André Singer: 'O lulismo não é um monopólio do PT'

Ao iG, ex-porta-voz da Presidência afirma que outras forças políticas se realinharam em torno do fenômeno, guiados por ações como Bolsa Família e aumento do salário mínimo

Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

No recém-lançado Os sentidos do lulismo – reforma gradual e pacto conservador  (Companhia das Letras), o cientista político e jornalista André Singer defende a tese de que as políticas sociais e de distribuição de renda do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva criaram um grande bloco de eleitores que impôs uma nova agenda ao País. Isso teria levado todas as demais forças políticas, inclusive a oposição, a se realinharem em torno de ações como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo.

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Por um lado isso ajudou a diminuir o fosso social que separa ricos e pobres no Brasil. Por outro, obrigou Lula a firmar um pacto com setores mais conservadores da sociedade e a se afastar de bandeiras históricas da fundação do PT. À conjunção destas posições naturalmente antagônicas, Singer batizou de lulismo. Além de pesquisar com rigor científico o fenômeno do lulismo, o autor foi espectador privilegiado de todo o processo, na condição de porta-voz da Presidência da República durante o primeiro mandato de Lula.

Em entrevista concedida ao iG em sua sala na Universidade de São Paulo (USP), Singer disse que o petismo foi engolido pelo lulismo, que o fenômeno ainda deve durar por pelo menos mais uma década e pode ser apropriado por outras forças políticas. Leiz abaixo os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil
André Singer, na época em que era porta-voz da Presidência, durante o governo do ex-presidente Lula

iG – Quais as diferenças entre lulismo e petismo?

André Singer - Originalmente o petismo foi organizado em torno daquilo que eu chamo de espírito do Sion ( colégio paulistano onde o PT foi fundado, em 1980 ) que marcou o partido durante os 20 primeiros anos. A marca fundamental daquele momento é o radicalismo. O PT se assumiu como partido radical dentro de uma cultura política que sempre foi avessa a isso. O Brasil tem uma longa tradição de conciliação. Portanto a grande novidade do PT foi ter assumido uma postura abertamente radical. Existem alguns exemplo de como esse radicalismo se traduziu em ação: a decisão de não votar no Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1985, nem na Constituinte, em 1988. Mas talvez o exemplo mais radical foi ao recusar o apoio gratuito que o Ulysses Guimarães ofereceu em nome do PMDB quando Lula tinha condições de vencer Collor no segundo turno da eleição presidencial de 1989. O petismo trazia até 2002 essa marca e o lulismo surgiu a partir de uma mudança dessa definição radical no primeiro e segundo mandatos de Lula, mandatos precedidos por uma campanha com espírito de conciliação que pode ser visto na Carta ao Povo Brasileiro, que tem compromissos de fundo com o capital, ou na escolha de uma aliança com o Partido Liberal que já no nome trazia uma ideologia contrária à do PT e na decisão de colocar como vice um grande empresário brasileiro. José Alencar acabou se revelando um homem extraordinário mas sua escolha é cheia de significados. Aí começa a história do lulismo, que tem a ver com um pacto que chamo de pacto conservador, já sinalizado na campanha de 2002 e que, de fato, foi cumprido.

iG – Qual é a novidade neste modelo?

Singer - Se minha argumentação parasse aqui ela ficaria manca porque não se trata apenas de um pacto conservador. Na medida em que o mandato foi se cumprindo houve uma combinação surpreendente deste pacto conservador com medidas de combate à pobreza e redução da desigualdade. Isso caracteriza uma política econômica que não é propriamente conservadora. É uma coisa nova. Essa combinação de elementos contrários é o que eu chamo de lulismo.

iG – O lulismo engoliu o petismo?

Singer – Dentro do PT, sim. O que chamo de espírito do Sion continua presente no PT e não é irrelevante. Ainda existem alas no partido que pensam em relação à postura original do PT. Não sei quantificar. É uma parcela significativa do partido, mas que deixou de ser predominante. A direção do PT foi em direção ao lulismo. O lulismo virou o programa real do partido.

iG – O lulismo é um monopólio do PT ou pode ser apropriado por outras forças políticas?

Singer – Não é um monopólio do PT. Em 2006 houve um realinhamento eleitoral e os realinhamentos têm a característica de impor uma nova agenda. Isso obrigou a própria oposição a se deslocar em direção a esta nova agenda e a agenda que está fixada é a de combate à pobreza, tanto que em 2010 Serra propôs dobrar os benefícios do Bolsa Família. E isso não foi só retórica. Quando se forma uma nova maioria dotada de estabilidade –e minha hipótese é que isso é uma coisa de longa duração— todas as forças são obrigadas a de algum modo se rearrumar para fazer frente a esta nova agenda. Essa apropriação do lulismo é típica do realinhamento.

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iG – Se o lulismo é um pacto conservador o que explica a reação contrária de setores da elite brasileira?

Singer – Pacto necessariamente implica um acordo entre diferentes, entre forças que têm conflitos. Pacto não significa resolver estes conflitos mas encontrar um modo de viver com eles. Isso implica tensões, separações e oscilações dentro dele. Quando se fala em pacto está reconhecido que existe o conflito. Essa reação tem duas facetas diferentes. A primeira é que a luta de classes continua existindo e se expressa na forte divergência que existe sobre a política econômica que está o tempo todo em jogo. Maior ou menor autonomia do Banco Central? Maior ou menor taxa de juros? Maior ou menor gasto público? E assim por diante. Há decisões extremamente relevantes sendo tomadas o tempo todo que envolvem burguesia e proletariado. Então o conflito central continua de pé e é arbitrado pelo governo que ora pende para um lado, ora para o outro. De alguma maneira, com a mudança do PT, este conflito que era evidente e se expressava no confronto entre esquerda e direita, recuou para o fundo da cena. Ele ainda existe mas é mais difícil de perceber. O outro aspecto é que a política de combate à pobreza e redução da desigualdade provocou uma forte reação da classe média tradicional.

