Para evitar caixa 2, campanhas ‘chutam alto’ e quadruplicam custo da eleição

Partidos querem blindar candidatos de possíveis escândalos envolvendo doações eleitorais, como no caso recente da Delta, e se aproximam da realidade dos gastos de uma campanha

Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

Apesar da crise financeira global e das iniciativas com o objetivo de baratear as campanhas eleitorais, as previsões de gastos registradas pelos principais candidatos a prefeito das maiores cidades do Brasil mostram um salto inédito nos custos eleitorais.

Segundo candidatos e especialistas ouvidos pelo iG , um dos motivos do aumento é evitar o caixa dois.

Até 2010, os gastos de campanha dobravam a cada eleição, segundo levantamento feito pelo deputado Henrique Fontana (PT-RS), relator do projeto de reforma política na Câmara. Já as eleições municipais deste ano apontam previsões de gastos até quatro vezes maiores do que em 2008.

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É o caso do PT de São Paulo, que registrou previsão de gastos de R$ 25 milhões para Marta Suplicy quatro anos atrás e R$ 90 milhões para Fernando Haddad este ano (360% a mais). No PSDB o aumento foi ainda maior. Geraldo Alckmin fez uma previsão de R$ 25 milhões em 2008 enquanto José Serra , candidato que registrou o maior limite de gastos em todo o Brasil, estipulou teto de R$ 98 milhões (aumento de 392%, quase quatro vezes).

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Em entrevista no último domingo, Serra admitiu que um dos motivos para o aumento do teto é evitar a tentação do caixa dois.

“A explicação é o custo, em primeiro lugar. Em segundo, essa previsão é um teto que não necessariamente será atingido. Se for o caso, tem uma margem para despesa sem a tentação de querer fazer despesa por fora”, disse Serra.

Um experiente arrecadador de doações eleitorais petista ouvido pelo iG disse que as investigações da CPI do Cachoeira sobre a construtora Delta, que tem contratos suspeitos com praticamente todos os principais partidos políticos, levou as campanhas a aumentarem a previsão de gastos para evitar o caixa dois e blindar os candidatos de possíveis escândalos.

“Todos sabem que os principais partidos usam muito caixa dois. O que acontece é que por causa dessa pressão toda na Delta, as campanhas estão tomando precauções”, disse o arrecadador. “Na verdade, os custos não estão aumentando. As campanhas é que estão adequando os valores declarados à realidade”, completou.

Veja como foi a semana dos candidatos

O cientista político Wagner Pralon, da Universidade de São Paulo (USP), tem opinião parecida. “Talvez, com o crescente temor da fiscalização eleitoral, os candidatos estejam tentando evitar problemas e estão declarando mais gastos ‘por dentro’”, disse Pralon. “Se lembrarmos que o Duda Mendonça admitiu à CPI do Mensalão que recebia por fora isso faz ainda mais sentido. As declarações estão se adequando e se aproximando mais da realidade”, completou Pralon.

A argumentação usada por Serra e outros candidatos de que os valores registrados na Justiça Eleitoral são apenas um teto que não necessariamente será atingido contradiz algumas experiências recentes.

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AE
A campanha de Serra estipulou teto de R$ 98 milhões para 2012

O próprio Gilberto Kassab (PSD), ex-vice de Serra, registrou em 2008 uma previsão de gastos de R$ 30 milhões e usou R$ 29,7 milhões. Também em 2008 o atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), fixou teto de R$ 14 milhões, mas gastou R$ 17,5 milhões, estourando as estimativas. Ele precisou fazer uma retificação junto à Justiça Eleitoral mineira.

Ainda no domingo, Serra culpou o “sistema eleitoral” brasileiro e os altos custos de produção dos programas de rádio e TV pelo aumento dos gastos de campanha.

“As campanhas são caras. O sistema eleitoral, por certo, se tivesse voto distrital com um vereador candidato por distrito a partir daí já seria muito mais barato. A TV e o rádio isoladamente são o maior item de despesa”, disse ele.

Segundo fontes nas campanhas tucana e petista, os programas devem custar entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões. Os marqueteiros Luiz Gonzalez (Serra) e João Santana (Haddad) foram procurados para comentar os números, mas não responderam.

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“O aumento do custo de preparação de um programa de TV bem feito é cada vez maior. As campanhas são cada vez mais profissionais. Acabou a era da militância nas ruas. E a tendência é ficar cada vez mais caro”, disse Pralon.

O cientista político lembrou que nem a minirreforma eleitoral feita em 2005 depois do escândalo do mensalão na qual foram proibidos showmícios, outdoors e distribuição de brindes conseguiu frear o aumento de gastos.

São Paulo é a ponta mais visível por ser a maior e mais rica cidade do País, mas o fenômeno do aumento desenfreado de gastos acontece em todas as grandes capitais.

