Soninha: 'Serra é um cara esquentado e cai fácil em provocação

Soninha Francine, ex-prefeiturável de São Paulo pelo PPS, avalia a corrida eleitoral, critica o PT e desmente os rumores de que teria um relacionamento com o tucano.

Brasil Econômico - Pedro Venceslau e Marcelo Ribeiro |

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Livre das amarras da condição de "prefeiturável", a jornalista Soninha Francine veio de trem (e no horário de pico) visitar a redação do Brasil Econômico nesta quinta-feira (25/10). A conversa começou com temas factuais do segundo turno, mas logo evoluiu para um debate sobre partidos, Lula e seu futuro político.

Com uma linguagem mais pontuada por gírias do que a usada durante a campanha, a ex-VJ da MTV reconheceu que errou na mão ao chamar Fernando Haddad de "filho da puta" em seu blog recentemente. "Quando eu escrevo com raiva, geralmente deixo para publicar depois. Sou boca suja mesmo e falo palavrão. Mas na hora não me ocorreu isso. Depois retirei o palavrão".

A polêmica com o candidato petista foi o gancho para abordar sua intensa relação com as redes sociais. Depois de dizer que sofre muita patrulha, Soninha contou que já foi chamada de "vagabunda", "maconheira" e "cadela" no Twitter devido sua aproximação com o PSDB depois de deixar o PT.

Foi nesse momento que ela deu a versão final para uma história mal contada: seu suposto romance com José Serra. "O boato começou quando eu ainda era vereadora (do PT) na Câmara Municipal. Lembro quando vieram me avisar: ‘você precisa parar de ir aos jogos do Palmeiras com o Serra'. Rolou um clima pesado no PT por causa disso".

O rumor maldoso tornou-se uma bola de neve depois que uma notinha foi publicada no jornal Folha de S.Paulo contando sobre um jantar dos dois em restaurante da Vila Madalena. "Tinham mais de dez pessoas na mesa", ela esclarece.

Essa história cresceu com o advento das redes sociais e tornou-se uma lenda urbana que é recorrentemente usada por seus adversários e detratores. Apesar da mentira repetida ou insinuada diversas vezes no Twitter, Facebook e blogs, Soninha é, isso sim, uma admiradora do político Serra.

E justamente por isso sente-se à vontade para falar de um aspecto, digamos, polêmico de seu temperamento. "O Serra é um cara esquentado e cai muito fácil em provocação. Quando está no front, sai faísca. Mas ele também é estúpido com a imprensa".

Nessa entrevista ao Brasil Econômico , a ex-prefeiturável do PPS diz que tem planos de ser deputada em 2014.

O que você achou da repercussão do texto que você escreveu no seu blog sobre o Fernando Haddad (PT) com alguns xingamentos?
Achei exagerada, porque sou boca suja e constantemente falo palavrão. Já xinguei imprensa, propaganda eleitoral. Na hora não me ocorreu isso. Eu sempre falo que quando escrevo com raiva, eu devo salvar primeiro e publicar depois. Às vezes, eu faço isso. Eu achei que as pessoas ficariam bravas com o conteúdo, não com o palavrão. Retirei o palavrão, mas, é muito melhor dizer que o cara é cínico?

O que te irritou tanto para você escrever o texto?
A questão foi que eles dizem, repetidamente, como fazem em todas as campanhas, 'vamos fazer uma campanha, limpa, sem agressões'. Eu fico indignada. Os dois lados agridem e um deles fala sempre 'o amor venceu o ódio'. Isso me deixa transtornada.

Você sente que existe uma patrulha ideológica nas redes sociais?
Sim, tem patrulha de tudo que é lado, mas de novo utilizam o discurso 'vocês baixam o nível da discussão'. É sempre exclusiva do outro lado.

Sofre alguma pressão da militância petista por apoiar o Serra?
Eu entendo que elas estranhem e não se conformem, mas eu não entendo porque ficam atrás de mim. Já sabem que eu não sou mais do PT. Foram tanto os problemas que enfrentei no partido, que hoje em dia, na maioria absoluta das situações eu estarei em oposição ao PT, embora eventualmente possa não estar. Não é em qualquer situação, contra qualquer adversário. Tanto é que eu saí do PT, não quis ir para o PC do B, nem para o PSB. Eu quis ir para campo da oposição mesmo, para o PPS, porque era um partido autocrítico de cara.

Você acha também que eles plantam insinuações sobre a sua relação com o Serra?
Isso começou bem antes das redes sociais, é do tempo da Câmara. Diziam: meu você precisa parar de ir a jogos do Palmeiras com o Serra, porque estão dizendo que você e ele estão juntos. É melhor você não ir mais'. Eu respondia que eu não deixaria de ir aos jogos porque diziam que eu dormia com ele. Ficou um clima ruim dentro do partido (PT). Depois desses primeiros momentos, saiu no jornal que eu tinha sido vista jantando com ele na Vila Madalena. Fui com ele e mais dez pessoas, depois de um jogo do Brasil. Além dessa questão PT e PSDB, na Câmara, eu sempre briguei muito com o centrão. De lá, veio o segundo sinal. Vinham falar comigo dizendo que 'o pessoal do centrão está falando que você tem um caso com o Serra'. Com as redes sociais, os boatos só ganharam uma proporção maior. Mas o caso é velho.

O que você acha da formação da Câmara Municipal depois do resultado da eleição?
Hoje você tem o PSD como provável base de governo seja ele qual for. É o novo PMDB. Não se espera que o PMDB esteja na oposição em lugar nenhum. Pode ser uma escolha razoável e decente ou totalmente fisiológica. Também não digo que ninguém presta no PMDB, mas o partido é base do governo, qualquer que seja a legenda no comando.

