Peluso desmonta tese de caixa 2 eleitoral no julgamento do mensalão

Na condenação de João Paulo Cunha por corrupção passiva, ministro do STF provou que datas, depoimentos e circunstâncias inviabilizam a principal tese de defesa dos políticos

iG São Paulo | - Atualizada às

Mais do que simplesmente condenar o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) por peculato e corrupção passiva, o voto do ministro Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal (STF), desmontou a principal tese da defesa dos políticos acusados no mensalão: a de que todos operavam, na realidade, um caixa 2 eleitoral. No caso de João Paulo Cunha, Peluso provou que, pelo calendário, pelas finanças ou pelos depoimentos dos envolvidos, essa tese é uma ficção engendrada sem amparo nos fatos.

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Para Peluso, João Paulo Cunha, que, de acordo com a acusação, recebeu R$ 50 mil do chamado 'valerioduto', seria um caso raro em que o dinheiro do caixa 2 aparece antes de ser solicitado. Afinal, mostrou o ministro, João Paulo sacou os R$ 50 mil em setembro de 2003, mas o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, afirmou que só recebeu o pedido de João Paulo em janeiro de 2004.

AE
Ministro Cezar Peluso pronuncia seu voto em sessão do julgamento do mensalão


Além disso, o ministro afirmou que a realização de pesquisas eleitorais em 2003, justificativa para o recebimento do dinheiro, não fazia sentido, uma vez que a distância das eleições invalidava o trabalho. E, pior ainda, a distribuição do recurso se deu numa época em que o PT estava inadimplente. Ou seja, como poderia o PT financiar gastos eleitorias dos políticos? "Sobretudo para um partido que não tinha dinheiro", reforçou Peluso.

Peluso também diz que o réu "mentiu" sobre o recebimento do dinheiro e narrou fatos "incontroversos públicos e notórios" à época dos fatos. "Se era um dinheiro recebido pelo partido, por que dizer que sua mulher teria ido a uma agência do banco para pagar uma fatura de televisão?", questionou o ministro.

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Um de cada quatro advogados dos réus usou a tese de que o mensalão não existira e que se tratou, na realidade, de um esquema para alimentar caixa 2 de campanhas eleitorais municipais no ano de 2004.

"O réu recebe de Marcos Valério a importância de R$ 50 mil, em dinheiro vivo, um dia após um café da manhã entre ambos na residência oficial. A pergunta que fica é a seguinte: a que se destinava esse pagamento?", questiona Peluso, que logo depois afirma que a alegação do réu para este fato é "inverossímil".

O ministro destacou que a aproximação entre João Paulo e Marcos Valério "ficou estreitíssima". "Um político experimentado teria que conversar com um publicitário sobre a situação política do País? Espantoso", afirmou.

O voto referente ao mensalão é o último voto da carreira de Peluso como ministro da Suprema Corte. Ele se aposenta compulsoriamente na segunda-feira (3) ao completar 70 anos, e sua última sessão será quinta-feira.

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