'Ao usar o nome de Dilma, o PSB confunde os eleitores', diz Humberto Costa

Candidato à Prefeitura do Recife fala sobre racha entre Eduardo Campos e petistas: ' As pessoas no PT acham que o governador será candidato contra Dilma na eleição de 2014'

Pedro Venceslau - Brasil Econômico | - Atualizada às

A pré-campanha no Recife, cidade governada pelo PT há 12 anos, foi a mais tensa do Brasil. Até o último momento, o atual prefeito João da Costa disputou com o deputado Maurício Rands a indicação para concorrer à prefeitura da capital pernambucana. E até os instantes finais antes do prazo do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o apoio do forte PSB, sigla do governador Eduardo Campos , era dado como certo.

Foi então que houve uma reviravolta. O PT rachou completamente e acabou escolhendo uma terceira via para a disputa, o senador Humberto Costa . E o PSB lançou um candidato próprio, Geraldo Julio. Nessa entrevista exclusiva ao BRASIL ECONÔMICO, Costa fala sobre as controvérsias da campanha e avalia o quadro recifense.

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O PMDB do ex-senador Jarbas Vasconcellos fechou no Recife com seu adversário do PSB, Geraldo Julio . Pernambuco é um dos poucos estados onde os peemedebistas fizeram oposição a Dilma. Qual é o significado simbólico desse apoio?

Politicamente é uma coisa muito complicada. Jarbas Vasconcellos não é só um adversário político do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff . Ele também é desafeto pessoal e ataca os dois. O PSB buscou uma aliança com alguém radicalmente contra o PT, Dilma e Lula. Isso leva inevitavelmente ao confronto e o estremecimento das relações políticas. 

Apesar disso, o PSB está usando o nome da presidenta Dilma na campanha...

Estão usando o nome da presidenta Dilma até nos jingles de campanha. Essa é uma questão ainda em debate. Estão confundindo nossos eleitores quanto ao posicionamento dela. A presidenta está conosco. Ela está com a candidatura do PT.

Por que o PMDB de Pernambuco destoa dos demais e está contra Dilma e Lula?

A principal liderança do partido no Estado, o Jarbas Vasconcellos, na prática não é PMDB. Ele tem muito mais identidade com o PSDB.

Vocês entraram com alguma ação na Justiça para impedir o uso do nome da presidenta?

Sim, nós pedimos uma liminar. Estamos indo agora no mérito da questão.

Chegou a conversar sobre essa saia-justa com a Dilma ou o presidente do PT, Rui Falcão?

Conversamos com o Rui Falcão, e o PT vai falar com a presidenta sobre como agir nessa questão.

O.k., Dilma está com vocês. Mas ela estará no Recife fazendo campanha? Vai gravar para a TV?

As informações que temos do Palácio do Planalto e do PT é que ela participará. Mas ainda não foi definido quando, nem como. O Lula deve gravar conosco nos próximos dias.

Ele tem alguma agenda programada no Recife?

Esse é outro assunto que estamos tratando diretamente com Rui Falcão. Ele vai formular uma proposta.

Em São Paulo, a campanha de Fernando Haddad está sendo toda feita colada em Lula. Não existe um material sem a imagem do ex-presidente. Sua campanha também está sendo feita dessa forma?

Temos dois tipos de material. Em um deles estamos eu e o vice, o ex-prefeito João Paulo, muito forte politicamente na capital, e o outro reúne Lula, Dilma, João Paulo e eu.

Como ficou o clima no PT do Recife depois do imbróglio envolvendo o atual prefeito e a saída do partido do ex-deputado Maurício Rands ?

Estamos tocando a campanha. Esse grupo (do prefeito João da Costa) ainda não se integrou totalmente, mas uma boa parte de vereadores, candidatos e militantes está conosco.

Dá para dizer que o PT do Recife não está mais rachado?

Eu diria que o PT está, hoje, mais unido do que estava há um mês.

Deve ser difícil fazer campanha contra um prefeito do próprio partido que está no cargo...

Não fazemos campanha contra ele. Defenderemos a gestão contra os ataques dos adversários. Ela teve pontos relevantes. Acreditamos que é perfeitamente compatível fazer a campanha dessa maneira. Não fazemos oposição.

Depois de tanta briga, o atual prefeito, João da Costa, está fazendo campanha?

Ele está mais afastado e em posição de neutralidade até o presente momento.

Quem terá o maior tempo na TV?

O maior tempo é do candidato do PSB, que terá 12min38s. Se tempo de TV ganhasse eleição, o Ulysses Guimarães tinha sido presidente da república no primeiro turno. O PT desde 2000 tem tido grandes votações em Recife. No primeiro turno, João Paulo foi para o segundo turno com 25%. Em 2004 ele se reelegeu com 53%. Em 2008 o João da Costa ganhou com 50,7%.

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Para petista, Campos pode enfrentar Dilma em 2014

Considerado um aliado de primeira hora dos petistas em 2010, o governador pernambucano e presidente do PSB, Eduardo Campos , explodiu pontes em 2012. Para Costa, o motivo é claro: disputar a presidência em 2014.

