Major da reserva é denunciado por sequestro na Guerrilha do Araguaia

Lício Augusto Maciel, conhecido como doutor Asdrúbal, é acusado pelo MP de ter sequestrado o militante do PC do B Divino Ferreira de Sousa

iG São Paulo |

O Ministério Público Federal denunciou mais um militar responsável por crimes contra a humanidade durante a Guerrilha do Araguaia (1967-1974). O major da reserva Lício Augusto Maciel, conhecido como doutor Asdrúbal, é acusado de sequestrar Divino Ferreira de Sousa, único dos quatro guerrilheiros que foi levado vivo às dependências do Exército após uma emboscada dos militares, durante a Operação Marajoara.

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Segundo a denúncia, os militares chefiados por Lício encontraram Divino, acompanhado por André Grabois (o Zé Carlos), João Gualberto Calatroni (o Zebão) e Antônio Alfredo de Lima (o Alfredo), enquanto estes abatiam animais. Os soldados abriram fogo contra o grupo, matando três dos quatro guerrilheiros. Nunes, como era conhecido Divino, foi levado para a base militar da Casa Azul, em Marabá. O MP afirma que Divino foi interrogado e submetido a "grave sofrimento físico" e, depois disso, não foi mais visto.

Entre as testemunhas ouvidas pelo MP estão o militar José Vargas Jimenez, que escreveu 'Baraba', livro sobre a repressão à guerrilha, e Manoel Leal Lima, o Vanu, que trabalhou como guia para o grupo de militares durante a emboscada. De acordo com Vanu, os militantes poderiam ter sido rendidos, pois não representavam ameaça, mas foram mortos, com exceção de Divino. Segundo ele, o guerrilheiro foi interrogado e, depois, nunca mais foi visto.

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Ele e Jimenez relataram que Divino foi o responsável por carregar os corpos dos três militantes do PC do B, que foram sepultados em uma vala. Segundo Jimenez, um soldado cortou o dedo de um dos mortos e passou a usar o osso como um amuleto.

O próprio alvo da denúncia, segundo o MP, admitiu participação nos crimes durante depoimento prestado à Justiça do Rio de Janeiro, em 2010. "Não há notícias de sequer um militante que, privado da liberdade pelas Forças Armadas durante a Operação Marajoara, tenha sido encontrado livre posteriormente”, afirma a denúncia.

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Essa é a segunda ação movida pelo MP contra militares envolvidos na Guerrilha do Araguaia. O coronel Sebastião Curió teve a denúncia recusada na primeira instância pela Justiça do Pará, que afirmou que nesses casos a Lei da Anistia deve ser aplicada e, mesmo não havendo essa opção, o crime estaria prescrito. O MP já anunciou que vai recorrer da decisão.

Para o MP, os crimes de sequestro praticados na ditadura militar (1964-1985) não estão prescritos nem podem ser enquadrados na Lei da Anistia, por serem crimes permanentes.

A denúncia contra Lício é assinada pelos procuradores Tiago Modesto Rabelo, André Casagrande Raupp, Melina Alves Tostes e Luana Vargas Macedo, de Marabá, Ubiratan Cazetta e Felício Pontes Jr., de Belém, Ivan Cláudio Marx, de Uruguaiana, Andrey Borges de Mendonça, de Santos e Sergio Gardenghi Suiama e Marlon Alberto Weichert, de São Paulo e foi encaminhada para a Justiça Federal de Marabá (PA).

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