Para novos líderes do PT, Dirceu errou ao cobrar julgamento no STF

Cada vez mais isolado e abatido, ex-ministro perdeu o apetite e mantém rotina pesada de exercícios desde que a Corte começou a sinalizar que o condenaria

Clarissa Oliveira e Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

Famoso pelas festas de aniversário que costumava organizar anualmente no Bar Avenida, na zona oeste da capital paulista, José Dirceu convidou em março de 2007 nada menos do que mil amigos e aliados políticos para a comemoração de seus 61 anos. Na ocasião, tomou o microfone e, para as centenas de pessoas que aceitaram o convite, o ex-chefe da Casa Civil engatou: “Não quero impunidade ou prescrição. Quero ser julgado pelo Supremo”. A plateia embalou o discurso aos gritos de “Volta Zé”, que prosseguiu com a fala: “Vamos começar, sim, a campanha pela minha anistia. Mas vamos fazer do jeito nosso. Na base do PT”.

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AE
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Mais de cinco anos depois, Dirceu assistiu ontem aos votos de seis ministros do Supremo a favor de sua condenação por corrupção ativa , que deve ser confirmada na sessão desta quarta-feira na Corte, com o voto do ministro Celso de Mello. Junto com ele, foram condenados vários réus pelo mesmo crime, entre eles o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro Delúbio Soares. Diante da votação, a mesma base do PT convocada pelo ex-chefe da Casa Civil em 2007, agora comandada por novos líderes, avalia que ele cometeu naquele discurso seu maior erro estratégico. Ao repetir incessantemente que queria ser julgado para provar sua inocência, dizem petistas, Dirceu agora ficou sem discurso.

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Quem esteve com Dirceu nas últimas semanas conta que ele está visivelmente abatido. Ele já mantinha há alguns anos uma dieta restrita, com quantidade reduzida de carboidratos e restrição total de sal. Ele costuma reservar espaço no cardápio apenas para um bom vinho. Mas, nas últimas semanas, perdeu o apetite. Ainda assim, mantém uma rotina pesada de exercícios físicos diários, o que o deixou bem mais magro.

Dirceu também ficou mais isolado. Passou a sair menos de sua casa em Vinhedo, no interior de São Paulo. Em vez disso, recebe alguns poucos amigos para almoços e jantares. Jornalistas da sua confiança também foram recebidos ocasionalmente por ele, para conversas reservadas sobre o andamento do julgamento. Ele chegou também a encontrar o cineasta José Padilha, preocupado com a informação de que ele estaria produzindo um filme que teria como mote o escândalo do mensalão.

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Na noite desta quarta-feira, aliados de Dirceu admitiam que tanto o partido como o ex-ministro só se convenceram de que o resultado não seria a absolvição semanas após o início do julgamento. Até então, afirma um interlocutor, o ex-ministro se mostrava confiante de que seria inocentado. O julgamento, dizia ele, não seria “meramente político”. “Em agosto, quando as primeiras condenações começaram a tomar forma, o Zé já percebeu que a coisa seria pesada”, contou um colega do ex-ministro. Colegas de Dirceu afirmam que ele é, ao menos, o réu do mensalão que mais tem a “solidariedade” do partido.

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Uma vez concluído o julgamento por corrupção ativa, Dirceu ainda terá de receber o veredito sobre a acusação de formação de quadrilha, o que ocorrerá somente no fim do julgamento. Só pelo crime analisado na sessão de ontem, ele estaria sujeito a penas que podem variar entre quatro anos e oito meses a 18 anos de prisão. Se os ministros do STF optarem pelas penas mínimas, o ex-ministro tende a ficar livre da prisão em regime fechado. De qualquer forma, aliados insistem que ele está “preparado para o que vier”. “Piscologicamente, ele está bem. Ele está se preparando há meses para o que vem pela frente”, disse um petista.

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