Estilo centralizador de Haddad incomoda base do PT em São Paulo

Aliados que apoiaram o prefeito desde o lançamento de seu nome para a corrida municipal se queixam da forma como ele conduz a montagem do novo governo

Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

A base do PT na cidade de São Paulo está incomodada com os métodos usados pelo prefeito eleito, Fernando Haddad , para escolher a equipe de governo. Dirigentes zonais, líderes de movimentos sociais e petistas detentores de mandatos legislativos que apoiaram Haddad desde o primeiro momento têm se queixado do estilo classificado como “centralizador” do futuro prefeito.

Os petistas reclamam do excesso de secretários trazidos de Brasília na cota pessoal de Haddad, da falta de informações sobre os critérios a serem usados na escolha dos futuros subprefeitos, da insensibilidade em relação aos movimentos sociais, e daquilo que consideram intransigência do prefeito eleito em relação às demandas do partido.

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Movimentos de moradia vinculados estudam ações de protesto contra Haddad para os primeiros dias de governo. Interlocutores do prefeito eleito dizem que ele está tranquilo e consideram as pressões do PT “previsíveis e mais do que esperadas”.

Em entrevista coletiva concedida quarta-feira no anúncio de sete nomes para o secretariado Haddad não deixou dúvidas quanto aos seus métodos. “Embora as pessoas integrem este ou aquele partido, as escolhas são sempre pessoais no nosso regime. Sempre pessoais”, disse o prefeito eleito.

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Pouco antes, Haddad recebeu um grupo de nove líderes de movimentos sociais ligados ao PT na sede do governo de transição. Eles foram pedir duas coisas. 

A primeira é indicação de Raimundo Bonfim, dirigente da Central de Movimentos Populares, para a Secretaria de Participação Social e Parcerias. A segunda demanda é que Haddad não entregue a Secretaria de Habitação ao PP do deputado Paulo Maluf. O preferido do PT é o deputado estadual Simão Pedro, aliado de primeira hora do prefeito eleito. Haddad negou os dois pedidos.

Na reunião ele informou que a Secretaria de Participação Social será extinta. Suas atribuições serão divididas entre as secretarias de Governo e Direitos Humanos.

Quanto à Secretaria de Habitação, Haddad deixou claro que a entrega da pasta ao PP foi definida antes da eleição diretamente com Maluf e com o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, como uma das exigências do partido para apoiar o PT na disputa municipal. “Sou um homem que cumpre acordos”, disse Haddad, encerrando a discussão.

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Participantes da reunião ouvidos pelo iG enxergaram um tom de arrogância na forma como o prefeito eleito conduziu a conversa. “Algumas pessoas pensam que são Deus. Depois da reunião com Haddad ficamos com esta impressão. Ele não tem dúvida de que é Deus”, disse um dos participantes.

Haddad recebeu uma lista com três nomes do PP para a Habitação. O primeiro foi reprovado e os outros dois estão sob analise. O prefeito eleito havia previsto completar o secretariado até o final de novembro mas estendeu o prazo para a próxima quarta-feira.

A base petista também está inquieta com a falta de informações sobre os ocupantes das subprefeituras. No escuro, o partido decidiu agir por conta própria. Nas últimas duas semanas os 36 diretórios zonais do PT na capital se reuniram para indicar os 31 subprefeitos. Os escolhidos já estão em franca campanha junto às lideranças sociais e comunitárias dos bairros. A iniciativa foi baseada nas duas vezes em que o PT administrou a cidade como Luiza Erundina e Marta Suplicy. Nas duas oportunidades os diretórios zonais ofereceram nomes para as subprefeituras (chamadas de administrações regionais no governo Erundina).

Os nomes foram encaminhados para o presidente municipal do PT, Antonio Donato, o vereador José Américo e o deputado estadual João Antonio. “Faltam só 20 dias para a posse e não tivemos um retorno sequer. Parece que ele ( Haddad ) vai escolher pessoalmente os 31 subprefeitos. Não sabemos os critérios. Janeiro é mês de enchentes e os escolhidos não terão tempo nem para fazer a transição local”, disse um dos sete dirigentes zonais ouvidos pelo iG .

Outras escolhas como as dos secretários de Saúde, José de Filippi Jr. (PT), e Esportes, Celso Jatene (PTB), desagradaram os setoriais petistas que participaram da elaboração do programa de governo. O motivo do desagrado é mais a forma do que os nomes. “O setorial de saúde, que passou quatro meses trabalhando no programa, ficou sabendo que o secretário será o Filippi pela imprensa”, reclamou um dirigente.

Manifestos

Antes mesmo de tomar posse Haddad é alvo de dois manifestos, um dos movimentos sociais e outro do setor acadêmico do PT (origem política do prefeito eleito), por conta da entrega da Habitação ao PP. Ambos prometem pressionar o futuro governo. Movimentos minoritários de moradia estudam promover uma onda de ocupações na primeira semana de governo.

Segundo pessoas próximas de Haddad, ele foi orientado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a não ceder às pressões do PT por cargos e negociar com as bancadas legislativas do partido deixando de lado as correntes internas. “Se o Haddad entrar no jogo do PT de São Paulo vai virar refém e não consegue governar”, teria dito o ex-presidente.

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Parte da cúpula do partido concorda com a estratégia de Lula mas considera que Haddad exagerou no número de secretários vindos de Brasília na sua cota pessoal.

Um interlocutor de Haddad disse que o prefeito eleito está tranquilo e espera amenizar as insatisfações na montagem do segundo escalão.

Sobre os movimentos sociais, ele mesmo respondeu na quarta-feira. “Ao contrário de outras eleições, nosso plano de governo não é uma mera carta de intenções. Fixamos metas. O que o movimento social quer é que estas metas sejam cumpridas. Este é o nosso compromisso com eles”, disse Haddad.

O governo de transição foi procurado por meio de Donato e da assessoria de imprensa mas não respondeu.

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