Comissão da Verdade quer acesso a dados do Exército no Rio Grande do Sul

Documentos, queimados em ato público, teriam sido microfilmados e, segundo historiador, estão no Comando Militar do Sul

Luciana Lima - iG Brasília |

A Comissão Nacional da Verdade quer ter acesso às microfilmagens de todos os documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), do Rio Grande do Sul, que, de acordo com o historiador Jair Krischke, estão em poder do Comando Militar do Sul. Os integrantes da comissão pretendem pedir a intermediação do ministro da Defesa, Celso Amorim, para que os documentos sejam entregues para serem analisados.

A informação de que os documentos estão em poder do Exército foi repassada hoje (26) pelo historiador, em depoimento à comissão. De acordo com Krischke, acreditava-se que os documentos haviam sido queimado já que, dias após a extinção do principal órgão de repressão, em 1982, o então governador Amaral de Souza ordenou a queima de toda a documentação em um ato público.

"O Rio Grande do Sul foi o único Estado que fez isso, com toda pompa, chamando a imprensa para retratar. Mas o que queimou foi só a papelada. Tudo foi microfilmado antes e está no Comando Militar do Sul", disse o historiador, fundador Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH).

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Krischke informou que o Comando Militar do Sul já informou que tem os documentos, mas que eles são sigilosos. "Ele [o Exército] admitiu, disse que tinha dos documentos mas que só poderiam ser abertos após 25 anos. Ele confessou ao dizer isso e sua confissão está publicada pela imprensa. Essa publicação eu entreguei a Comissão da Verdade", disse.

"O que queimou foi a papelada. Os arquivos foram microfilmados. Foram modernizados", ironizou.

Os indícios da existência dos documentos partiu de uma pesquisa feita por Krischke nos arquivos de documentos do período ditatorial no Uruguai. Encontrei a ficha de depois brasileiros em Montevidéu com anotações feitas após a data da queimada. A partir desse documento chegamos aos arquivos", explicou Krischke.

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A coordenadora das investigações sobre a operação Condor (aliança entre as ditaduras de países do Cone Sul para captura de opositores dos regimes ditatoriais), Rosa Maria Cardoso da Cunha, explicou que legalmente a comissão pode ter acesso a documentos sigilosos. "Nos temos uma lei e, por essa lei, nós temos o direito de ter acesso a todos os documentos, mesmo os documentos secretos", explicou.

No depoimento de hoje, Krischke apresentou vários documentos que apontam que a Operação Condor é uma "criação brasileira".

"Esses documentos tem o dom de provar definitivamente que o criador da Operação Condor que há temos usava o nome de busca externa foi o Brasil. A prática de forma absolutamente ilegal, de retirar pessoas de um país, e trazer, no caso para o Brasil sendo que muitos deles, senão a maioria deles está desaparecida, isso foi uma criação brasileira", disse Krischke. Essas pessoas, se vivas forem, deverão dizer o que fizeram.

Rosa Cardoso disse ainda que os documentos apresentados por Krischke durante o depoimento servirão para embasar o relatório que será produzido. "Nós vamos contar uma história e temos que comprovar com documentos. Tínhamos notícias desses fatos relatados, mas hoje eles nos trouxe documentos que comprovam isso", disse.

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