Quem agrega mais votos no Recife: o governador Eduardo Campos (PSB), que está contra vocês, ou o ex-presidente Lula?

O ex-presidente Lula e a presidenta Dilma têm mais poder de transferir votos do que o governador Eduardo Campos. Mas o que vamos debater na campanha será a história, o preparo e a biografia dos candidatos. Mostraremos o que eles já fizeram por Recife. A importância de citar o apoio de Dilma e Lula é reafirmar nossa identidade política com o governo federal.

Até os 45 minutos do segundo tempo, estava tudo certo no Recife para que o PSB fechasse com o PT. Em Belo Horizonte, houve um movimento similar e os dois partidos romperam na última hora . Isso abala a aliança nacional com os socialistas para 2014?

Tudo indica que o PSB já tinha tomado a decisão de ocupar espaço na disputa da sucessão municipal de Recife. Isso, evidentemente, levou ao estremecimento da relação no âmbito local. Não dá para saber se isso será transferido para a esfera nacional. Tem muita gente no PT achando que o PSB lançará candidato à presidência da república em 2014.

Acredita que o Eduardo Campos pode ser vice da presidenta Dilma em 2014?

Essa possibilidade diminuiu muito. As pessoas no PT acham que o governador será candidato contra a presidenta Dilma na eleição de 2014.

A dívida dos Estados e municípios com a União aflige muitos gestores. Alguns falam em agiotagem. Acha que esse termo cabe?

Não cabe. O modelo de pagamento e reestruturação da dívida não foi feito por nós. A definição do elemento vinculante ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso .

Se eleito, o que pretende fazer em relação à divida?

Vou me somar aos prefeitos de todo o Brasil na busca de um novo indexador que seja menos pesado para os municípios e estados. Ao mesmo tempo, vamos tentar a renegociação direta em alguns aspectos. E também vou buscar um equilíbrio maior das contas públicas de Recife.

O sr. pediu licença do Senado para fazer campanha?

Não. Tenho obrigações e responsabilidades no Senado. Sou relator de temas. Estou participando integralmente do esforço concentrado.

Essa atuação não prejudica a campanha? Muitos candidatos que são parlamentares optaram por deixar o mandato até a eleição...

Prejudica, mas não tem como ser diferente. Não posso deixar de cumprir meu mandato como senador em Brasília. Tenho responsabilidades. Pretendo estar em Brasília em todos os esforços concentrados. Os candidatos não têm por que se licenciar.

Reeleição seria risco “gigantesco”

O PT do Recife vive um dilema. Rompeu com o atual prefeito, mas não pode criticar a gestão porque o partido está no poder desde 2000. Sua candidatura foi  uma surpresa, já que o ex-deputado Maurício Rands é que estava inscrito nas prévias contra o prefeito João da Costa. Ficou surpreso com a decisão dele de deixar o partido?

Fomos todos pegos de surpresa. Ele saiu do partido sem debater, discutir e apresentar as suas razões. Saiu sozinho e não levou ninguém. Isso não teve a maior repercussão.

Espera que ele entre na campanha do seu adversário do PSB?

Tenho informações de que ele está fazendo um curso nos Estados Unidos.

O PT nacional não exagerou na intervenção em Pernambuco?

Todos os partidos indicaram seus candidatos a partir dos diretórios. A minha candidatura foi indicada pelo PT municipal, estadual e nacional.

Já que a atual gestão é boa, como o senhor mesmo diz, não seria natural lançar o atual prefeito à reeleição?

Nós tivemos sérios problemas políticos em relação à gestão municipal. O diálogo político não funcionou. Ele não conseguiu um relacionamento com os partidos da base de sustentação do governo. Houve muita fragilidade administrativa. E houve ainda uma disputa entre o prefeito e o ex-prefeito. Achamos então que o PT correria um risco gigantesco com a candidatura à reeleição.

Se o julgamento do mensalão aparecer na campanha dos seus adversários, pretende acionar a Justiça?

Se tentarem vincular o mensalão com as nossas candidaturas, vamos com certeza entrar na Justiça.

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Humberto Costa

Senador é médico e foi ministro da Saúde na gestão do presidente Lula. Foi eleito pela primeira vez em 1990, como o deputado estadual mais votado no Recife. Quatro anos depois, foi eleito deputado federal com 84.493 votos. Foi por três vezes vice-líder do PT e uma vez vice-líder do Bloco Parlamentar de Oposições na Câmara dos Deputados. 

Em 2001, foi convidado pelo então prefeito eleito do Recife João Paulo (PT) para assumir a Secretaria Municipal de Saúde. No ano seguinte, assumiu o Ministério da Saúde.  Em abril de 2010, Humberto Costa deixou o cargo de secretário para candidatar-se ao Senado. Eleito, tornou-se o primeiro senador do PT de Pernambuco, com uma votação de 3.059.818 votos (38,8% dos votos válidos), e teve, proporcionalmente, o melhor desempenho eleitoral entre os senadores eleitos pelo PT. Apenas no Recife foram 499.522 votos.

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