe de Zorro que ele havia feito acordo com a polícia. Ela perguntou se nós o mataríamos caso aparecesse. Respondi que não faríamos mais nada porque ele já estava morto pela história”, conta Ariston.

O diálogo, segundo ele, foi travado na frente de um delegado da Polícia Civil, Silvio Tinti, que no início da década de 1990 foi designado para ajudar a esclarecer os possíveis paradeiros de desaparecidos políticos na CPI de Perus, instalada na Câmara de Vereadores paulistana. Ariston atendeu um chamado do delegado e acabou se encontrando com a mãe e uma irmã do ex-companheiro.

Ivan Seixas conta que no mesmo período também esteve com o delegado Tinti e foi surpreendido com uma revelação que comprometeria ainda mais Faria Lima. “Ele tirou um papel da gaveta, colocou sobre a mesa e pediu que eu lesse. Nele estava escrito que Zorro era um agente policial”, afirma Ivan.

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Gilberto Faria Lima, o Zorro, estava entre os procurados por agentes do regime militar

O destino de Faria Lima é outro grande mistério, mas há evidências de que esteja vivo, embora a Anistia Internacional, num informe expedido em 1972, tenha levantado a hipótese de que tenha sido morto na Argentina. Relatos posteriores apontam que teria sido visto na França e depois no Brasil.

“Vi o Faria Lima em 1979, logo depois que voltei do exílio. Ele estava sentado na porta de um bar perto da Estação da Luz (em São Paulo). Parei em fila dupla e gritei que ele me esperasse. Quando consegui estacionar e fui ao bar, ele havia desaparecido”, afirma o ex-sargento José de Araújo Nóbrega, ex-militante da VPR, que treinou guerrilha com Zorro no Vale do Ribeira e depois, em 1972, o encontrou novamente durante o exílio em Santiago, no Chile.

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Parceiro de Lamarca na deserção e no furto do armamento militar no quartel de Quitaúna, detido e depois banido, Nóbrega suspeitou de Faria Lima ao ouvir deste, no Chile, alguns detalhes que só ele ou alguém da polícia poderia lembrar sobre o período em que ficou preso no Brasil.

Nóbrega conta que, há cerca de um ano, um amigo que mora no Rio telefonou para transmitir um curioso recado passado por uma terceira pessoa: “Esse amigo informou que o Faria Lima queria falar comigo. Disse que ia telefonar. Deixei meu telefone (de Jacupiranga, no Vale do Ribeira), mas acabei me mudando. Talvez ele até tenha ligado”, relata Nóbrega. Ivan, Carlos Eugênio e Ariston também acreditam que Zorro esteja vivo.

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