'Lula não será decisivo na eleição de Belo Horizonte', diz Marcio Lacerda

Para candidato à reeleição, o senador tucano Aécio Neves e o governador Antonio Anastasia transferem tantos votos quanto Dilma Rousseff e seu antecessor no Palácio do Planalto

Pedro Venceslau - Brasil Econômico |

Na eleição municipal de 2008, em Belo Horizonte, o Brasil foi apresentado a Márcio Lacerda . Dois anos antes de Lula eleger a “técnica” Dilma Rousseff para o Palácio do Planalto, o empresário e secretário de governo de Aécio Neves venceu com folga o pleito na capital mineira.

Seu palanque surpreendeu o mundo político quando conseguiu unir no mesmo lado os antagonistas PSDB e PT. Para muitos, aquele era o laboratório de uma promissora aliança. Quatro anos depois, Lacerda disputa a reeleição em um cenário completamente diferente. Agora, amplamente conhecido do eleitorado, ele não precisa mais colar sua imagem no padrinho Aécio Neves.

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Vox Populi: Em Belo Horizonte, Lacerda tem 44%, e Patrus, 25%

Wellington Pedro/Imprensa MG
Em foto de 2009, Márcio Lacerda aparece ao lado do senador tucano Aécio Neves


No embate da campanha, ele também já não é mais visto como um quadro 100% técnico. “Não sou assim um técnico tão puro. Fui militante político na juventude e na minha vida empresarial durante 30 anos. Nunca fui militante de aparelho partidário, mas sempre fui um político”, diz nessa entrevista exclusiva ao BRASIL ECONÔMICO .

Filiado ao PSB, Lacerda se viu diante de uma encruzilhada às véspéras de formalizar sua candidatura. Depois de uma intensa crise entre os aliados PSDB e PT, o grande acordo construído em 2008 implodiu. Perfilado ao lados dos tucanos, ele viu o antigo aliado se converter em seu principal inimigo político.

E uma eleição que já estava ganha teve contornos dramáticos. Para conseguir renovar seu mandato, Márcio Lacerda terá que derrotar duas potências: Lula e Dilma Rousseff. A dupla decidiu investir pesado para que o PT volte a comandar Belo Horizonte, o que enfraqueceria o projeto de poder de Aécio Neves.

Apesar de estar em sua segunda disputa por votos, a militância do prefeito começou durante o regime militar no Partido Comunista Brasileiro e na Aliança Libertadora Nacional (ALN). Em 1975, ele fundou, com a esposa, Regina, a empresa Construtel, que atuava na construção de redes telefônicas. Em 1979, fundou o segundo empreendimento, a empresa Batik.

Nas décadas de 1980 e 1990, seus negócios tiveram um crescimento vertiginoso. Como empresário, ele participou da direção de entidades empresariais, como a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil) e a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

Em 2001, passou a integrar a direção da Federação das Indústrias de Minas Gerais, presidindo os conselhos de Desenvolvimento Tecnológico e Desenvolvimento Regional. Em 2003, assumiu a secretaria executiva do Ministério da Integração Nacional do governo Lula na gestão de Ciro Gomes.

Quatro anos depois, aceitou o convite do então governador Aécio Neves para assumir a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais. Nesse cargo, foi o responsável pela atração de investimentos de R$ 30 bilhões para Minas e levou para a então ministra Dilma a proposta para viabilizar a expansão do metrô de Belo Horizonte.

Foi assim que Márcio Lacerda cacifou-se entre tucanos, socialistas e petistas para disputar a prefeitura de Belo Horizonte. Em junho de 2008, deixou a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico para se candidatar a prefeito. Foi eleito com 60% dos votos válidos.

Qual tem sido o papel do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e do governador Antonio Anastasia (PSDB) na sua campanha em Belo Horizonte?

Até agora o senador Aécio apareceu em comerciais durante dois ou três dias logo depois do Lula entrar na campanha. No programa, ele ainda não apareceu. O governador Antonio Anastasia também não.