Agência Estado
Singer admite que o lulismo engoliu o petismo

iG – É uma reação ideológica?

Singer - Isso tem um aspecto ideológico mas também material. Há uma diferença entre o grande capital, que está olhando para as grandes linhas de política econômica e pressionando numa ou noutra direção, e o que eu tenho chamado de base de massa do grande capital que é a classe média tradicional. Esta parcela está mobilizada por um sentimento de rejeição às políticas sociais que permitiram a mudança no padrão de vida dos setores de baixa e baixíssima renda. Tem um aspecto material nisso porque você pode perceber desde a redução na oferta de mão de obra para trabalho doméstico até a maior presença de pessoas que antes tinham baixa renda em lugares como aeroportos, que antes eram exclusivos dessa classe média tradicional. Isso tem um efeito real na vida deste setor. Por outro lado, parte destes programas sociais foi feita com dinheiro dos impostos. Como o imposto é pago em parte pela classe média, o raciocínio é de que este recurso tem saído do bolso das pessoas que não têm gostado de ver este movimento de chegada de mais gente nos seus espaços. Parece ser algo como uma espécie de crença de que é normal que haja privilégios.

iG – Isso pode levar a confrontos e radicalização?

Singer – Não sei dizer no plano da sociedade. No plano político, observo que há uma espécie de blindagem desse conflito que está posto e determina uma polarização partidária. Apesar dos efeitos do realinhamento que obrigaram a própria oposição a se deslocar em direção a uma certa agenda, PT e PSDB continuam representando polos diferentes na política brasileira. Ainda há uma polarização por causa dessas bases sociais tão diferentes que estão confrontadas. No entanto, passamos por um período prolongado de ausência de radicalização política, uma espécie de paz política. Isso porque o lulismo tem como um de seus componentes não ser mobilizador. A mobilização produziria radicalização e confronto. Como o lulismo é um modelo de mudança dentro da ordem, até com um reforço da ordem, ele não é e não pode ser mobilizador. Isso faz com que o conflito não tenha uma expressão política partidária, eleitoral, institucional. A tal ponto que há uma grande frustração da classe média tradicional porque não há um partido político que expresse essa carga de hostilidade. Imagino que haja até uma frustração de certa forma contida. Mas no que depender do modelo lulista isso vai continuar.

iG – Para algumas pessoas, a oposição mais agressiva ao lulismo está fora dos partidos. O PT, por exemplo, aponta a imprensa. Há espaço para surgimento de um partido que represente os setores contrários ao lulismo?

Singer – Em relação à mídia sempre é preciso lembrar que a garantia absoluta de liberdade de expressão e de imprensa é uma conquista democrática. Não existe democracia sem isso e, portanto, quaisquer que sejam as opiniões que a imprensa tenha, elas precisam ser aceitas dentro funcionamento normal da democracia. Isto posto é preciso dizer, sem criar fantasmas, que de fato tem havido uma certa desarticulação da oposição, que não consegue encontrar um discurso eleitoralmente eficiente para se relacionar com o lulismo, e neste contexto a imprensa às vezes cumpre o papel de fazer um tipo de crítica mais constante e às vezes até mais articulada e definida ao governo. Então poderia se dizer que sim, a imprensa às vezes cumpre o papel de oposição. Mas não acho que tenha espaço para um novo partido. Infelizmente o quadro partidário brasileiro está pouco definido e isso não é bom para a democracia. É uma indefinição que começou com a aliança entre PSDB e PFL em 1994 e continua com as alianças que o PT fez com o PL e depois outros partidos da direita a partir de 2002.

iG – A questão ética e o julgamento do mensalão são ameaças ao lulismo?

Singer – Provavelmente, dependendo do resultado, o julgamento terá impacto sobre toda a política brasileira, inclusive sobre o lulismo. Já a questão ética é uma dimensão de uma certa maneira separada porque ela tem a ver com o patrimonialismo e atravessa a política brasileira de A a Z. Quando fui escrever o livro pensei neste problema e concluí que este é um universo à parte. Não sou a pessoa habilitada para falar nisso porque na minha pesquisa me concentrei na questão da igualdade até porque fomos até pouco tempo o país mais desigual do mundo. Estou, na verdade, tentando justificar uma não resposta.

iG – Quando o modelo do lulismo vai se esgotar?

Singer – Não há como prever mas a tese é de um realinhamento de longo prazo. O lulismo já tem 10 anos. Talvez mais 10 anos.

iG – O lulismo é uma espécie de camisa de força, no sentido de que o sistema eleitoral assimilou o modelo e hoje o replica em todos os locais a instâncias?

Singer – Se você quiser usar a expressão camisa de força é até correto. Mas ela precisa ser compreendida como efeito do realinhamento. É isso que eu chamo de imposição de uma agenda. Não tem como sair dela porque eleitoralmente se constituiu uma maioria. É por isso que houve essa migração de políticos do DEM para o PSD. É para ficar numa posição que não seja antagônica a esta maioria. Se um político antagonizar com a maioria vai perder logo de cara porque fica com a minoria. Mas dentro disso que você chamou de camisa de força vejo um aspecto positivo porque em um país tão desigual quanto o Brasil o fato de ter se formado uma maioria que obrigue seja quem for o governo a fazer política para reduzir a desigualdade é muito importante. A gente precisa olhar para o aspecto grande. Superar este abismo social é o desafio que está posto para o Brasil. O fato de que todos os competidores que têm aspirações majoritárias se sintam constrangidos --e você usou a expressão camisa de força-- a atender essa agenda, eu não acho ruim.

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