“A entrada de  Lula na campanha terá um preço”

Candidato do PDT à reeleição em Porto Alegre, José Fortunati insinua que seu partido pode deixar a base de Dilma Rousseff no Congresso

Pedro Venceslau e Rafael Abrantes - Brasil Econômico | - Atualizada às

Agência Brasil
José Fortunati

Candidato à reeleição em Porto Alegre, o prefeito José Fortunati, líder nas pesquisas de opinião da capital gaúcha, enfrenta dois adversários de partidos que compõem, tal qual seu PDT, a base de sustentação da presidente Dilma Rousseff no Congresso. Para evitar que Adão Villaverde (PT) ou Manuela D'Ávila (PCdoB) recebam o poderoso apoio do ex e da atual presidente no primeiro ou no segundo turno, ele avisa nessa entrevista exclusiva ao Brasil Econômico: “A entrada deles teria reflexos em 2014 e no Congresso”. Ele diz que o PT, seu ex-partido, não tem mais a mesma força de outros tempos, quando comandou a cidade por 16 anos.

Preocupa a presença do ex-presidente Lula na campanha do seu rival, Adão Villaverde?
As pesquisas demonstram que Porto Alegre é a capital onde menos se transfere votos através de lideranças políticas nacionais. Isso é histórico. Além disso, se as figuras nacionais do PT surgirem no embate de 2012, isso pesará na eleição de 2014 com toda certeza. Disputamos esse ano com o olhar em 2014. Isso teria um preço. O PT está fazendo esse cálculo e vai colocar na balança se vale a pena trazer o Lula a Porto Alegre.

Se o Lula fizer campanha para um dos seus adversários no segundo turno, o apoio do PDT ao governo Dilma Rousseff pode ser comprometido?
Não estou me antecipando, mas faço política há 40 anos e tenho a convicção de que a postura a ser adotada por lideranças nacionais do PT no processo eleitoral terá seus prós e contras. Isso pode deixar o PDT em uma posição incomoda. Haveria reflexos. Isso é humanamente compreensível.

O presidente do PDT local disse que o resultado de 2012 pode dar condições de o partido disputar o governo do estado em 2014. O que acha disso?
Prefiro não entrar nessa seara. É prematuro. Conversei com o presidente do partido sobre isso.

Nas primeiras pesquisas em Porto Alegre, o sr. apareceu atrás de deputada Manuela D’Ávila, do PCdoB. Na última, divulgada em julho, o sr. apareceu na frente. Ela é sua principal adversária?
Sou muito cauteloso em relação às pesquisas eleitorais. A vida me mostrou que elas erram muito mais do que acertam nesse período. Grande parte da população não vive o clima eleitoral. Isso acontece em todo o país. Em 2002, fui candidato ao governo do estado pelo PDT. No mês de julho eu tinha 3%. Germano Rigotto tinha 2,7% e estava atrás de mim. Tarso Genro e Antonio Brito estavam com mais 30% cada um. Diante do meu baixo índice, o PDT solicitou que retirasse a candidatura. Rigotto permaneceu e acabou eleito governador do estado. O horário eleitoral na TV tem uma influência muito grande. Prefiro ficar com a avaliação do meu governo.

Arrependeu-se de retirar a candidatura em 2002?
De forma alguma. Foi um pedido do Leonel Brizola em uma reunião do conselho político do PDT, que aconteceu no Rio de Janeiro no saguão vip da Varig. Foi um dia que não esqueço. Não podia deixar de atender um pedido dele.

Porte Alegre foi uma das primeiras capitais governadas pelo PT, que ficou muitos anos no poder. Isso gerou uma polarização parecida com Grêmio e Inter. Ainda é forte o sentimento antipetista?
Ainda temos muito da história dos Chimangos e Maragatos enraizado entre nós, mas percebo claramente que essa polarização entre ser petista ou contra o PT não existe mais. Mas em alguns segmentos da sociedade existem os que são anti-PT. Todas as pesquisas mostram que o partido tem a simpatia de 20% da população. A gente respeita isso. Fiz campanha aberta para a Dilma no primeiro e no segundo turno.

Então o PT deixou de ter a força que tinha na capital?
É o partido com mais simpatizantes na cidade de Porto Alegre, mas isoladamente não consegue ser uma força majoritária. Perdeu força.

Por que o senhor deixou o PT?
Foram várias razões. Cheguei a escrever um livro sobre minha saída do partido. A primeira delas foi que se rompeu em Porto Alegre uma tradição que o vice concorreria à prefeitura. Abri mão do meu mandato de deputado federal para ser vice-prefeito e me preparei para ser o candidato do PT. Mas isso foi impedido por uma articulação de lideranças. Meu espaço dentro do partido foi ficando cada vez mais reduzido.

Os três partidos que lideram a disputa em Porto Alegre, o seu PDT, o PT e o PCdoB, são da base do governo Dilma Rousseff. Por que não se uniram na eleição de 2012?
Tentamos isso. Dialoguei com o Partido dos Trabalhadores. Apresentei um documento de princípios para formatação de um programa. PT e PDT têm uma longa tradição de articulação política no Rio Grande do Sul. Mas eles nos rechaçaram. Então, buscamos o caminho mais adequado.

O sr. está aliado com o DEM e o PPS, duas siglas radicalmente anti-Lula e Dilma...
Isso não tem nenhum significado no embate nacional. Nossa aliança é pela cidade de Porto Alegre. Contamos com o apoio do governo federal. Queremos governar como todos, sem sectarismo. Sou um democrata. 

Acha que em 2010 faltou empenho para os partidários da Dilma na campanha eleitoral?

