ACM Neto ‘atropelou’ tucano na disputa em Salvador, diz candidato do PMDB

Duas vezes no comando da capital baiana, Mário Kértesz quer voltar, critica saída de Imbassahy da eleição, ataca o candidato do DEM e dá 'menos zero' ao atual prefeito

João Paulo Gondim - iG Bahia |

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Mário Kértesz faz corpo a corpo em Salvador

Mário Kertész já foi prefeito de Salvador duas vezes. A primeira, biônico, de 1979 a 1981, pelas mãos do governador da época, Antônio Carlos Magalhães. Em 1985, no PMDB e desafeto de ACM – com que se reconciliou anos mais tarde – , ganhou as eleições no voto. Seu marqueteiro era Duda Mendonça. Hoje, 27 anos depois, depois de idas e vindas, Kertész tenta voltar ao comando da capital baiana.

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Em entrevista ao iG , Kértesz criticou o acordo do DEM que inviabilizou a candidatura do tucano Antônio Imbassahy [deputado federal pelo PSDB e duas vezes prefeito de Salvador]. “Imbassahy foi atropelado por ACM Neto , que fez um acordo [costurado em São Paulo no qual o PSDB, em busca de apoio do DEM para José Serra, rifou a pré-candidatura do deputado] que estuprou ele aqui. Uma coisa lamentável, quando Imbassahy, inclusive, estava bem posicionado nas pesquisas”, afirmou. E disse que na época abriria mão de sua candidatura para apoiar o tucano.

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Ao deixar a prefeitura, em 1988, Kértesz elegeu seu sucessor, o radialista, apresentador de programas sensacionalistas e cronista esportivo Fernando José. Mas seu candidato do coração era Gilberto Gil, contemporâneo na Faculdade de Administração da UFBA. O cantor e compositor, inclusive, presidiu a Fundação Gregório de Mattos, instituição criada por Kertész e que preserva e difunde a arte soteropolitana.

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Em 1992, fracassa na tentativa de voltar à prefeitura. Filiado ao extinto PST, tem 34 segundos no horário eleitoral e amarga o último lugar. Dois anos mais tarde, lança a rádio Metrópole, que se espalha por diversas plataformas de comunicação.

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Em 2012, o peemedebista alardeia sua experiência, capacidade de gestão e de fazer "bons projetos" para se cacifar na corrida eleitoral. Diz que essa é a sua última eleição e não poupa críticas ao atual prefeito João Henrique Carneiro (PP), a quem daria a nota “menos zero”. Minimiza o fato de o PMDB, na undécima hora ter conseguido apenas o apoio do nanico PSC e de alguns vereadores de outras coligações. Ele enfatiza que seu partido é grande, possui importantes postos no cenário nacional.

iG: O senhor estava sossegado, bem-sucedido na rádio. O que o levou a querer voltar para a política, participar de campanha, coisa que é exaustiva e dá dor de cabeça?

Mário Kertész: O que me levou foi entender que a cidade, neste momento, está em uma situação muito delicada e que eu tenho uma proposta boa para fazer: é ter um prefeito que seja um administrador, que vá ficar durante quatro anos [de mandato], que não vai retalhar a prefeitura entre vários partidos políticos, como está acontecendo no Brasil, na Bahia e aqui na própria prefeitura, e que vai querer ser administrador durante quatro anos, sem pleitear reeleição, para ter as condições políticas e administrativas de dar uma grande consertada em Salvador. Então, foi a possibilidade de fazer esta proposta, que os outros candidatos não podem fazer, que eu estou colocando a minha candidatura. Agora, estou colocando democraticamente. A população pode achar boa, e eu ganhar, e achar que não, e eu volto para a rádio do mesmo jeito e continuo a minha vida. Eu estou em uma posição muito confortável, de quem não tem nada a perder. Eu tenho o que oferecer, estou na plenitude da minha maturidade e posso oferecer isso à cidade que eu moro, que eu nasci, que eu vivi, que eu amo.

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Como foi o convite dos irmãos Vieira [o deputado federal Lúcio e seu irmão Geddel, caciques do PMDB na Bahia] para o senhor ser candidato?

MK: Quando eles me convidaram, na realidade, foi para um projeto diferente, da união das oposições e eu seria o nome mais viável. Essa unidade, que seria salutar e permitiria a gente ter um embate mais direto e até resolvendo ele no primeiro turno, não foi para frente porque ACM Neto achou que estava bem posicionado e resolveu ser candidato. A partir daí, eu ainda refleti algum tempo e até que, quando a situação ficou muito clara e eu vi que nenhum dos candidatos teria condições de apresentar a proposta que eu apresento à cidade, foi que eu resolvi me candidatar.

iG: Se Antônio Imbassahy [deputado federal pelo PSDB e duas vezes prefeito de Salvador] concorresse, o senhor votaria nele?

