Em debate morno, d. Odilo Scherer critica uso de religião na política

Promovido pela Arquidiocese de São Paulo, colóquio reuniu quatro dos principais candidatos à Prefeitura. Convidado, líder Russomanno não participou

Rafael Romer | - Atualizada às

Promovido pela Arquidiocese de São Paulo na tarde desta quinta-feira (20), o primeiro colóquio da Igreja Católica foi na contramão do endurecimento do tom entre candidatos que marca a reta final das eleições municipais . Com poucos confrontos diretos entre os quatro candidatos participantes, o destaque do encontro ficou na abertura do evento, feita pelo Arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, que sinalizou que a Igreja Católica não deve tomar partido na campanha deste ano.

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“As orientações nossas sempre foram de não indicar nomes ou partidos, deixando as escolhas livres ao cidadão, que deve exercer seu direito de voto e a plena liberdade de conciência”, disse. "Por isso nós não aprovamos que nossas igrejas sejam transformadas em espécies de currais eleitorais", completou, afirmando que a mobilização em favor de candidatos deve ser feita apenas por “cristãos leigos”, mas não por membros da igreja.

O arcebispo criticou também instituições religiosas que se engajam no processo político e promovem propagandas para seus fiéis. "Consideramos que a manipulação e instrumentalização da religião em função da busca do poder político não são um bem para sociedade", disse. 

Agência Estado
Os candidatos Gabriel Chalita (PMDB), José Serra (PSDB), Soninha Francine (PPS) e Fernando Haddad (PT) participam do colóquio promovido pela Arquidiocese de São Paulo

Na presença de padres e freiras da Igreja Católica, José Serra (PSDB), Fernando Haddad (PT), Gabriel Chalita (PMDB) e Soninha Francine (PPS) foram questionados pelos religiosos sobre temas como moradia, assistência social e educação. O candidato líder nas pesquisas, Celso Russomanno (PRB), foi convidado para o evento, mas não participou. O modelo definido, com o sorteio de um candidato para responder as perguntas dos religiosos e outro para comentá-las, deixou um espaço reduzido para confrontos diretos.

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Entretanto, Serra e Haddad, segundo e terceiro colocados nas pesquisas, respectivamente, trocaram farpas em alguns momentos do debate. Questionado sobre a manutenção de convênios com entidades assistencialista e a prefeitura, Serra aproveitou para criticar a criação de vagas em creches durante a gestão do petista no Ministério da Educação. "(Haddad) anunciou a criação de mais de 6 mil creches no país em 2007, até hoje, não foram mais do que 300", afirmou, citando o filósofo Santo Agostinho. "Não é o suficiente querer fazer coisas boas, é preciso fazê-las bem", disse. Em suas considerações finais, Haddad respondeu à provocação do tucano. "Eu gosto de fazer as coisas bem feitas. Eu não gosto de citar frase de filosofia que leio na orelha de livro", alfinetou.

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Os candidatos voltaram a duelar quando perguntados sobre como será o tratamento dos moradores de rua pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) em seus governos. Haddad acusou gestão do prefeito Gilberto Kassab, aliado de Serra, de promover uma política higienista e violenta através da GCM. "A atual gestão tem uma política higienista de proibição do uso do espaço público e de perseguição às pessoas, isso tem que mudar", afirmou. O tucano saiu em defesa da GCM, afirmando que das últimas 26 mil abordagens da guarda, apenas 8 resultaram em denúncias. "Existem policiais que estão sendo processados e eles serão demitidos", defendeu. .

Russomanno

Conforme a decisão divulgada por seu comitê de campanha nesta quarta-feira, Russomanno não compareceu ao colóquio. Na última terça-feira, o candidato do PRB afirmou que só iria ao encontro se conseguisse se reunir com antecedência com o arcebispo D. Odilo Scheher, que negou a reunião alegando estar com a agenda cheia. O motivo da reunião seria uma tentativa da campanha de Russomanno de selar a paz com a Igreja Católica.

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Desde a semana passada, a Arquidiocese, através de D. Odilo, tem discutido com Marcos Pereira, presidente do PRB e braço direito de Russomanno, que apontou a Igreja Católica como uma das responsáveis pelo chamado “kit-gay” em um texto em seu blog.

A ausência de Russomanno foi tema apenas ao final do debate. Em suas considerações finais, Chalita criticou o candidato do PRB e atribuiu seu crescimento às “picuinhas”entre o PT e. “Temos um candidato em primeiro lugar que nem veio hoje, que não tem proposta nenhuma, não tem projeto”, disse. O peemedebista criticou também a postura de Russomanno de se fazer de vítima durante a campanha. “É ruim pra ele, é ruim pra democracia. Não existe eleição ganha”, afirmou.

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Serra também atribuiu a ausência do candidato à sua falta de propostas. “(É) Previsível (que ele não tenha comparecido). Até porque debate de ideias não é previsível que ele goste de fazer. Eu, até agora, não vi (propostas de Russomanno)”, afirmou e completou que o candidato é o que “talvez menos tenha proposta”.

Mensalão

Frequentemente citado durante o horário eleitoral, o tema do julgamento do mensalão ficou fora do colóquio entre os quatro candidatos. Ao final do debate, Fernando Haddad comentou a nota divulgada hoje em que seis partidos da base aliada do governo da presidenta Dilma Rousseff manifestaram-se em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criticaram a oposição e a reportagem da revista Veja, em que Marcos Valério liga o ex-presidente diretamente ao mensalão. “É uma defesa justa do presidente Lula. Tudo tem que ter um critério, não dá pra você ir manchando a reputação de uma pessoa”, disse.

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Questionado se Lula deveria vir a público para desmentir a reportagem, o petista afirmou que é hora de deixar as autoridades ponderarem sobre a questão. "O advogado [de Marcos Valério] desmentiu. Em quem confiar numa situação dessas? Até o procurador geral falou isso", afirmou.

O tucano José Serra evitou o assunto, mas defendeu que a revista tornasse público o material da reportagem para confirmar sua veracidade. "Certamente existem as gravações, acho que seriam interessante que essas gravações viessem à tona. Se estão contestando a veracidade da matéria, não quero me meter na política da revista Veja, mas o ideal era ter a gravação”, sugeriu.

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