No segundo turno faltou empenho, especialmente dos mais próximos. Tarso Genro venceu no primeiro turno e, a partir daí, houve uma acomodação. O empenho dos militantes teve menos energia e garra.

A eleição de Yeda Crusius, do PSDB, ao governo do Estado (em 2006) foi um ponto fora da curva?
Foi uma circunstância conjuntural. O PSDB é um partido pequeno no estado.

Como estão as finanças de Porto Alegre?
A situação financeira é estável. Em 2005, quando Fogaça assumiu, encontramos a prefeitura no “SPC” (Serviço de Proteção ao Crédito). Havia um problema de gestão. O déficit era maior do que os recursos. Todo o crédito estava cortado. Criamos um novo modelo de gestão.

O ex-ministro Carlos Lupi, presidente do PDT, aparecerá na sua propaganda?
Ele esteve aqui quando inauguramos nosso comitê. Não tenho nenhum problema com isso. Ele não foi condenado em nenhum processo, apesar das várias acusações.

Acha que ele foi injustiçado?
Não tenho elementos para isso. Prefiro aguardar que a Justiça tome as suas providências. O processo político é tomado por interesses e emoções.

O PDT comanda o Ministério do Trabalho de Dilma Rousseff e a Secretaria de Emprego do governador Geraldo Alckmin. Não é difícil manter um pé em cada canoa?
Se nós tivéssemos partidos ideologicamente forjados com programas nítidos, talvez isso fosse um problema. Em países como os Estados Unidos, onde há uma polarização entre Democratas e Republicanos, ou na Inglaterra, com Trabalhistas e Conservadores, as diferenças são mais cristalinas. Mas no Brasil, infelizmente, as divergências ideológicas e filosóficas diminuíram muito. A gente percebe que no debate sobre modelos econômicos elas são pequenas.

São os cargos nos governos federal e estadual que pautam alianças tão díspares?
De forma alguma. Participamos do governo para plantar nossa semente de forma programática. Se o debate for por esse lado, eu pergunto: qual é a diferença hoje entre o PSDB e o PT?

Qual é?
O discurso político pode parecer muito diferente, mas os dois hoje estão muito próximos do ponto de vista conceitual. Ambos seguem a linha da social-democracia europeia. Há um forte ranço entre as duas siglas, mas os governos comandados por eles mostram muitas semelhanças.

Como ex-sindicalista e pedetista, defende a redução da jornada de trabalho e a mudança do fator previdenciário?

Este é um preceito partidário na disputa do Congresso Nacional.

Mas, pessoalmente, qual a sua posição?
Os temas que o partido define passam a ser meus também.

Como governante, estas mudanças não seriam muito onerosas para as finanças da cidade? Vive um dilema?
Se ocorrer um efeito cascata nos estados e municípios, nós aplicaremos.

É verdade que, nos tempos que era do PT, o sr. criou uma bandeira tricolor do partido, já que é gremista roxo?
Isso foi em 1995, quando fundamos o núcleo gremista do PT. Percebi que não poderíamos ir ao estádio olímpico com a bandeira vermelha do partido. Fizemos então uma azul, preta e branca. Houve um debate intenso. Isso virou um dos símbolos do PT até hoje.

Não teme perder os votos colorados do Inter?
Gaúcho gosta de quem tem posição. A pior coisa no Rio Grande do Sul é ficar em cima do muro. Defendi com unhas e dentes que o Beira Rio fosse revitalizado.

Qual é o perfil do eleitor de Porto Alegre?
É muito crítico e tem os pés no chão. Não se convence com proselitismo e promessas.

O PT de Porto Alegre é mais à esquerda que no resto do país?
Com certeza é mais à esquerda. É uma tradição o debate político ser mais acirrado em Porto Alegre. Isso vem da cultura do gaúcho.

Está difícil arrecadar recursos para a campanha?
Sim, mas já foi em 2008. Estamos com muita dificuldade. Todo esse debate sobre caixa 2 deixa os empresários receosos.

Do interior, prefeito busca manter história na capital

Nascido em 1955 na cidade de Flores da Cunha, José Fortunati seguiu, na juventude, caminho semelhante ao de muitos gaúchos do interior e decidiu se mudar para a capital Porto Alegre onde estudou Matemática na Universidade Federal do estado (UFRGS), além de cursar as Faculdades de Administração Pública e Empresas, e Direito.

Como funcionário concursado do Banco do Brasil, foi presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, entre 1985 e 86. Na mesma época, ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT), onde foi eleito primeiro presidente estadual também em 85, e vice-presidente nacional no ano seguinte. A carreira política, por sua vez, começou contemporânea aos debates da nova Constituição brasileira, em Brasília.

Já filiado ao PT, foi eleito deputado estadual Constituinte, tornando-se o parlamentar com mais emendas aprovadas ao novo documento. Em seguida, os dois mandatos no Congresso Nacional, de 1990 a 1996, o levaram a líder da bancada petista na Câmara dos Deputados e a ser apontado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) entre os deputados mais influentes em Brasília por três anos consecutivos.

No poder Executivo, foi vice-prefeito da capital gaúcha entre 1997 e 2000. Nas eleições seguintes, Fortunati lança candidatura bem sucedida a vereador, com cerca de 40 mil votos. Após liderar a secretaria estadual de Educação, até 2006, e a pasta municipal de Planejamento, Fortunati — já no PDT — concorre pela segunda vez como vice-prefeito ao lado de José Fogaça, em 2008. Com a renúncia do colega para disputar o governo do estado, Fortunati assume a Prefeitura de Porto Alegre em 30 março de 2010.

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