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Kértesz já foi prefeito de Salvador por duas vezes

MK: Eu disse a ele que o apoiaria com a maior tranquilidade. Eu conversei com ele várias vezes: "se você conseguir o apoio do PMDB, eu estou do seu lado". Agora, Imbassahy foi atropelado por ACM Neto, que fez um acordo [supostamente costurado em São Paulo no qual o PSDB, em busca de apoio do DEM para José Serra, rifou a pré-candidatura de Imbassahy] que estuprou ele aqui. Uma coisa lamentável, quando Imbassahy, inclusive, estava bem posicionado nas pesquisas.

iG: Imbassahy, até agora, não deu apoio público a ACM Neto. O senhor tem conversado com ele para buscar apoio dessa ala insatisfeita com esse "estupro" que o senhor diz?

MK: Eu tenho conversado muito com ele. Ele disse que teria o tempo certo para tomar uma decisão, e eu estou esperando, tranquilamente. Eu não acredito que ele tenha condições de apoiar ACM Neto, acho muito difícil. Quando eu vejo [o deputado federal tucano] Jutahy Magalhães [Júnior], por exemplo, fazendo campanha com ACM Neto, o neto do arqui-inimigo dele, eles juntos andando na rua, eu fico vendo que Jutahy, para se reeleger deputado, vai ter que ser candidato em São Paulo com o apoio de Serra, porque na Bahia vai ser difícil.

iG: O senhor teme a pulverização de votos com ACM Neto, que alguns votos de seu eleitorado vá para ele?

MK: Eu não acho que o perfil do meu eleitorado tenha a ver [com o de ACM Neto]. O que eu estou propondo é exatamente que a cidade fuja dessa divisão carlismo versus petismo. Por que isso? Não precisa, essa história não é nem boa para a cidade de Salvador. E o meu eleitorado é completamente diferente, não é nem de um [ACM Neto], nem de outro [Pelegrino]. É um eleitorado que pode unir a cidade em um momento de muita dificuldade.

iG: Como é governar sem coalizão?

MK: Ótimo, porque eu não vou ter que fatiar a prefeitura com ninguém. Eu já disse ao meu partido e ao PSC que não aceitarei indicação política. Eu posso buscar pessoas de qualquer partido para me ajudar, desde que sejam competentes e sérias.

iG: Quem escolheu Nestor Neto como o seu vice?

MK: Foi uma escolha pessoal minha. [Ele é] um jovem da periferia que, apesar de ter crescido, se formado e ter um certo destaque [no movimento estudantil e como liderança comunitária], não largou a periferia dele. E assim como eu recebi muito jovem apoio para começar na vida pública, eu acho que essa foi uma boa indicação de dar à juventude da periferia o papel que ela pode ter em uma administração municipal ocupando um cargo de grande relevância que é o de vice-prefeito.

iG: Quais são os principais gargalos da cidade e como resolvê-los?

MK: Os gargalos são quase todos. Primeiro grande destaque que a cidade tem que ter é um prefeito, que hoje nós não temos. Um prefeito que seja visível, acessível, com uma equipe competente, com liderança, que possa fazer bons projetos, que possa buscar recursos fora para resolver os problemas fundamentais: mobilidade, saúde, educação, transporte... Se a gente ficar falando das soluções, todos os candidatos vão dizer a mesma coisa: "saúde é minha prioridade", "educação é minha prioridade", "não sei o quê é minha prioridade"... Eu acho que a prioridade é ter um administrador com condições de gerir a cidade. Essa é a prioridade número um.

iG: O senhor foi duas vezes prefeito de Salvador. Atualmente, os desafios são maiores ou há mais facilidade em administrá-la do que antes?

MK: Agora há mais dificuldade, pois a cidade está muito comprometida, tanto no presente como no futuro, pela ação desastrosa do prefeito João Henrique. Além disso, nos 18 anos em que trabalhei na rádio Metrópole, eu consegui montar uma equipe jovem, competente, que mostrou um serviço admirado por toda a cidade. Isso também é uma coisa muito importante no meu currículo, que eu trago com grande orgulho.

iG: O senhor falou que a cidade está comprometida. Os irmãos Vieira Lima foram fundamentais para a eleição de João Henrique. Muitos quadros do PMDB também estiveram no atual governo municipal. Há algum problema de o senhor está rodeado por pessoas que elegeram e participaram da gestão de um prefeito tão ruim, como o senhor diz?