AE
Campanha de Eduardo Paes no Rio tem teto de R$ 25 milhões, ante R$ 11,4 milhões de 2008

Rio

No Rio de Janeiro, os dois principais candidatos na eleição de 2004, Cesar Maia (DEM) e Marcelo Crivella (PRB) gastaram R$ 2,7 milhões e R$ 1,4 milhão, respectivamente. Em 2008 o prefeito Eduardo Paes (PMDB) usou R$ 11,4 milhões e o segundo colocado, Fernando Gabeira (PV), R$ 5,2 milhões. Este ano, Paes registrou teto de R$ 25 milhões e Rodrigo Maia (DEM) R$ 9 milhões.

Belo Horizonte

Em Belo Horizonte, o então prefeito Fernando Pimentel (PT) gastou R$ 4,3 milhões na reeleição contra João Leite (PSB), que usou R$ 2 milhões. Em 2008, a campanha de Márcio Lacerda, sucessor de Pimentel, custou R$ 17,5 milhões contra R$ 2,7 milhões de Leonardo Quintão (PMDB). Este ano, Lacerda registrou uma previsão de R$ 35 milhões e Patrus Ananias (PT), de 20 milhões.

Porto Alegre

A eleição de José Fogaça (PMDB) para a prefeitura de Porto Alegre em 2004 custou R$ 1,5 milhão. Naquele ano, Raul Pont (PT) gastou R$ 1 milhão. Em 2008, Fogaça usou R$ 2,6 milhões na reeleição e a segunda colocada, Maria do Rosário (PT), R$ 3,6 milhões. Este ano José Fortunatti (PDT) prevê gastar R$ 10,5 milhões; Adão Villaverde (PT), R$ 8 milhões e Manuela D’Ávila (PC do B), R$ 6,8 milhões.

Recife

No Recife, João Paulo Lima e Silva (PT) foi reeleito no primeiro turno em 2004 gastando R$ 1,9 milhão. Em 2008, a eleição do sucessor de João Paulo, João da Costa (PT), custou R$ 2,8 milhões contra R$ 2,1 milhões do segundo colocado Mendonça Filho (DEM). Este ano, Humberto Costa (PT) prevê gastar R$ 10 milhões; Geraldo Julio (PSB), R$ 8 milhões e Mendonça Filho, R$ 5,8 milhões.

Salvador

Em Salvador, João Henrique (PDT) gastou R$ 1,2 milhão para se eleger em 2004. A campanha de Cesar Borges (DEM) custou R$ 3,6 milhões. A reeleição de João Henrique em 2008 custou R$ 2,9 milhões. Walter Pinheiro (PT) gastou naquele ano R$ 4,5 milhões. Este ano o candidato do PT, Nelson Pelegrino estipulou teto de R$ 20 milhões e ACM Neto (DEM) prevê gastar até R$ 18 milhões.

Fortaleza

As campanhas dos dez candidatos à prefeitura de Fortaleza podem custar R$ 60 milhões, ao todo. Comparada com 2008, a soma dos tetos de gastos declarados pelos partidos à Justiça eleitoral é 50% maior nestas eleições. Embora anuncie uma campanha “modesta”, o candidato do PSDB, Marcos Cals, fixou o maior teto de gastos entre os postulantes na capital cearense: R$ 17 milhões. Na sequência das campanhas milionárias, estão os candidatos apoiados pelo governador Cid Gomes (PSB) e pela prefeita Luizianne Lins (PT): R$ 14 milhões do socialista Roberto Cláudio e R$ 11,5 milhões do petista Elmano de Freitas. Outras três candidaturas fecham a casa do milhão: Heitor Férrer (PDT), com teto de R$ 7 milhões; Moroni Torgan (DEM), R$ 5 milhões, e Inácio Arruda (PCdoB), R$ 4 milhões.

Reforma política

“A única maneira de mudar isso é uma reforma política mas a impressão é que ninguém quer uma mudança”, disse Wagner Pralon.

O relatório de Henrique Fontana está engavetado por absoluta falta de acordo entre os partidos políticos. Aprovar uma mudança profunda no sistema eleitoral brasileiro é uma tarefa tão difícil que rendeu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sua primeira derrota política depois de deixar a presidência.

Ao sair do Planalto Lula elegeu a reforma política como sua principal tarefa no âmbito interno. O ex-presidente, do alto dos seus mais de 80% de aprovação popular, convocou líderes partidários, parlamentares influentes, sindicatos e outros agentes políticos e incentivou a criação de uma comissão especial na Câmara.

Depois de ouvir diversas negativas, inclusive de aliados, e vislumbrar o risco de a mudança se transformar em um retrocesso ainda maior no sistema eleitoral brasileiro, Lula desistiu. A última vez que o ex-presidente tocou no assunto foi em uma reunião no dia 19 de setembro do ano passado.

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