Prefeito é preso suspeito de desvio mensal de R$ 1 milhão dos cofres públicos

Ação ocorre no município de Guapimirim, na Baixada Fluminense. Outros políticos também são procurados. Grupo ofereceu R$ 800 mil de propina para não ser investigado. Assista ao vídeo do momento da prisão do prefeito Júnior do Posto

iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

Divulgação
Dinheiro oferecido pelos suspeitos a policiais

Agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e Subsecretaria de Inteligência (Ssinte) da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro deflagraram nesta quarta-feira (5) a operação Os Intocáveis para desarticular uma quadrilha formada por políticos da cidade de Guapimirim, na Baixada Fluminense, que teria sido responsável pelo desvio nos últimos quatro anos de cerca de R$ 1 milhão mensais em dinheiro público.

Um dos alvos da ação, o prefeito da cidade, Renato Costa Mello Júnior, mais conhecido como Júnior do Posto, foi preso em sua casa, na Barra da Tijuca, na zona oeste da capital. Outras três pessoas também foram presas. Com eles, foram recolhidos cerca de R$ 1 milhão em dinheiro e joias.

De acordo com a polícia, os políticos chegaram a oferecer propina de R$ 800 mil, em notas de R$ 100 e R$ 50, para não serem investigados. O dinheiro foi depositado pela Draco em uma conta bancária por determinação da Justiça. Assista o vídeo com a prisão do prefeito.

Segundo as investigações, os suspeitos desviavam inclusive verba destinada à merenda escolar. Estão sendo cumpridos sete mandados de prisão e 45 de busca e apreensão, que foram expedidos pela Seção Criminal do Tribunal de Justiça. Além disso, outras 11 pessoas foram indiciadas, incluindo três vereadores.

Além do prefeito, os mandados de prisão incluem a subsecretária de Governo licenciada e candidata a prefeito de Guapimirim, Ismeralda Rangel Garcia, o presidente da Câmara dos Vereadores, Marcelo Prado Emerick (“Marcelo do Queijo”), o atual secretário de Governo, Isaías da Silva Braga, o Zico, e o chefe do Setor de Licitações da Prefeitura, Ramon Pereira da Costa Cardoso. Também estão sendo procurados Ivan Azevedo Valentino (“Ivan do Gazetão”) e Ronaldo Coelho Amorim (“Ronaldinho”), que tinham a função de “laranjas” da organização criminosa.

Os policiais da Draco e da Ssinte se encontram também na Prefeitura e na Câmara de Vereadores de Guapimirim para cumprir mandados de busca e apreensão.

O Ministério Público Estadual denunciou um total de 16 pessoas sob acusação dos crimes de quadrilha armada, fraude em licitação, corrupção ativa, coação no curso do processo e peculato, que podem somar até 24 anos de prisão. Entre os denunciados, que não têm mandado de prisão decretada, estão os vereadores Iram Moreno de Oliveira (“Iram da Serrana”), Alexandre Duarte de Carvalho e Marcel Rangel Garcia (“Marcel do Açougue”), que recebiam mensalmente, cada um, valores entre R$ 50 mil e R$ 80 mil para evitar que as contas da Prefeitura fossem alvo de fiscalização pela Câmara Municipal de Guapimirim.

A Operação Os Intocáveis é resultado de sete meses de investigação da Draco, a partir de uma denúncia recebida. De acordo com as investigações, o grupo roubava dinheiro público dos cofres da prefeitura por meio de diversas ações criminosas. Alguns exemplos:

- Veículos particulares em nome dos acusados eram alugados para a prefeitura a preços superfaturados, como no caso de um automóvel ano 1993 que custava R$ 7 mil por mês aos cofres municipais.

- Notas fiscais contabilizam a venda de até 60 toneladas de carnes por mês para a Prefeitura, porém essa quantidade era incompatível com a demanda do município e com o porte do fornecedor. O mesmo artifício de vendas fantasmas era usado para fraudar compras de pães e outros alimentos destinados à merenda escolar.

- O presidente da Câmara dos Vereadores, “Marcelo do Queijo”, é proprietário de uma empresa de manutenção de ar-condicionado que prestava serviços para a prefeitura com notas fiscais superfaturadas.

Propinas

Durante as investigações, os políticos criminosos procuraram policiais da Draco para tentar um “acerto”. A Draco pediu autorização judicial para, de forma simulada, aceitar uma propina, como forma de ganhar a confiança dos investigados e conseguir mais provas.

Assim, no dia 27 de julho, policiais se encontraram com os criminosos num posto de gasolina em Guapimirim para receber a quantia de R$ 800 mil, entregue em notas de R$ 100 e R$ 50, oferecida como propina pela organização criminosa para que as investigações fossem encerradas. O dinheiro foi entregue aos policiais pelo presidente da Câmara dos Vereadores, vereador “Marcelo do Queijo”, acompanhado de outras pessoas.

Chamou a atenção dos policiais o fato de as cédulas estarem úmidas e com cheiro de esterco, o que leva a crer que estavam enterradas. Na ocasião, os criminosos disseram que, a partir de janeiro de 2013, iriam pagar R$ 20 mil mensais para os policiais, caso a candidata Ismeralda Rangel Garcia ganhasse as eleições para a Prefeitura de Guapimirim.

Os R$ 800 mil recebidos pela Draco na tentativa de suborno foram imediatamente depositados numa conta bancária, à disposição da Justiça.

O prefeito Renato Costa Mello Júnior tem 35 anos, já foi deputado estadual em 1998 (aos 21 anos de idade) e vice-prefeito de Guapimirim (2004). Em 2008, tornou-se candidato a prefeito após a candidatura à reeleição de seu tio, “Nelson do Posto”, ter sido impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Júnior do Posto é filho de Renato do Posto, conhecido político de Guapimirim, assassinado em março de 2009. Sua irmã, Renata do Posto, foi deputada estadual, cassada em 2008 por envolvimento em fraude com o auxílio-educação. Há mais de uma década a família “do Posto” domina a política da cidade. Renato resolveu não se candidatar à reeleição e apoiava a candidatura de Ismeralda.

    Leia tudo sobre: corrupçãoGuapimirim

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG