‘Atual prefeito de Salvador está com ACM Neto, não comigo’, diz candidato do PT

Embora o PP, partido de João Henrique, esteja na chapa petista, Nelson Pelegrino critica o atual prefeito e diz que ele apoia seu adversário, ACM Neto

João Paulo Gondim - iG Bahia | - Atualizada às

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Nelson Pelegrino, candidato do PT em Salvador

Com a experiência de ter sido por décadas advogado de sindicatos e do PT, o soteropolitano Nelson Vicente Portela Pelegrino tem uma longa trajetória política, desde a época em que militava no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

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Atualmente, está no seu quarto mandato como deputado federal e foi por oito anos deputado da Assembleia Legislativa da Bahia. Lá, fez parte da CPI que, em 1992, investigou a relação entre o governo baiano e a OAS, construtora de César de Araújo Matta Pires, genro do avô de seu principal adversário nesta corrida eleitoral: ACM Neto (DEM). No entanto, hoje, Matta Pires está rompido com a família Magalhães.

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O tempo passou e Pelegrino agora tem o apoio de dois ex-governadores que se criaram sob as asas do carlismo: César Borges (PR) e Otto Alencar (PSD), atualmente vice-governador de Jaques Wagner.

Assim como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (de quem foi o seu primeiro líder na Câmara dos Deputados), um de seus principais cabos eleitorais, ele tenta sair vitorioso em sua quarta tentativa de chegar ao comando da Prefeitura de Salvador.

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Para isso, costurou uma aliança com 15 partidos e tem apoios de peso: Wagner (que o chamou para comandar a secretaria estadual de Justiça), a presidenta Dilma Rousseff e o próprio Lula.

Embora o PP, partido prefeito João Henrique Carneiro, esteja na coligação de sua candidatura, Pelegrino faz duras críticas à gestão e diz que quem recebe o apoio é ACM Neto, seu principal adversário, que lidera a disputa com 40% das intenções de voto, segundo pesquisa Ibope.

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Pelegrino tem apoio de Lula, Dilma e Wagner

Nelson Pelegrino: Eu tenho história nesta cidade. Uma história de luta, uma história de participação. Sou o deputado que, individualmente, mais emendas têm executadas em Salvador. E eu tenho marcas, tenho um compromisso com esta cidade. Além disso, a nossa candidatura é assentada em um projeto que bebe nas experiências vitoriosas das nossas administrações, nas experiências vitoriosas da intelectualidade de Salvador, dos movimentos sociais. E nós temos a possibilidade de fazer uma administração em parceria com o governo do Estado e com o governo federal. Essa parceria é essencial para a cidade.

iG: Qual é a diferença entre a candidatura deste ano com as de 1996, 2000 e 2004?

NP: Em 1996 e 2000, tivemos um cenário muito adverso, nós éramos oposição ao governo do Estado e ao governo federal, e, no caso, em 2000, até ao governo municipal. Em 2004, eu deixei de ir ao segundo turno por 0,35%. Em uma eleição de 1,6 milhão de habitantes, três mil votos me separaram do segundo turno. Em 2008, eu não fui candidato. Agora, nós temos uma coligação de 15 partidos, eu estou mais amadurecido, mais experiente, e nós temos hoje a possibilidade de fazer uma administração com o apoio do governo do Estado e com o apoio do governo federal.

iG: Como vai ser governar com tantos partidos que compõem a sua chapa?

NP: Feliz o candidato que tem apoio político. Nós temos três senadores na nossa coligação, o governador, mais de 20 deputados federais... Isso é um elemento favorável na nossa candidatura. Na hora de governar, vamos ter base na Câmara Municipal, vamos ter base na sociedade e vamos ter base nos planos federal e do Estado. Eu já disse e quero repetir: o critério para a ocupação de cargo na minha administração, em todos os escalões, será o da competência técnica. Eu procurarei reunir os melhores. Eles serão utilizados e seguirão um plano de governo, previamente discutido, deliberado e apresentado à cidade, e eu, prefeito de Salvador, acompanharei o plano geral e o setorial. Reunirei, periodicamente, o secretariado para cobrar cumprimento de meta.

iG: Os outros candidatos tentam associar a imagem do João Henrique à sua. Como o senhor vê isso?

NP: É uma tentativa, porque Salvador inteira sabe que um ano e meio antes de terminar o primeiro governo de João Henrique, eu tomei a decisão de deixá-lo já que divergia de seus rumos. Eu não tenho problema em fazer o debate sobre a nossa gestão da Saúde, que nós comandávamos, pois houve avanços. A Saúde foi municipalizada, houve a implantação do Samu, reduziu-se valores de contrato. Agora, eu tinha divergência porque achava não era prioridade [para João Henrique], isso foi acordado com o apoio que nós demos no segundo turno. Então, um ano e meio antes eu saí da administração. E em 2008 eu apoiei a candidatura de [Walter ] Pinheiro [hoje senador] e Lídice [da Mata, candidata a vice em 2008, atualmente senadora e prefeita de Salvador de 1993 a 1996], e passei quatro anos fora do governo João Henrique, ao contrário do candidato ACM Neto, cujo apoio no segundo turno foi decisivo para a sua vitória e que passou quatro anos ao seu lado dele. O prefeito está apoiando ACM Neto.

iG: O PP, partido do prefeito, está com o senhor. Não tem problema a legenda dele ser da sua chapa?

NP: Primeiro, não foi o PP que elegeu João Henrique. Quem o elegeu foi o PMDB, com o apoio do DEM do deputado ACM Neto. A participação do PP na nossa frente é uma entre quinze partidos. O PP está na base do governo federal e na base do governo do Estado. O PP entendeu que somos o melhor para a cidade. Agora, todos sabem quem foi que deu a vitória a João Henrique, quem passou quatro anos no seu governo. Eu, Nelson Pelegrino, não tive cargo no segundo governo João Henrique, não apoiei a sua reeleição, a minha vice-prefeita, Olívia Santana, não apoiou a reeleição de João Henrique nem teve cargo no seu governo. Assim como o PSB também não. Então, nós não temos responsabilidade com esta situação em que a cidade está. Pelo contrário, o nosso governo quer mudar esta realidade. Agora, eu, como deputado, procurei ajudar Salvador, e para isso tinha que ajudar a Prefeitura. Mas eu procurei ajudar a cidade. Eu não tenho problema em fazer esse debate, tenho absoluta tranquilidade. Veja, por exemplo, o secretário municipal de Educação [João Carlos Bacelar, cujo partido, PTN, está com ACM Neto], que tem o maior orçamento, 25%, disse: "eu apoiarei quem o prefeito João Henrique determinar". Está apoiando ACM Neto. Outros secretários municipais também estão apoiando ele. Todo mundo sabe que João Henrique está apoiando ACM Neto.

iG: Não é terrorismo eleitoral falar que só o candidato do PT vai poder trazer benefícios pela sua amizade e trânsito com os governos estadual e federal? Mário Kertész, por exemplo, diz que circula com desenvoltura pelos governos estadual e federal.

NP: Eu estou dizendo que tenho força política para fazer. Nós temos identidade com os projetos nacional e estadual. Quem não tem que diga que tem ou não. Eu estou dizendo que nós temos. Vamos fazer com que Salvador passe a viver este momento que o Brasil viveu com Lula, está vivendo com Dilma e está vivendo agora na Bahia com Wagner. Estou dizendo o que é uma realidade que não pode ser negada. Quem conhece a cidade sabe que Salvador precisa de apoio do governo federal e do governo do Estado.

iG: O governador Wagner enfrentou duas graves greves este ano, PMs e professores. O senhor não teme que a sua imagem seja chamuscada?

NP: Eu tenho uma larga história de apoio e de compromisso com os servidores públicos. Eu tenho 25 anos como advogado de sindicatos, vários desses de servidores. Eu quero invocar o testemunho do comando de greve, tanto da PM como dos professores, se eu não procurei ajudar, intermediar, interferir nos rumos da negociação. O meu governo será de valorização dos servidores. Para fazer uma boa administração em Salvador precisa dar bons salários, fazer plano de carreira, estimulá-los para que possam fazer o seu papel. Agora, é importante o gestor ter clareza de que ele tem limites, de que tem que dar reajuste conforme a sua capacidade administrativa-financeira, senão inviabiliza a Prefeitura. Vamos dizer o que a gente pode e o que não pode. Agora, o governo do Estado procurou valorizar os servidores na sua administração. Nós vamos mostrar isso na campanha eleitoral. Os professores tiverem reajuste de 30% acima da inflação, nos primeiros quatro anos [da gestão Wagner]. Os policiais militares, de 38%. Eu participei da greve da PM de 2001. Eles saíram da greve e não tiveram nenhum ganho efetivo. Os PMs vão receber a GAP-4 e a GAP-5 (duas classes de Gratificação de Atividade Policial] até o final deste governo, que é uma reivindicação de 14 anos. Os professores receberão reajuste de 22%, todos receberam 6,5%, e os da ativa receberão duas parcelas de 7 %, que é também um ganho importante.

iG: Como vai ser a participação do Lula e da Dilma na sua campanha?

NP: Eu estive com Lula no dia 30 [de julho], ele me garantiu que virá para a campanha. Acredito que a presidente Dilma também participará.

iG: Mas vindo para cá ou só gravando na televisão?

NP: Só estamos discutindo, mas ela estará na campanha, não tenho a menor dúvida em relação a isso.

iG: Como o foi a escolha da sua vice, Olívia Santana (PC do B)?

NP: Eu penso que o PC do B escolheu uma pessoa para compôr a minha chapa, e eu me orgulho muito disso, que é militante da cidade. Olívia é vereadora, uma mulher negra, é a cara de Salvador, onde mais de 82% da população é de afro-brasileiros, e, portanto, Olívia simboliza. Agora, ela não veio para compôr, e sim para protagonizar. Ela será uma vice-prefeita atuante. Vereadora competente, conhece esta cidade, tem história. Eu estou muito honrado, muito satisfeito com a participação de Olívia na minha chapa.

iG: Quais são os principais gargalos da cidade e como resolvê-los?

NP: Primeiro, o administrativo-financeiro. A cidade precisa realmente fazer mudança na sua gestão. Logo nos primeiros dias da nossa administração, vamos renegociar todos os contratos, fazer revisão de todos os custos operacionais da Prefeitura. Vamos atualizar todos os normativos da cidade que são fundamentais como o Plano Diretor, Lei de Ordenação e Uso do Solo, código de posturas, código tributário. Vamos criar o código ambiental, para acabar com as lacunas que existem hoje. Esses instrumentos serão fundamentais para a gente fazer projeto estratégico. Nós vamos ter um plano estratégico para a cidade para os próximos 20 anos, vamos implantar gestão na Prefeitura, autoridade. Vamos recuperar a capacidade administrativa-financeira do município. E isso é fundamental para que a gente possa ter recursos para fazer a manutenção da cidade e, em parceria com os governos do Estado e federal, fazer um investimento estratégico de infraestrutura que a cidade precisa. É preciso entender que Salvador é uma das cidades mais desiguais do Brasil. Então, a centralidade do nosso programa será a questão social. Nós vamos ter política para morador de rua, para criança e adolescente, vamos fazer formação profissional para a juventude, vamos atacar o problema do desemprego, o problema das drogas, vamos ter atividades de lazer, de cultura e esporte para a nossa juventude, vamos ter política para as pessoas com deficiência, que é um contingente importante da cidade, para a população negra, para as mulheres, que são maioria em Salvador e que sofrem: creche, apoio às crianças, programas de apoio à saúde da mulher, formação profissional, geração de emprego e renda. Vamos ter políticas para que Salvador se desenvolva economicamente, gerando emprego. Salvador é a capital nacional da informalidade e do desemprego. Vamos combater a informalidade e aumentar a empregabilidade da cidade. E vamos investir nas áreas que Salvador tem como dinâmicas. O turismo é uma questão central e vai ter uma grande revalorização na nossa administração, a cultura, o empreendedorismo, a saúde, a educação, a tecnologia da informação, a indústria de móveis, a indústria gráfica.

iG: Que nota o senhor dá para João Henrique e por quê?

NP: Eu não costumo dar nota. Eu diria que a cidade anseia por uma mudança, ela está triste com a situação que se encontra neste momento. Nós vamos mudar Salvador. E é isso que a cidade quer, é o que vamos encarnar nesta eleição e é o que vamos fazer na nossa administração.

**A assessoria de ACM Neto informa que o último demista a deixar o atual governo municipal foi Cláudio Tinoco que, em março deste ano, largou a presidência da Empresa Salvador Turismo (Saltur) visando se candidatar a vereador. A assessoria rebate a afirmação de Pelegrino de que João Henrique apoia ACM Neto. A Prefeitura, por sua vez, disse que João Henrique adotará postura neutra na eleição.

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