'Foi um alívio', lembra autor do voto que decidiu impeachment de Collor

Em conversa com o iG, ex-deputado Paulo Romano relembra voto que garantiu a maioria necessária à abertura do processo e conta que ex-presidente tentou dissuadi-lo

Bruna Carvalho - iG São Paulo | - Atualizada às

"Meu voto, pela dignidade, por aquilo que Minas Gerais representa, é sim. Viva o Brasil." Com essa frase, o então deputado federal Paulo Romano, do PFL mineiro, sentenciava a abertura do processo de impeachment contra o presidente Fernando Collor de Melo na Câmara dos Deputados, em 29 de setembro de 1992.

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Há 20 anos, completos neste sábado, o "sim" decisivo provocou euforia no Congresso e uma onda de comemorações em todo o País. Telões foram espalhados em praças das principais capitais, onde a população se reunia, contando voto a voto, e vibrando como em um jogo de Copa do Mundo.

Naquele dia, Paulo Romano, que entrou no Congresso como suplente e cumpriu somente três anos e dois meses de mandato, estava no fundo do plenário em Brasília e, até chegar o seu momento de falar, não fazia ideia de que o seu voto seria o definitivo. "Demorei para chegar até o microfone. Estava uma zueira total, nem dava para ouvir o que eu falei", relembrou Romano, em conversa com o  iG .

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"Eu não considerava aquele um julgamento político. A nação estava mobilizada e representada pela juventude nas ruas. Foi uma sensação de alívio político. (...) Foi um dos raros momentos do dia a dia do Congresso em que tivemos um alinhamento forte entre os anseios da nação e da Câmara." Seu discurso também não estava preparado, diz ele. "Um deputado estava doente, outro deputado não votou. Além da ordem alfabética tinha a ordem pelos Estados também. Eu fiquei sabendo na hora ( que daria o voto definitivo )."

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Romano, que hoje é, em Minas Gerais, secretário-adjunto de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, disse que poucos dias antes da votação ninguém tinha certeza do que iria acontecer. Esperava-se que o processo de impeachment fosse aberto, mas não que seria legitimado com esmagadora maioria. Dos 503 deputados, 480 estavam presentes. Desses, 441 votaram a favor, e 38 contra.

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O PFL, seu partido na época, integrava a base aliada do governo Collor, e chegou a ocupar ministérios importantes como o da Educação, com Carlos Chiarelli, e da Saúde, de Alceni Guerra. Apesar disso, o partido já avaliava a dificuldade de manter o ex-presidente, alvo desde maio de denúncias de um esquema de corrupção no governo que envolvia seu ex-tesoureiro de campanha, PC Farias .

No dia da votação, segundo Romano, o partido tinha liberado seus deputados a votar de acordo com suas posições. "Eu fui o primeiro ( do PFL ) a abrir meu voto, certamente aquilo chamou atenção. Fui procurado para mudar minha posição, que eu tinha assumido em coletiva ( de imprensa ). Com certeza não ia mudar de voto. Era uma questão de foro íntimo", disse.

Mas o clima que antecedeu o fatídico 29 de setembro, segundo ele, era de pressão sobre os congressistas. "Foi um clima muito tenso para mim, porque eu fui procurado por membros do governo, ministros, gente que tinha ligação íntima com o presidente", afirma. Segundo Romano, nas vésperas da votação, ele e o próprio Collor tiveram uma conversa reservada, durante cerca de 50 minutos, na qual o ex-presidente teria tentado convencê-lo a mudar de opinião.

Romano afirma que o então presidente dizia que um impeachment seria danoso para o País e que as denúncias do chamado esquema PC eram um "absurdo". "Eu insisti com ele que ( minha posição ) não tinha nenhuma relação de foro político. Minha decisão era de foro íntimo. Ele falou que aquilo era um 'linchamento político'. Ele usou essa expressão. Eu disse para ele que não era. Que era uma maneira de ele se reconciliar com a nação."

O dia 29 de setembro de 1992 configurou-se, para o deputado, um alívio. "Foi muito desgastante esse quadro anterior. Isso sedimentou minhas convicções de maneira que quando chegou aquela oportunidade de dizer que eu estava favorável ao impeachment foi um alívio. Eu senti aquele calor da cidadania, da mobilização que tinha fora do Congresso. Foi o fim de um processo que, afinal de contas, foi importante para a democracia."

Apesar da importância histórica que seu "sim" teve em 1992, Romano nunca mais voltou a ter cargo legislativo. Ele tentou uma reeleição em 1994, mas saiu derrotado nas urnas. "Carreira política propriamente dita eu não tive. Entrei, mas não fui reeleito. Aí entendi que não era meu perfil também. Estava acostumado com o executivo, para ver os resultados mais de perto."

Ligado aos governos Aécio Neves e Antonio Anastasia, ambos do PSDB em Minas Gerais, Romano é, desde 2006, secretário de Agricultura. Antes, foi da Secretaria de Recursos Hídricos dentro do Ministério do Meio Ambiente, no governo Fernando Henrique Cardoso . "O ambiente na política não me estimulava muito." Ainda assim, Romano participou das campanhas de Anastasia e Aécio em 2010. "Participei como cidadão", afirma.

Quanto à presença de Collor atualmente nos corredores do Senado, Romano é cauteloso. "Não caberia fazer julgamento, do ponto de vista do direito de ele voltar ( à cena política ). Como um criminoso que vai para a cadeia para cumprir pena por um determinado delito, quando retorna, volta com sua plena condição de cidadão", afirmou. "Ele representa o Estado de Alagoas no Senado. No jogo democrático, a população de Alagoas entendeu que ele merecia."

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