Como avalia o desempenho do PPS na eleição proporcional? O voto útil prejudicou a legenda?
Elegemos dois vereadores. É o mesmo número da eleição passada, mas é o dobro do que tinha agora. O voto útil prejudicou a legenda, porque queríamos eleger três. Não conseguimos reeleger o Claúdio Fonseca. É muito ruim que ele não tenha sido reeleito, porque ele teve um mandato super crítico. Ele era do PC do B, da base aliada, e se opunha a alguns projetos do executivo, principalmente ao projeto que queria reduzir a verba carimbada para educação de 30% para 25%. Ele saiu do PC do B, se elegeu pelo PPS, sempre teve problemas com o centrão. Os caras vão pra cima e ele não se intimida. Adilson Amadeu o chama de neguinha maluca. É esse nível. Dizem que eu sou maconheira, vagabunda, cadela. Filho da puta é uma interjeição, eu não estou xingando a mãe do Haddad. Me xingam de tanta coisa. Ontem, eu enviei várias perguntas para o ministro da Saúde via Twitter, já que ele é super ativo na rede. Perguntei quantos consultórios de rua já têm e onde estão. Eu entro lá no 'Crack é possível vencer', que é o que Haddad anuncia que será o seu programa de combate às drogas em São Paulo. O programa fala de novos leitos de internação, de centenas de enfermarias especializadas, mais de 300 consultórios de rua. Eu marco em cima. Nesses momentos, que eu tenho vontade de ser deputada federal. Ninguém está marcando isso, só eu que estou olhando. Como o Padilha não me respondeu, enviei uma nova mensagem cobrando. Então um seguidor escreveu 'Não liga não, Padilha. Foi o dono que mandou a cadela fazer a pergunta'. É assim o tempo todo.

Foi o mensalão que te fez sair do PT?
Eu lembro quando me chamavam de mensaleira vagabunda porque eu era do PT. Saí do partido principalmente por causa da convivência com a minha bancada em São Paulo, que era o contrário de tudo que eu sempre defendi e acreditei. A conduta da minha bancada em São Paulo era totalmente desvinculada do interesse da cidade. O interesse era criar problemas para o governo mesmo que isso implicasse problemas para a cidade. Eu saía da reunião, eu voltava para o gabinete ou muito deprimida ou chorando de raiva.E o mensalão era a confirmação disso, que o PT não era mais aquilo que eu acreditava. Não pelo acontecimento, mas pela maneira que o partido reagiu. Éramos implacáveis, intolerantes com desvio de conduta.

A imagem de Serra está desgastada? Deveriam ter escolhido outro nome no PSDB?
Não, outro candidato tucano teria mais dificuldade. Claro que eles não ficariam com os 3%, 4% que tinham no começo das pesquisas, mas eu iria muito melhor. Muito melhor do que eu fui e talvez que um dos outros.

Você não acha que o eleitor acabou aderindo a história do novo? Não seria melhor um novo tucano em São Paulo?
Não, porque eles também seriam carimbados como elitistas, amigos dos ricos. Fica mais fácil chamar o Serra de velho. Se fosse o Bruno Covas, seria chamado de inexperiente. Se fosse o Andrea Matarazzo, seria o representante dos banqueiros. O PT é muito melhor em construção e desconstrução de imagem. O Lula parece que até hoje é um operário recém-chegado do Nordeste. Foi presidente durante oito anos, influente no cenário internacional e mantém a imagem de alguém massacrado pelos poderosos. Além disso, o PSDB é muito ruim como oposição e principalmente na defesa dos seus aliados. Eu vi esses dias pela primeira vez um tucano que não é serrista, Marcos Zerbini, que atribui a si mesmo parte da culpa de Serra ter deixado a prefeitura em 2006. Foi o primeiro tucano a assumir, não teve um desgraçado para assumir isso desde 2010.

Tem fundamento os rumores de que o PPS poderia se fundir ao PSDB?
Não tem a menor hipótese de fusão neste caso. O PPS sequer tem o PSDB em conta como aliado político. Quando apoiamos candidaturas do PSDB é porque consideramos que eles são os melhores naquele cenário. O PPS se vê em Brasília muito mais aguerrido e combativo do que o PSDB. Eles têm membros mais combativos, mas, enquanto conjunto, o PSDB é muito invertebrado.

Você acreditava que poderia chegar ao segundo turno?
Eu achava muito possível chegar ao segundo turno quando a candidatura do Serra ainda não era oficial, porque o cenário era completamente novo e haviam duas vagas em aberto. Quando Serra entrou na disputa, eu achava que o resultado para a segunda vaga estava completamente em aberto. Aí, o Russomanno foi se consolidando. E no final ficou a disputa entre Russomanno e PT. O partido usou a última semana para destruí-lo.

Você acreditava que Russomanno conseguiria um desempenho de destaque?
Eu sabia que isso aconteceria. O Russomanno já era de uma emissora aberta de televisão há muito tempo. Tem um programa que defende o cidadão, o consumidor. Não era uma pessoa que ia passar a existir na televisão a partir da outra semana como foi o caso do Haddad. Se fosse tão insignificante, ele teria caído. Isso demonstrava que não seria fácil ele cair. Não era como no começo, quando ele e Netinho apareciam na frente das pesquisas. Ele se manteve na frente e o Netinho viu sua rejeição crescer pouco a pouco e ele foi desidratando.

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