Em Salvador, candidatos apostam no 'voto negro' para vencer as eleições

Quase todas as candidaturas a prefeito têm negros na chapa; segundo Censo 2010, cerca de 80% da capital baiana é negra e mestiça

João Paulo Gondim - iG Bahia |

O “voto negro” dá o tom da campanha eleitoral deste ano em Salvado r. Com uma população predominante de negros e mestiços – cerca de 80% dos 2.675.656 habitantes, segundo o Censo 2010 –, quase todas as candidaturas de chapa majoritária lançaram afrodescendentes em suas chapas.

O PSOL vai com Hamilton Assis como candidato a prefeito. O PRB aposta no Bispo Márcio Marinho. Três candidatos entraram na corrida com negros como vice: Mário Kertész (PMDB) tem como companheiro Nestor Neto; a vice de Nélson Pelegrino (PT) é Olívia Santana; ACM Neto (DEM) escolheu Célia Sacramento. Apenas Da Luz, do PRTB, não aderiu à tendência.

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Divulgação
Célia Sacramento recebeu críticas de militantes do movimento negro por ter aceitado vice de ACM Neto

Setores do movimento negro e os próprios postulantes à Prefeitura veem como um caminho natural a presença maciça de afrodescendentes, visto que eles são a esmagadora maioria dos moradores da cidade, mas quase todos classificam as chapas alheias de oportunismo.

"Por um lado pode parecer um avanço [tal quantidade de candidatos], mas por outro a gente vê que a maioria está como vice, serve apenas como acessório da imagem do branco", reclamou Hamilton Borges, coordenador da organização Quilombo X.

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A socióloga Vilma Reis, diretora do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN), concorda com o seu companheiro de militância sobre a minoria de candidatos na cabeça de chapa. No entanto, ela vê algo positivo no panorama eleitoral de Salvador. Ela ressalta não só o caráter racial, como o de gênero. "É muito importante para a nossa sociedade a presença de mulheres negras com esse destaque", diz.

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Ela afirma que Olívia Santana e Célia Sacramento ocupam as brechas do modelo predominante na política: "macho, adulto, branco e cristão". Para Vilma, a aparição das duas candidatas a vice no horário eleitoral gratuito vai ser bom para a autoestima das garotas soteropolitanas. "Esses rostos das mulheres negras não vão sair no zero a zero, elas terão importância porque cada menina que as vir vai pensar: 'eu posso também'[superar obstáculos]".

Lázaro Cunha, diretor de projetos do Instituto Cultural Steve Biko, afirma que é um progresso tantos negros na disputa e que tal fato "demonstra a ressonância dos esforços do movimento negro em seu intento de dar à questão das desigualdades raciais na cidade a importância devida".

Fernando Udo/Divulgação
Olivia Santana, do PCdoB, é a candidata a vice na chapa do petista Nélson Pelegrino

No entanto, ele diz que "que nem todos os candidatos negros têm como prioridade o combate às desigualdades raciais ou têm acúmulo na referida discussão". Na sua avaliação, "sob o ponto de vista simbólico, a presença de candidatos negros nas chapas que concorrem à prefeitura também revela o desconforto em manter candidaturas com chapas 100% brancas em uma cidade de maioria negra, que vive uma gritante desigualdade e que experimenta uma crescente conscientização do cidadão comum em relação à importância da cor da pele nas relações sociais".

Estratégia de marketing eleitoral

Ativista histórico da causa negra, o candidato Hamilton Assis classifica essa peculiaridade de negros como pontas de lança nas chapas como "estratégia organizada pelo marketing eleitoral". Ele lembra que, em 1985, Antônio Carlos Magalhães patrocinou a candidatura de Edvaldo Brito. Embora Brito fosse negro, sua candidatura não mobilizou setores progressistas, que, naquele ano, o viram como representante do que Hamilton chama de "conservadorismo e atraso".

Curiosidade: Edvaldo Brito, que hoje apoia Pelegrino, foi derrotado nas urnas em 1985 por Kertész. Brito, prefeito biônico, governou a cidade de agosto de 1978 a março de 1979, tornando-se, assim, o único prefeito negro da história de Salvador. Ele foi substituído na prefeitura por Mário Kertéz, cuja primeira gestão foi fruto da nomeação do então governador ACM.

Para Hamílton, ainda é pequeno o espaço do negro no protagonismo político. Por isso, ele diz entender por que outros afrodescendentes aderiram a candidaturas que ele considera de "direita".

