Espião uruguaio pode desvendar mistério de agente duplo da ditadura

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Homem de confiança de Carlos Lamarca, Gilberto Faria Lima atuou na guerrilha urbana e teria colaborado com a ditadura; ele está desaparecido desde então, mas pode estar vivo

Documentos encontrados no Arquivo Nacional, em Brasília, levantam a suspeita de que Gilberto Faria Lima, dado como desaparecido há 40 anos, um dos militantes da esquerda armada com mais ações no currículo, pode ter sido um agente duplo e estar vivo. Um relatório dos órgãos de informação militares liga Faria Lima ao uruguaio Alberto Octavio Conrado Avegno, apontado pelas comissões que investigam os anos de chumbo como maior espião infiltrado junto aos grupos de brasileiros exilados no Chile, Argentina e Uruguai.

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Filho do diplomata brasileiro Otávio Conrado, o espião atuou de 1967 a 1980, infiltrou-se nas organizações de esquerda, conseguiu enganar personagens como Leonel Brizola, Miguel Arraes e o Almirante Cândido Aragão e, assim, entregou ao Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e ao Itamaraty informações que resultaram em dezenas de prisões e mortes no Brasil e no exterior.

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Gilberto Faria Lima, o Zorro, estava entre os procurados por agentes do regime militar

Numa operação que chamou de “Missão no Brasil”, relatada em 21 páginas, Conrado diz que o brasileiro foi o elo com os grupos de esquerda. “Fizemos o primeiro contato em São Paulo através do endereço fornecido por Gilberto Faria Lima”, conta Conrado, que usa o codinome de Johnson, embora na maioria dos informes listados num dossiê de 812 páginas se apresente como Altair.

Conrado recebia salário mensal dos órgãos de informação do regime militar para espionar. Antes de viajar para o Brasil, entre setembro e agosto de 1972, diz que esteve pessoalmente com Faria Lima, no Chile. Ele revela que, “seguindo as instruções de Carlos” (codinome de Faria Lima), encontrou-se com vários militantes do PCB em São Paulo e no Rio, usando como álibi cartas escritas por Faria Lima cujos originais estão anexados no dossiê.

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Na guerrilha, Faria Lima usou pelo menos oito codinomes, mas era mais conhecido entre os companheiros por Zorro ou Giba. Com 16 ações armadas de alta envergadura no prontuário preenchido pelo Dops paulista – entre elas os assassinatos do ex-presidente do Grupo Ultra Henning Albert Boilesen e do tenente da PM Alberto Mendes Júnior –, Zorro chegou a ser condenado à pena de morte, lei que vigorou no Brasil durante o AI-5, entre 1969 e 1978. A pena capital, aplicável com fuzilamento, foi convertida em prisão perpétua e, mais tarde, numa condenação de cinco anos de reclusão, anulada pela Lei da Anistia.

O longo histórico de ações armadas listadas pelo Dops no currículo do ex-guerrilheiro teria sido o primeiro capítulo da faceta desconhecida de Zorro. Ele era linha de frente da guerrilha urbana e foi um dos homens de confiança de um dos principais líderes da resistência armada, o capitão Carlos Lamarca.

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Documento mostra as atividades de informante de Faria Lima no Brasil

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Um informe dos órgãos de espionagem aponta que, ao lado de outros militantes, teria participado de um encontro com Fidel Castro no Chile, no qual se discutiram ações subversivas no Brasil, como um plano de sabotagem para parar a Rodovia Presidente Dutra por onde, à época, escoava boa parte da economia do País.

Zorro foi militante de três organizações envolvidas na luta armada, a Resistência Democrática (Rede), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), mas atuou também em ações conjuntas com a Ação Libertadora Nacional (ALN). Eram os grupos mais radicais e, por isso, caçados incessantemente pela repressão.

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A esquerda sempre trabalhou com a hipótese de que Zorro pudesse ter sido cooptado pelos órgãos de repressão, mas guardou suas suspeitas até que as evidências se tornassem mais claras. “O comportamento dele em algumas ações sempre deixou dúvidas”, diz o jornalista, ativista e coordenador da Comissão da Verdade paulista, Ivan Seixas, companheiro de Zorro em várias ações, como assaltos a banco (a esquerda chama de expropriação) pelo MRT.

Preso aos 16 anos junto com o pai, Joaquim Alencar Seixas – operário comunista morto na tortura –, Ivan não era só parceiro de Faria Lima no MRT. Eles foram amigos. Ele acredita, no entanto, que o difícil é concluir se Zorro foi infiltrado pelos órgãos de repressão ou mudou de lado ao cair nas mãos da polícia.

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