Em 2008, Aécio estava colado na sua campanha. Agora que o senhor é conhecido, isso não é mais necessário?

Vamos usar a imagem dele de forma dosada, porque em 2008 o excesso de exposição dos apoiadores deixou o candidato em segundo plano. Isso me prejudicou muito. Não vamos repetir esse erro agora.

Por que prejudicou?

É aquela história... Afinal, quem é o candidato? Onde ele está? Se o apoiador aparece muito, isso prejudica. Tanto é que, no segundo turno em 2008, nós mudamos isso. Minha exposição foi muito maior.

Acha que esse mesmo efeito pode acontecer com seu adversário, Patrus Ananias, que está fazendo campanha colado no ex-presidente Lula?

Não sei como eles vão atuar. Ontem, eles vieram com um programa muito agressivo. Isso significa a tentativa de encontrar uma linguagem.

Gostou do resultado da pesquisa divulgada na última quinta-feira, onde o senhor aparece com 46%, contra 30% do Patrus?

A pesquisa está dentro daquilo que estamos apurando há algum tempo e reflete uma boa avaliação da nossa gestão em Belo Horizonte. O Datafolha deu ótimo e bom de 59% para a gestão. Isso já é reflexo da televisão. Em muitos casos, até pessoas, que dizem votar no adversário por questões políticas e ideológicas, acham o nosso governo bom ou ótimo.

Divulgação
O prefeito e candidato à reeleição, Marcio Lacerda (PSB), cercado por militantes

Achou que Patrus Ananias estaria mais forte nesse momento?

Nunca achei que ele teria mais força. O PT tem 20% de simpatia do eleitorado em Belo Horizonte. Isso somado ao recall dele de ex-prefeito daria naturalmente algo entre 20% e 30%.

Em Belo Horizonte, quem transfere mais votos: o ex-presidente Lula ou o senador Aécio Neves?

As pesquisas mostram desde muito tempo que é igual. Aécio e Lula transferem a mesma coisa. Anastasia e Dilma idem.

Então, o Lula não será decisivo na campanha em BH?

Não será. Existe aqui um contrapeso.

Como explica o rompimento inesperado entre PT e PSB em Belo Horizonte? O presidente do PT, Rui Falcão, disse que houve uma traição...

Isso é a interpretação dele. O PT rompeu porque nós e os outros partidos não aceitamos fazer uma coligação proporcional. Não se pode falar em traição, porque não havia esse compromisso. O que havia era uma conversa e um documento escrito e assinado dizendo que a questão da coligação proporcional seria discutida depois que o PT indicasse o candidato a vice-prefeito. O PT levou dois meses para isso. Entre os dias 10 e 30 de junho não conseguiram chegar a um entendimento. Aí o PT municipal, que é controlado por uma pessoa que sempre foi a favor de que o partido tivesse uma candidatura própria, votou pelo rompimento da aliança.

Havia um projeto de longo prazo de manutenção dessa aliança entre PSDB, PSB e PT?

Eu fui o maior defensor e advogado da repetição dessa aliança. A impressão que fiquei é que o Fernando Pimentel e o senador Aécio Neves queriam isso. Mas a agressividade desse grupo dentro do PT, que comanda o diretório municipal, inviabilizou o processo. Isso é simples. Não tem nenhuma explicação complexa. Foi a disputa interna do PT que levou a isso.

A campanha está muito agressiva em BH?

Da nossa parte não. Mas da parte do adversário está. Estão dizendo muitas inverdades e falsidades cheias de adjetivos. Há muita incoerência. Isso revela um certo desespero.

O senhor teme que a presidenta Dilma Rousseff entre com tudo na disputa?

Não sei se ela entra. Talvez não. Eu diria que existe só 50% de chance de isso acontecer.

A presidenta conta com o seu partido, o PSB, em sua base no Congresso Nacional. Se ela entrar na campanha de Patrus, isso teria consequências?

Na nossa coligação de 19 partidos, 16 deles são apoiadores do governo do nível federal. Só três não são da base dela.

O senhor era considerado em 2008 um quadro técnico. Quatro anos depois, podemos dizer que agora virou um quadro político?

Eu não sou assim um técnico tão puro. Fui militante político na juventude e na minha vida empresarial durante 30 anos. Trabalhei no governo Lula como secretário executivo de ministério. Fui também secretário do governo Aécio Neves. Em política, você tem dois entendimentos: planejamento de implantação de políticas públicas e a militância partidária orgânica. O segundo ponto existe para você colocar as suas teses. Esse debate existe o tempo todo. O processo eleitoral é o ápice da disputa de espaço para colocar em prática suas políticas públicas. Eu nunca fui militante de aparelho partidário, mas sempre fui um político.

O PSB, que é presidido pelo governador Eduardo Campos, rompeu com o PT também em Fortaleza e Recife. Esse movimento pode abalar a aliança nacional para 2014 ou no Congresso Nacional?

O PSB tem uma identidade forte, conta com bons quadros e é leal à presidenta Dilma no apoio ao governo federal. Mas o partido tem o seu limite. Não temos que conviver com determinadas práticas dos aliados. O rompimento aconteceu em Recife, Fortaleza e Belo Horizonte por causa da dificuldade do PT em manter a unidade e fazer um diálogo de igual para igual com seus parceiros.

Então foi o PT que pisou na bola?

Sim. A minoria que defendia candidatura própria derrubou a proposta.

Considera o governador Eduardo Campos um bom nome para disputar o Palácio do Planalto em 2014?

É um bom nome, mas o senador Aécio também. O futuro vai resolver isso. Vamos cuidar de 2012 e deixar 2014 para vocês, que são analistas e bruxos da política (risos).

É possível que seja formada uma aliança em 2014 entre PSB e PSDB?

Não faço a menor ideia. Isso é pura especulação e exercício de futurologia.

Tem planos de disputar o governo mineiro em 2014?

Quero realizar meu sonho de ser um dos melhores prefeitos da história.

Acha que quatro anos é muito pouco tempo para deixar um legado?

Acho que os mandatos deviam ser de cinco ou seis anos sem reeleição. As eleições gerais no país todo deveriam ser no mesmo ano, mesmo que divididas em dois semestres diferentes.

Como estava a situação financeira de Belo Horizonte quando o senhor tomou posse?

Era uma situação equilibrada. E continua sendo equilibrada. Estamos dentro de parâmetros saudáveis.

Como está a dívida de Belo Horizonte com o governo federal?

A dívida é de 40% da receita corrente líquida. O máximo admitido é 120%.

Divulgação/Governo Minas Gerais
Prefeito Marcio Lacerda (PSB) afirma que seu perfil não é puramente técnico

O parâmetro de negociação da dívida com o governo federal devia mudar? Há quem chame de agiotagem o modelo atual...

Estamos negociando um empréstimo com o Banco Mundial de US$ 200 milhões para pagarmos toda a dívida com o governo federal de curto prazo e juros elevados. Isso já está negociado. Só depende do governo brasileiro liberar.

O senhor hoje dialoga mais com quem: o governador Eduardo Campos, o senador Aécio Neves ou o ex-ministro Ciro Gomes?

Estou muito próximo do governador Aécio Neves. Ele está envolvido na minha campanha. Nosso contato é muito frequente, mas está focado na eleição de 2012. Não estamos discutindo 2014 nem em nível estadual, nem em federal. Não existe essa preocupação nesse momento.

Por causa dos reflexos do julgamento do mensalão?

É difícil dizer. Empresário não fala muito, mas tem também a questão da crise internacional. Isso deixa os empresários sempre mais cautelosos. Não é um momento de euforia e de crescimento acelerado. O PIB terá um crescimento muito modesto esse ano. O empresário procura se preservar.

Como avalia a qualidade do seu diálogo com o governo federal?

É muito bom. Há umas duas semanas foram incluídas no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de R$ 800 milhões, obras contra enchentes em Belo Horizonte.

O diálogo com Dilma é melhor do que era com Lula?

O diálogo hoje está mais organizado, mas tivemos também boas parcerias com o presidente Lula.

Mais organizado como?

Está mais claro qual é o papel de cada ministério e qual deve ser o tipo de reunião técnica em cada caso. Essa tendência veio do governo Lula com a então ministra Dilma Rousseff. Com mais poder, ela tornou essa negociação mais técnica e organizada, na medida em que temos bons projetos.

Como avalia a gestão Dilma?

Ela está enfrentando bem essa turbulência internacional. Tem tomado diversas medidas na área econômica que eu considero adequadas. Sua gestão é muito transparente. Ela está em um bom caminho. A questão é saber até que ponto essa crise internacional vai atrapalhar os planos brasileiros. Espero que não atrapalhe.

O senhor sempre foi muito próximo do ministro e ex-prefeito de BH Fernando Pimentel. A relação entre vocês ficou abalada com o rompimento entre PSB e PT?

Não temos nos falado. Espero que depois da eleição a gente volte a conversar.

Qual é o maior gargalo em Belo Horizonte para a realização dos jogos da Copa do Mundo de 2014?

As questões do estádio e da mobilidade estão bem equacionadas. A questão dos hotéis era uma dificuldade, mas estamos com quase 30 em construção. Temos um problema que é o aeroporto. Ele está saturado. O governo federal atrasou muito as obras. Não sei até que ponto isso poderá ser um problema. Não sei o que a Infraero está planejando. Pelo menos algum terminal provisório estará pronto até a Copa.

Qual a situação do transporte público em Belo Horizonte?

Vamos terminar até o final do ano que vem o nosso projeto de 22 km de BRT. As vias ligando o centro e o aeroporto ao estádio estarão prontas. Estaremos bem. Belo Horizonte tem sido colocada pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) e pelo governo federal como a cidade mais adiantada nas obras de mobilidade urbana.

Quantos secretários uma prefeitura precisa ter para funcionar bem?

Isso é muito teórico. Depende muito da quantidade de funcionários e da complexidade da cidade. Fiz um estudo em 2010 sobre a estrutura das dez maiores cidades do Brasil. Cada uma é de um jeito. Às vezes, tem menos secretaria, mas tem mais empresas. E institutos cumprindo o papel. Em algumas cidades, o subprefeito é secretário. Em outras não é assim. Nós por exemplo temos nove secretários regionais. Cada região tem 250 mil ou 300 mil habitantes.

Defende a parceria público-privada também na saúde?

O SUS funciona contratando hospitais privados e filantrópicos. Então, essa parceria já existe. O que defendemos são parcerias para construir hospitais e centros de saúde e operar a infraestrutura deles. A saúde era e continuará sendo uma atividade pública.

Acha que o Estado de Minas Gerais está bem representado na Esplanada dos Ministérios?

Acho que não. Tem lá sete ou oito gaúchos, 13 ou 14 paulistas e só um ministro mineiro. É um desequilíbrio. Embora não exista um critério legal para definir isso, do ponto de vista político não é muito justo.

E o PSB está bem representado no governo federal?

Acho que não. Acredito que o partido deveria ter um pouco mais de espaço.

Quantos ministérios o partido deveria ter?

Não sei... Não falo necessariamente só de ministérios.

Apesar do rompimento na capital, a relação entre PSDB, PSB e PT continua forte no interior do Estado?

Continua. Os partidos são parecidos na ação política e nos princípios que defendem.

Um dia, PSDB e PT podem caminhar juntos nacionalmente?

Muito difícil. As divisões acontecem muitas vezes por motivos irracionais.

Pretende colocar o governador Eduardo Campos no seu programa na TV?

Não sei. Conversei com ele e disse que vamos aguardar um pouco para ver se seria necessário ou não.

O petismo então ainda é muito forte em BH?

Já foi mais forte.

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