"A luta pela ocupação do poder é de uma perversidade tão grande que segregou uma parcela significativa da nossa população. Então [o negro] se articulou até com a direita para ocupar esses espaços de poder e viabilizar políticas públicas Só que essa movimentação tem se mostrado ineficiente porque a cidade vive um problema estrutural. O desemprego atinge a maioria dos negros, então você precisa estar no poder com capacidade de operar efetivamente mudanças qualitativa na forma da gestão da cidade. O movimento negro está em uma encruzilhada. É o momento dele fazer uma afirmação de que, de fato, não quer ter papel coadjuvante na administração de Salvador", disse o socialista.

Hamilton diz não achar que nas próximas eleições não haverá incremento de cabeças de chapa negros, pois "há uma barreira social completamente desproporcional na estrutura dos partidos".

Raul Spinass/Agência A Tarde/AE
ACM Neto é o candidato do DEM à Prefeitura de Salvador e tenta resgatar o carlismo na capital baiana

Único candidato a prefeito

O deputado federal Márcio Marinho afirma que a sua chapa "é a cara de Salvador". A sua explicação é direta. Ele é o único negro candidato a prefeito cujo vice também é negro, o delegado Deraldo Damasceno, do PSL. "A nossa chapa é negra, é de raça", disse Marinho.

De acordo com ele, a eleição de Dilma Rousseff à presidência foi uma prova da mudança de postura do eleitor. No entendimento do deputado, as pessoas, agora, buscam a renovação no perfil dos governantes. Para ele, essa abrangência de nomes negros na disputa "é fruto da democracia".

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Mário Kertész é o candidato do PMDB à prefeito de Salvador e tem um negro como vice em sua chapa

Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Marinho refuta que vai governar somente para os evangélicos e diz saber para qual segmento vai direcionar as suas ações. "Chegou o momento de sair da senzala e ir para a casa-grande. É evidente que as nossas propostas são para toda a cidade, mas a prioridade é para a população majoritariamente negra e pobre", diz o bispo, que promete fortalecer a Secretaria Municipal da Reparação, que desenvolve ações em prol dos afrodescendentes.

Dos três grandes partidos que concorrem à eleição, o primeiro anúncio de vice negro foi do DEM, que apostou na professora Célia Sacramento (PV) para compor a chapa com ACM Neto .

Ao aceitar a aliança com ACM Neto, Célia, que possui trajetória na militância, foi alvo de críticas de entidades negras , pois o DEM chegou a entrar com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra as cotas nas universidades públicas.

Para quem critica sua união com ACM Neto, ela lembrou que o demista, na sua campanha para prefeito em 2008 tinha o próprio bispo Marinho como vice. "Há quatro anos, ACM Neto já tinha essa preocupação com os negros", disse Célia. Segundo ela, mesmo com o PV coligado com o PT em 2008, ela aprovou o plano de governo do demista para os afrodescendentes.

Outro quadro tradicional do ativismo negro é a vereadora Olívia Santana (PC do B). Olívia, que destaca "a eleição mais negra da história de Salvador, afirma que a sua trajetória de lutas pesou na sua indicação, mas também afirma que a sua carreira legislativa contribuiu na sua escolha como vice.

De acordo com a vereadora, o anúncio de seu nome como vice teve endosso de entidades negras. “Lideranças do movimento negro nacional ligaram para mim, 'você tem que ir' (...) foi uma onda de entidades, foi consenso nas entidades do movimento negro. Então eu assumi mesmo a tarefa, com vontade de que dê certo”, afirmou.

O candidato mais jovem dessa corrida é o vice do PMDB, Nestor Neto, de 31 anos. Com passado no movimento estudantil e em lideranças comunitárias diz ser a causa negra mais ampla do que aceitar apenas pessoas da sua raça.

"Existem alguns grupos políticos em Salvador que delimitam o que é a luta do movimento negro e o que é a luta do movimento geral. Na minha cabeça, movimento negro são todas aquelas pessoas que lutam, sendo negro ou não, mas que tem lutado em defesa daqueles que são os mais oprimidos da nossa sociedade", afirmou o peemedebista, que diz haver sectarismo em organizações negras.

"Já ouvi discursos ultrapassados: 'ah, para ser do movimento negro tem que militar na Conen [Coordenação Nacional de Entidades Negras] ou ser aluno do Steve Biko'. Tem alguns candidatos se intitulando os donos dos negros em Salvador. Os negros são independentes, eles não têm donos. Eles têm ideais. Eu sou negro, acredito nos ideais e sempre defendi o movimento negro. Agora, nunca fui limitado a reunir oito ou dez pessoas numa sala e estabelecer se a cota é coerente ou não é coerente", disse Neto.

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