Presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, diz que petistas foram condenados sem provas, apesar do equilíbrio na condução do julgamento do mensalão

Brasil Econômico

O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), vive um dilema. Ele comanda um dos três poderes da República — e essa posição exige discrição em relação aos outros dois. Por outro lado, ele ocupa um dos mais importantes postos do PT no organograma do poder nacional. Nessa entrevista exclusiva concedida ao Brasil Econômico durante um evento com empresários no México, Maia fala sobre o julgamento do mensalão e analisa o desempenho do PT nas eleições.

O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS)
Antonio Cruz/ABr
O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS)

Brasil Econômico: Como o sr. viu a condenação de José Dirceu?

Marco Maia: A condenação dele foi emblemática. Ela trata sobre uma mudança de comportamento do STF em votações de casos como este. Não há nenhuma prova nos autos e nenhuma afirmação contundente dos depoentes que envolva o ex-ministro na distribuição dos recursos que foram aferidos pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Na minha avaliação, não há prova cabal do envolvimento do ex-ministro naquele momento. Essa discussão vai permanecer nos próximos meses e anos e levantará muitos debates sobre a conveniência ou não da condenação dele.

BE: O sr. acha que o STF fez um julgamento político e foi influenciado pela mídia, como dizem os ex-dirigentes petistas?

MM: Eu não gostaria de dizer isso. Acho que os ministros têm se esforçado para conduzir o julgamento da forma mais equilibrada possível. Mas nestes casos específicos, em que não há comprovação, confirmação ou prova cabal, deveria permanecer aquela máxima do direito que é usada no mundo inteiro e teve origem no direito americano: se há dúvida, a decisão deve ser pró-réu.

BE: Como se sentiu ao ler as manchetes dos jornais sobre as condenações de José Dirceu e José Genoino?

MM:  Tenho confiança absoluta no comportamento do José Genoino e do José Dirceu. São pessoas que ao longo da vida tiveram uma trajetória correta. Nunca praticaram qualquer tipo de esquema para seu favorecimento pessoal. Basta você ver onde mora o Genoino até hoje. Ele é uma pessoa extremamente simples. Em Brasília, ele dormia e dorme até hoje em um hotel onde você não dormiria. O que aconteceu com ele foi muito triste. Mas precisamos encarar isso como algo da democracia brasileira. Outros julgamentos virão pela frente e serão encarados da mesma maneira pelo STF.

BE: Qual foi a sua avaliação sobre o resultado das eleições municipais para o PT?

MM: As eleições demonstraram um grande equilíbrio entre as principais forças políticas do Brasil. O resultado foi muito semelhante com o da última eleição, em 2008. Os partidos com maior tradição continuaram conquistando um número maior de prefeituras. O PT, que é uma legenda relativamente nova, vem ampliando seu número de prefeituras. É natural, porém, que o embate político produza derrotas pontuais. O PT não elegeu prefeitos em cidades importantes do país.

BE: O julgamento do mensalão teve impacto para os palanques petistas?

MM: O impacto foi maior nos grandes centros urbanos. Nas demais cidades o cidadão estava mais preocupado em discutir os temas municipais. O saldo final foi que o PT continuou em uma rota de crescimento e fortalecimento nas pequenas e médias cidades. Isso estava dentro da estratégia do partido.

BE: O PT teve fraco desempenho em Porto Alegre nas duas últimas eleições municipais. Por que o partido, que já foi a maior força da cidade, não decola mais?

MM: Um grande erro foi cometido pelo PT em Porto Alegre: o partido devia ter feito alianças. Devia ter exercitado aquilo que o Lula fez pelo Brasil, que foi construir uma política mais ampla. Onde o PT fez aliança, e construiu um arcabouço político mais consolidado, ele venceu. Onde não fez, perdeu. Isso aconteceu em Porto Alegre.

BE: Como será a agenda da Câmara neste fim de ano?

MM: Temos uma pauta extensa até o final do ano: royalties do petróleo, o Código de Processo Civil, o novo marco civil da internet, o fim do fator previdenciário. E tem as medidas provisórias, entre elas a que reduz a tarifa da energia elétrica. O ano não acabou ainda. Tem muito debate pela frente.

BE: Está tudo certo na sua sucessão em relação ao apoio do PT ao Henrique Eduardo Alves, do PMDB?

MM: Temos um acordo com o PMDB e vamos cumpri-lo na íntegra. Mas esse acordo é entre os dois partidos. Precisamos estender esse acordo para os outros partidos da Câmara dos Deputados. Vamos construir essa tarefa até o fim do ano.

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