Gurgel mira Dirceu e chama mensalão de ‘esquema atrevido de corrupção’

Em pouco mais de cinco horas de acusação, procurador-geral afirmou que grupo usava carros-fortes para levar dinheiro e que esquema beneficiava a base aliada do governo Lula. Ele pediu também a prisão imediata após o julgamento dos réus que forem condenados

iG São Paulo | - Atualizada às

Em pouco mais de cinco horas de acusação, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, tentou provar nesta sexta-feira (3), no segundo dia de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que o mensalão existiu, servia para comprar apoio ao governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tinha como líder o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Gurgel usou termos fortes para definir o mensalão, disse que “é o mais atrevido e escandaloso caso de corrupção e desvio de dinheiro público já flagrado no Brasil”. 

Na conclusão de sua fala, o procurador-geral pediu a condenação de 36 dos 38 réus. Os acusados Luiz Gushiken, ex-ministro do governo Lula, e Antonio Lamas, fundador do PL (atual PR) foram excluídos da condenação "dada a insuficiência de provas". Ele requereu também a "expedição de mandados de prisão cabíveis imediatamente após a conclusão do julgamento".

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Carlos Humberto/SCO/STF
Gurgel falou por pouco mais de cinco horas e centrou sua acusação no ex-ministro José Dirceu

Para o procurador-geral da República, Dirceu era o “líder do grupo”. Ele “foi a principal figura de tudo o que foi apurado. Foi o mentor da ação do grupo e seu grande protagonista”. E disse ainda que tudo passava pelo ex-ministro, que sabia de todos os atos ilícitos cometidos pelos seus subordinados. “O que interessa, e está presente nos autos, é que houve acordo político associado ao acordo financeiro”, disse Gurgel.

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Gurgel admitiu, no entanto, que faltam provas contra o petista. “O autor intelectual nos chamados crimes organizados age entre quatro paredes. Não envia mensagens eletrônicas, não assina documentos. Atua por meio dos chamados ‘laranjas’ (...) Como quase sempre ocorre com os chefes de quadrilha, o acusado (Dirceu) não apareceu ostensivamente nos atos da quadrilha”, afirmou o procurador.

Ainda segundo Gurgel, o volume de recursos era tão grande que os integrantes do grupo contratavam carros-fortes para transportar o dinheiro. "Tão intensa era a movimentação de recursos, e recursos tão grandes, que ora se contratavam policiais para proceder os saques em dinheiro, ora se recorria à contratação de carros-fortes. Alguns dos saques feitos pela quadrilha tiveram carros-fortes, tamanha a magnitude dos valores. Fossem lícitas essas operações, por que fazê-las todas ao largo do nosso sistema financeiro e bancário?", questionou Gurgel.

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Em vários momentos, o procurador reafirmou a existência do mensalão, que, segundo ele, foi o “mais atrevido e escandaloso caso de corrupção e desvio de dinheiro público” da política nacional. Na primeira metade de sua sustentação, no Supremo Tribunal Federal (STF), Gurgel citou o papel de cada integrante do esquema, mas sempre dando destaque à atuação de Dirceu.

O procurador ainda rebateu críticas dos advogados dos réus que figuram no processo, que consideraram o mensalão “uma criação de delírio”. Segundo ele, o mensalão foi montado em 2003, logo no início do primeiro mandato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para cooptar apoio político. “Maculou-se a República, instituindo-se à custa do desvio de dinheiro público, um sistema de movimentação financeira à margem da legalidade, com o objetivo de comprar o voto de parlamentares em matérias relevantes para o governo”.

Ele finalizou citando um trecho da música Vai Passar  de Chico Buarque, depois de repetir que o mensalão fora o esquema "mais atrevido e escandaloso" do País. "Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações", recitou.

Os três núcleos do mensalão

Gurgel disse que a base do esquema constituía na captação de verbas por parte do publicitário Marcos Valério, a mando da cúpula do PT, para distribuição entre parlamentares da base aliada.

Ainda no núcleo político (os réus foram divididos em três núcleos: político, operacional e financeiro), Gurgel citou o ex-presidente do PT José Genoíno, o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira e o ex-tesoureiro da legenda Delúbio Soares, além dos parlamentares dos partidos beneficiados pelo esquema – PL (hoje PR), PTB e PP.

Do núcleo publicitário-financeiro, o destaque foi para Marcos Valério. “Dirceu foi o mentor do esquema enquanto Marcos Valério foi seu executor”, sintetizou Gurgel. O interesse desse núcleo, segundo o procurador, era se aproximar do governo a fim de obter vantagens em contratos publicitários e desvio de verba em benefício próprio.

Ainda segundo Gurgel, o núcleo financeiro – formado por dirigentes do Banco Rural à época – aceitou entrar no esquema para obter vantagens em transações envolvendo instituições financeiras. Segundo a denúncia, o grupo forjou empréstimos que não ocorreram na realidade, dissimulando a origem ilegal da verba. O procurador lembrou que representantes do Banco BMG não estão na ação penal do STF porque o caso está sendo tratado em outro processo, que tramita na Justiça de primeiro grau.

Em resposta, o Banco Rural afirmou em nota que "discorda frontalmente" das acusações do procurador-geral. "A instituição tem convicção da inocência de seus executivos à época, ressaltando que não estão sendo acusados de atos de corrupção e de desvios de recursos públicos."

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