PT compara julgamento do mensalão à Operação Mãos Limpas na Itália

Após condenações, partido diz ver risco de uma 'criminalização' da atividade política no País

Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

Ganhou força entre setores do PT nas últimas semanas a tese de que o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pode representar para o Brasil o que foi a Operação Mãos Limpas para a Itália nos anos 90. 

Segundo alguns dirigentes petistas e advogados dos réus do mensalão, a operação italiana, que tinha como objetivo varrer a corrupção partidária, acabou por criminalizar a atividade política, criando espaço para o resurgimento do fascismo e a ascensão de Silvio Berlusconi, um político de extrema direita que se apresentava como empresário e é investigado por supostas ligações com a máfia.

Especial: Confira a cobertura completa do iG sobre o julgamento do mensalão

Leia também: Maioria do STF absolve três réus por lavagem de dinheiro

Para setores do PT, o efeito midiático do julgamento do mensalão no eleitorado e a jurisprudência criada pelo STF podem surtir efeito semelhante na política brasileira, aumentando o descrédito da população em relação à classe política e abrindo espaço para o surgimento de oportunistas.

Na reunião de ontem do diretório nacional do PT, alguns dirigentes chegaram a sugerir que a tese seja usada como argumento na defesa política que o partido pretende fazer junto à sociedade depois do segundo turno das eleições municipais.

Segundo o juiz aposentado Wálter Maierovitch, presidente do Instituto Brasileiroi Giovanni Falcone (nome do juiz assassinado durante a Operação Mãos Limpas), a comparação é completamente equivocada.

Maierovitch lembra que ao contrário do caso brasileiro, no qual estão sendo julgados apenas algumas pessoas, a investigação italiana resultou em uma devassa que levou à eliminação de todos os partidos do país, tanto da direita quanto da esquerda, inaugurando uma nova era na política da Itália.

“Essa é uma interpretação equivocada. O mensalão é uma coisa específica, circunscrita a algumas dezenas de pessoas. A operação mãos limpas eliminou os partidos políticos e chegou até o primeiro ministro, que foi obrigado a fugir para a Tunísia”, disse o juiz.

Saiba mais: Maioria do Supremo condena Dirceu, Genoino e Delúbio por corrupção ativa

Realizada no início dos anos 90, a Operação Mãos Limpas investigou mais de 6 mil pessoas e gerou quase 3 mil mandados de prisão. Entre os alvos estavam 872 empresários e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam ocupado a cadeira de primeiro ministro.

“Se o PT insistir nisso vai dar um tiro no pé”, disse Maierovitch. Ele lembrou que no início da década de 90, quando o PT estava na oposição e a operação em andamento, foi procurado pelo hoje ministro da Educação, Aloizio Mercadante, para intermediar o contato com o procurador italiano Giuliano Turoni, um dos responsáveis pela Operação Mãos Limpas.

“Trouxemos o procurador ao Brasil e ele participou de um encontro com o PT em um auditório na rua Augusta. O PT queria realizar uma Operação Mãos Limpas no Brasil”, disse Maierovitch.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG