Ex-braço direito de Fleury, delegado terá de depor sobre crimes da ditadura

Ainda na ativa, Carlos Alberto Augusto, conhecido como Carteira Preta e Carlinhos Metralha, faz parte da lista dos agentes públicos que serão chamados pela Comissão da Verdade

Vasconcelo Quadros , iG São Paulo | - Atualizada às

No topo da relação de agentes públicos que teriam participado de prisões, torturas, execuções e desaparecimentos forçados a serem chamados pela Comissão da Verdade estão três delegados da Polícia Civil de São Paulo – um deles ainda na ativa – e um coronel. A lista completa será formada, ao longo das investigações, por dezenas de agentes civis e militares.

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O mais importante deles é o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou o principal órgão do regime militar, o Doi-Codi, e dirigiu por mais tempo o esquema repressivo em São Paulo. Já na reserva, Ustra será convocado (e não intimado) a prestar depoimento.

Serão chamados também os delegados Dirceu Gravina, Alcides Singilo e Carlos Alberto Augusto, conhecido como Carteira Preta e Carlinhos Metralha, braço direito do ex-chefe da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), Sérgio Paranhos Fleury. Como ainda está na ativa, ele não pode se recusar a atender a intimação.

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Oswaldo Jurno/AE
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Protetor de um dos delatores das organizações de esquerda, Anselmo José dos Santos, o cabo Anselmo, Carteira Preta é o único do grupo que ainda está na ativa. Há duas semanas foi transferido para a delegacia de Itatiba, na Grande São Paulo. É o homem chave e testemunha ocular do período mais forte dos conturbados anos de chumbo em São Paulo. Também participou de operações da repressão em várias regiões do País.

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Pelo acordo de cooperação firmado entre a Comissão Nacional da Verdade (CNV) e as entidades estaduais, as oitivas serão feitas em sessões conjuntas e de comum acordo. A pauta de convocação será definida pela importância de cada agente público no organograma da repressão e, especialmente, o que ele pode revelar para esclarecer os episódios que estão sendo investigados.

O jornalista Ivan Seixas, coordenador da comissão paulista, diz que os depoimentos serão definidos a partir de dossiês que estão sendo organizados. A base de informações são depoimentos das vítimas da repressão, de familiares de desaparecidos e pessoas que testemunharam fatos que possam levar à identificação dos torturadores ou ao paradeiro de 179 militantes da luta armada - nesse grupo estão também 46 ativistas sumidos no exterior.

“Só vamos pedir a convocação dos agentes sobre os quais não haja dúvida sobre o que sabem”, diz Ivan Seixas. Sobre Ustra, Gravina, Singilo e Carteira Preta há dezenas de relatos apontando a participação direta dos quatro em prisões e tortura de prisioneiros que desapareceram nas mãos do regime. Além disso, os quatro também estão sendo processados na Justiça Federal.

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Como foi em São Paulo que se concentraram as operações do regime militar para eliminar a guerrilha urbana, entre 1969 e 1976, boa parte dos personagens listados pela CNV também serão ouvidos em sessões conjuntas.

Nesta relação estão figuras como o ex-prefeito de Curionópolis (PA) Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, o coronel Lício Maciel, o delegado Sérgio Guerra e, entre outros, o ex-sargento Marival Chaves Dias do Canto. Todos eles já foram ouvidos também pelo Ministério Público Federal.

O grande dilema da comissão é definir uma estratégia eficaz para extrair informações que possam a ajudar a reconstituir os anos de chumbo e elucidar episódios ainda obscuros, como o paradeiro dos desaparecidos. Como não tem poder de polícia e nem pode responsabilizar criminalmente quem mentir ou se omitir, as comissões terão de contar com a boa vontade dos convocados em colaborar.

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