MK: Não, primeiro porque eu não pertencia ao PMDB, sempre fiz oposição a João Henrique. Tive que pagar até multa ao Tribunal [Regional] Eleitoral e tive a minha rádio ameaçada de sair do ar por conta disso. Sempre achei ele uma pessoa sem a menor qualificação para ser prefeito. Mas devo reconhecer que quando o PMDB esteve no governo foi a melhor época da cidade de Salvador. Ele conseguiu fazer a obra da [avenida] Centenário, do [bairro] Imbuí. Com o mesmo recurso que Geddel arrumou do ministério [da integração] ele está fazendo [obras] da [avenida] Vasco da Gama, está fazendo o Vale do Canela. Ele teve o melhor secretário de saúde, doutor José Carlos Brito. Teve bons secretários e bons executivos. Agora, infelizmente, como ele é uma pessoa que não cumpre nada do que se compromete, o PMDB teve que se afastar do governo, para tristeza da cidade.

iG: Apoiá-lo foi um erro político dos irmãos Vieira Lima?

MK: Claro, eles reconhecem isso.

iG: O senhor falou da importância de se buscar recursos. O Pelegrino bate na tecla da harmonia entre as esferas federal, estadual e municipal. O senhor acha que ele pode ter mais facilidade em buscar esses recursos do que o senhor?

MK: De jeito nenhum. Esse discurso dele me lembra muito Antônio Carlos Magalhães, que falava isso. Na época, eles [os petistas] eram oposição e diziam que esse argumento não funcionava. Eu tenho toda condição igual a ele. Sou amigo do governador [o petista Jaques Wagner], sou amigo de Lula. Ajudei o PT na Bahia e fora daqui fui fazer a campanha de Lula, como voluntário, coordenando o programa de rádio e apresentando o programa de televisão com ele. De forma que eu não tenho nenhuma dificuldade com o PT. Nenhuma, zero dificuldade, além de que o PMDB é um partido forte, com cinco ministérios, BNDES [cujo presidente é Luciano Coutinho], a vice-presidência da República [Michel Temer]. Eu tenho tanta condição quanto ele.

iG: Michel Temer, no exercício da presidência, veio aqui e, em café da manhã, falou que Salvador é uma das prioridades do PMDB. Dá um certo conforto em receber esse apoio dele? Qual a importância do Temer na sua campanha?

MK: Na campanha em si é sempre bom [o apoio], claro, é personalidade, uma figura importante. Mas essa campanha é muito local, não adianta vir figurão de fora. O efeito é muito pequeno, não chega até a população, que quer saber o que é melhor para a cidade. É claro que eu tenho um partido forte, não estou sozinho, isolado. Isolado de quê? Isolamento nenhum. Tenho o PSC, também, que está comigo. E o PMDB é um partido nacional.

iG: O senhor tem cerca de cinco minutos no horário eleitoral. Pelegrino tem 13. Como ganhar dele tendo quase um terço do tempo do PT?

MK: O que importa aí não é a quantidade, é a qualidade e o tipo de proposta que vai ser feita. Em certo sentido, vai ser um castigo para ele ter que ocupar esses 13 minutos. É claro que sempre tem solução, fazer clipes bonitos etc. Isso não me impressiona.

iG: Na campanha, o senhor vai dizer que é amigo do Lula, que conhece a Dilma, que é amigo do Wagner?

MK: Eu não vou ficar usando isso, não. Isso aí é mais para debate, para conversa, para esclarecimento. Eu sei o que eu sou, eu tenho essas amizades mesmo. Eu não tenho dificuldade para transitar em qualquer área federal. Conheço muitos deputados e senadores, entrevistei a grande maioria deles, tenho relações pessoais sólidas em Brasília. Não me preocupo com isso.

iG: O senhor afirmou ser amigo de Wagner. Na convenção do PMDB, Nestor Neto, em seu discurso, afirmou que o governador agiu como um "tirano" no que se refere à greve dos professores. Isso pode gerar estremecimento com o governador, tendo um vice que o ataca de maneira tão incisiva?

MK: Eu sou eu, o vice é o vice e Jaques Wagner sabe da minha relação com ele. Não, não tem nenhum problema.

iG: Que nota o senhor dá ao governo João Henrique?

MK: Eu daria menos zero, embora não tenha essa nota. Então, fica o zero.

**A assessoria de ACM Neto afirmou que não houve acordo em São Paulo para, em Salvador, o PSDB apoiar o DEM, e que ambos os partidos são aliados históricos; o deputado Jutahy Magalhães Júnior não respondeu aos pedidos do iG de comentar as declarações de Kertész; a Prefeitura de Salvador listou uma série de ações e declarou que "um prefeito que teve coragem de romper com paradigmas, enfrentar opositores poderosos e setores antagônicos aos interesses da cidade não pode ser considerado "desastroso"; e o marqueteiro de Pelegrino, Sidônio Palmeira, afirmou que o tempo do petista é suficiente para apresentar propostas para Salvador.

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