Retrospectiva 2012: Sem resultados, CPI do Cachoeira teve final melancólico

Na contramão do STF, que condenou 25 réus do mensalão, comissão para investigar elo do bicheiro com políticos revirou papéis, quebrou sigilos, mas não denunciou ninguém

Nivaldo Souza - iG Brasília |

Homem das finanças do ex-presidente Juscelino Kubitschek, o mineiro José Maria Alkmin disse, nos idos dos anos 1950, que, no Brasil, quando não se queria investigar nada, uma CPI era criada. Em 2012, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) condenava políticos no julgamento do mensalão, o Congresso Nacional manteve viva a assertiva de Alkmin. Após oito meses de trabalho, a CPI do Cachoeira terminou com um relatório de duas páginas aprovado por esmagadora maioria de seus sem que nenhum dos suspeitos fosse indiciado.

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Entenda a rede de 'negócios' do bicheiro Cachoeira, alvo da CPI

A comissão que nasceu para apurar a ligação de deputados, senador, vereadores, prefeitos e governadores com o esquema de desvio e lavagem de dinheiro que tinha como alvo a Construtora Delta, do empresário Fernando Cavendish, e o contraventor de jogos ilegais Carlos Augusto de Almeida Ramos, Carlinhos Cachoeira, teve, assim, um final “melancólico”, na avaliação de parlamentares que dela participaram.

Agência Senado
Impasse na votação do relatório final da CPI do Cachoeira foi resolvido com texto do deputado do PMDB

A CPI envolveu nomes como os dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). Foram 40 depoentes convocados, sendo que 24 deles ficaram calados, protegidos por liminares que lhes garantiam silêncio – incluindo o próprio Cachoeira, pivô do esquema de corrupção investigado por duas operações da Polícia Federal (Monte Carlo e Saint Michel).

Ao final da apuração, o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), apresentou um texto com mais de 5 mil páginas, aliviando o petista Agnelo e pedindo o indiciamento do tucano Perillo. Sobrou até para o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o que causou revolta em muitos parlamentares, sobretudo da oposição.

O relator foi acusado por colegas de não abrir investigação sobre empresas envolvidas no esquema de Cachoeira. A CPI também ‘blindou’ o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), amigo de Cavendish. A blindagem gerou polêmica que envolveu o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), flagrado pelo telejornal ‘SBT Brasil’ trocando mensagem com Cabral durante a comissão, na qual afirmava: “Você é ‘nosso’ e nós somos ‘teu’” .

A CPI terminou com a derrota do relatório de Cunha. Quando o quadro parecia incerto, o deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF) apresentou um outro documento de apenas duas páginas, aprovado imediatamente por membros da comissão por 21 votos a favor, ante sete contrários. A ‘operação abafa’ foi classificada por parlamentares como a maior ‘pizza’ já produzida pelo Congresso Nacional. "Em plena festa natalina, este relatório final é uma presepada", disse o deputado Rubens Bueno (PPS-PR).

O líder do PPS na Câmara correu para colher assinaturas de colegas e abrir uma nova comissão, a CPI de Rosemary , que se propõe a investigar o esquema de venda de pareceres técnicos por agências reguladoras desbaratado pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, envolvendo a ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo Rosemary Nóvoa de Noronha.

Esquema de R$ 84 bilhões

O Congresso tenta, agora, emitir a mensagem de que a CPI do Cachoeira não foi de todo em vão. Para isso, a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, a pedido da Corregedoria, encaminhou ao Conselho de Ética da Casa um pedido de cassação do mandato de Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO).

O deputado goiano, que nunca negou amizade com o bicheiro, chegou a usar a tribuna da Câmara para dar parabéns a Cachoeira por seu seus 49 nos, completados em maio, quanto esteve preso no Presídio da Papuda, em Brasília. "A relação dele (Leréia) é acima da amizade, é uma relação de ganhos e intimidade que não se compatibiliza com o mandato parlamentar", afirma Jerônimo Goergen (PP-RS).

O destino do goiano pode ser o mesmo do ex-senador Demóstenes Torres (DEM-GO) , cassado em julho por ligações com Cachoeira.

A CPI ainda busca uma sobrevida por meio do Ministério Público Federal e da Procuradoria-Geral da República. Todo o material bruto colhido durante a investigação parlamentar será enviado para os órgãos federais continuar o caso. “Esta medida é o melhor caminho que podemos chegar neste momento. O ideal seria a prorrogação dos trabalhos, mas isso já ficou para trás e não vamos remoer isso”, diz o senador Pedro Taques (PDT-MT).

A comissão reuniu ao todo 69.694 páginas de quebras de sigilos bancários, 11.333 páginas se quebra de sigilo fiscal e 45.594 páginas contendo relatos de ligações telefônicas.

Em meio ao emaranhado de números e papéis, está a informação de que Cachoeira e seus ‘laranjas’ têm patrimônio de R$ 160 milhões . O esquema teria movimentado, segundo o relatório recusado de Cunha, R$ 84,3 bilhões em uma década . Cachoeira ficou preso de 29 de fevereiro a 20 de novembro e, agora, está em liberdade, morando em um condomínio de luxo em Goiânia.

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