Lula: de ‘traído’ a defensor dos réus do mensalão

Quando o escândalo surgiu, em 2005, o então presidente se disse traído pela cúpula petista, mas na ação que será julgada amanhã testemunhou a favor de réus como José Dirceu

Wilson Lima - iG Brasília |

Quando o escândalo do mensalão eclodiu em 2005, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) afirmou na época que se “sentia traído por práticas inaceitáveis das quais nunca teve conhecimento”. Era uma referência clara à cúpula do PT - José Genoino, Delúbio Soares e José Dirceu – acusada pelo então deputado e líder do PTB, Roberto Jefferson, de negociar pagamento mensal a parlamentares em troca de apoio político no Congresso.

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No entanto, com o passar do tempo, Lula foi mudando de opinião. À Justiça, após a fase de instrução da ação penal do mensalão, o ex-presidente defendeu aqueles que antes chamava indiretamente de traidores. Em vários depoimentos que hoje compõem as defesas de réus como o ex-ministro José Dirceu, Lula afirmou desconhecer “qualquer ilicitude relacionada à votação da reforma da previdência pelo Congresso Nacional” e atos irregulares cometidos por integrantes do partido.

Assista ao pronunciamento de Lula sobre o mensalão, em 12 de agosto de 2005

E foi além. Não somente negou qualquer tipo de pagamento a parlamentares pelo apoio à aprovação da reforma, como disse que a votação somente foi possível após acordo político entre deputados, senadores e governadores. “Sua aprovação foi fruto de acordo com 27 governadores de Estado para a aprovação conjunta com a reforma tributária. Pela relevância e complexidade do tema, é certo que seu texto foi objeto de debates dentro do Congresso Nacional, os quais, por sua vez, refletiam aqueles em andamento na sociedade brasileira”, disse Lula no processo.

Apesar de Jefferson, o delator do mensalão, sempre ter afirmando que Lula nunca teve conhecimento ou participação no escândalo, o seu advogado, Luiz Barbosa, defende a tese de que o petista tinha, sim, ciência do esquema de negociação de apoio político. Tanto que nas duas argumentações para inocentar Jefferson, Barbosa alega que não há como falar em “compra de apoio político para projetos do Executivo, sem interesse direto do presidente da República na época”.

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Durante seus depoimentos, o ex-presidente também negou qualquer tipo de ato ilícito de José Dirceu, acusado pela Procuradoria Geral da República de “chefe do mensalão”. Em seus testemunhos, Lula disse que não conhecia nenhum ato indevido relacionado a uma possível negociação entre o PT e o banco BMG, para facilitar a entrada da instituição financeira em ações de crédito consignado para aposentados. A Procuradoria afirma que essas operações foram facilitadas por Dirceu após o banco conceder empréstimos ao PT, que abasteceram o esquema do mensalão. “Não tenho conhecimento de nenhum ato indevido”, disse Lula sobre o episódio.

Apesar de ter negado qualquer ato ilegal nesse caso, o ex-presidente Lula responde a uma Ação Civil Pública, na Justiça Federal do Distrito Federal, pelo crime de improbidade administrativa. Ele é acusado de ter gasto R$ 9,5 milhões com propaganda irregular para promover a entrada do BMG em ações de crédito consignado. A defesa de Roberto Jefferson anexou essa ação civil pública como fato probatório de que o ex-presidente tinha conhecimento do mensalão e que ele também teria ajudado nessas operações do banco BMG.

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Em outro episódio fora dos autos do processo, o ex-presidente envolveu-se em uma polêmica com o ministro do STF, Gilmar Mendes, em maio deste ano. Ele foi acusado de ter feito lobby para atrasar o julgamento do mensalão e não atrapalhar os planos do PT nas eleições de outubro. No entendimento do ministro do STF, Lula queria que a análise da ação ocorresse depois da disputa municipal. Lula teria oferecido blindagem ao ministro no início dos trabalhos da CPI que investiga as ligações de políticos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Furioso, Mendes classificou o ex-presidente como uma “central de informação de gângsteres”. O ex-presidente Lula negou qualquer tentativa de lobby e disse, em entrevista ao Programa do Ratinho, que “quem inventou que prove a história. Quem acreditou nela que continue provando. O tempo se encarrega de arrumar as coisas”.

O julgamento do mensalão, no Supremo Tribunal Federal (STF), começa nesta quinta-feira (2) e deve demorar mais de um mês para ser concluído. São 38 acusados no banco dos réus, que respondem a crimes como corrupção ativa, lavagem de dinheiro e peculato.

Veja abaixo a cronologia do caso


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