Padre Ticão: 'A religião é usada de maneira cruel na campanha'

O religioso mais influente da zona leste fala o que pensa sobre política, políticos e polêmicas

Rafael Abrantes - Brasil Econômico |

No debate sobre fé e política que incendiou corações e mentes na campanha eleitoral em São Paulo, um personagem passou desapercebido pelos holofotes da mídia. Antonio Luiz Marchioni, mais conhecido como padre Ticão, é o principal nome da Igreja Católica na zona leste da capital.

Assediado por petistas e tucanos, ele não nega o espaço da religião na fé dos fiéis em relação aos candidatos. “Mas em períodos eleitorais, a religião é usada de maneira cruel para manipulação e interesses escusos de poder”, disse ao Brasil Econômico . A confissão, segundo ele, se deve a ingredientes de “fanatismo, hipocrisia e falso moralismo”. Faltando dez dias para o 1º turno, quando questionado nas missas sobre seu voto, o padre Ticão prefere não responder. “Eu devolvo a pergunta”, diz.

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Responsável pela administração da paróquia de São Francisco de Assis, no bairro de Ermelino Matarazzo, ele está convencido de que contabilizar votos para um dos nomes inscritos nas urnas não deve ser o papel de qualquer igreja ou centro religioso. “Não declaro meu voto como padre. Mas quem me conhece, sabe qual a minha preferência”. Depois de receber a “visita” dos principais prefeituráveis da capital, ele delimitou sua influência aos comentários políticos em reuniões com associações de moradores. Sua preocupação é sempre a mesma: qual candidato dá mais ênfase à propostas nas áreas sociais. “Falar que o candidato é de Deus é tudo enganação. Isso é lamentável. Deixo as pessoas tomarem suas decisões."

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Ticão é historicamente mais próximo ao PT, mas toma cuidado ao tocar no assunto. Em 1988, quando ainda era um jovem sacerdote, ele fez campanha abertamente para Luiza Erundina e se arrependeu disso. “Eu apoiei a Erundina dentro da paróquia. Ela venceu, mas isso afastou muita gente daqui”, afirma. Nesta eleição, Ticão conta já ter sofrido assédio de mais de trinta candidatos e dirigentes de partidos interessados em garantir seu apoio - “pessoalmente, por telefone ou email”. Apesar disso, critica a baixa participação dos doze prefeituráveis paulistanos em debates organizados pela paróquia, desde o início da campanha eleitoral.

No último encontro, apenas Fernando Haddad (PT), Gabriel Chalita (PMDB) e Soninha Francine (PPS) compareceram à mesa. Todos receberam em mãos um plano com 40 metas “prioritárias” para a zona leste, elaborado pela Diocese de São Miguel Paulista. A cartilha cobra um “tratamento mais digno” do poder público aos 3,9 milhões de habitantes da região. “A zona leste foi abandonada pelos partidos”, reclama. Ticão diz que a igreja é procurada pelas legendas nos dois meses pré-eleição. “Mas depois, elas não voltam ao bairro. Só aparecem na próxima campanha”. Em meio à onda Russomanno, o padre reitera o perfil do voto na região. “Os moradores oscilam entre PT e PSDB. Ora é azul, ora é vermelho”, arrisca. Uma das propostas mais defendidas por Ticão até outubro é a inauguração da Universidade Federal da Zona Leste. O terreno foi prometido “11 vezes” pelo prefeito Gilberto Kassab, mas até agora nada. “O único candidato que fala abertamente sobre a Universidade é Haddad”, diz.

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