PMDB quebra jejum de 16 anos e oficializa Chalita como candidato em São Paulo

Para relembrar os velhos tempos, partido escolhe a Praça da Sé, palco da campanha pelas Diretas, para realizar o evento e minimiza resultado ruim em pesquisa

Fábio Matos - iG São Paulo |

Um dos palcos mais importantes das históricas manifestações políticas e sociais pela retomada das eleições diretas no País, no início dos anos 1980, a Praça da Sé voltará a receber o PMDB neste domingo (24). Após 16 anos, o partido, que teve papel fundamental na redemocratização do Brasil e hoje luta contra uma crise de identidade, que o deixou fora da polarização entre PT e PSDB nas principais disputas majoritárias dos últimos 20 anos, volta a apresentar candidato próprio à Prefeitura de São Paulo, o deputado federal Gabriel Chalita . Em 1996, o médico José Aristodemo Pinotti teve apenas 1,79% dos votos (101.356) e terminou na modesta quinta colocação.

Leia mais: Chalita investe em marketing para crescer no vácuo de Haddad

Leia as últimas notícias sobre as eleições municipais em todo o País

A escolha do local do ato político que oficializará a candidatura é uma espécie de homenagem ao “velho PMDB” da luta pelas Diretas Já. No dia 25 de janeiro de 1984, aniversário de São Paulo, cerca de 300 mil pessoas acompanharam um comício que reuniu lideranças políticas, artistas, sindicalistas e estudantes e deu a largada para uma série de manifestações populares em todo o Brasil. Apesar da derrota da Emenda Dante de Oliveira, que propunha o restabelecimento das eleições diretas para presidente, em 25 de abril de 1984, por apenas 22 votos, o ambiente político no País já fazia da redemocratização um caminho sem volta. E o PMDB, com lideranças como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, entre outros, esteve na vanguarda desse processo. Foi o auge do partido. “Escolhemos a Praça da Sé por se tratar do marco zero de São Paulo, além de ter sido palco de eventos que marcaram a nossa história”, postou Chalita em seu perfil no Twitter na última quarta-feira (20). “O comício Diretas Já foi um marco na história da nossa democracia. Foi o povo mudando a história. Nosso grande desafio é vencer o pragmatismo e trazer as pessoas para a política.”

Agência Estado
Ex-PSDB e PSB, Chalita chegou ao PMDB em 2011; ele foi secretário no governo Geraldo Alckmin e fez campanha para Dilma Rousseff na eleição de 2010

Filiado à legenda desde junho de 2011, Chalita tem como principal fiador de sua candidatura a prefeito o vice-presidente da República, Michel Temer , presidente nacional licenciado do PMDB. Chalita veio do PSB, pelo qual foi eleito deputado federal em 2010 com mais de 560 mil votos e onde permaneceu por menos de dois anos. Antes, pelo PSDB, o hoje peemedebista foi o vereador mais votado do País nas eleições de 2008, com 102.048 votos. Ele ainda ocupou a Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer e, depois, a Secretaria da Educação no governo Geraldo Alckmin (PSDB), e deixou o partido criticando a gestão do ex-governador José Serra na educação. Em 2012, curiosamente, Serra é um de seus adversários na corrida pela Prefeitura da capital.

Desde a morte do ex-governador Orestes Quércia, até então a grande liderança do partido em São Paulo, em dezembro de 2010, o PMDB paulista se alinhou ao comando nacional da legenda, encampando o discurso de unidade pregado por Temer. Em janeiro do ano passado, o Diretório Estadual foi dissolvido, com a renúncia coletiva de mais de dois terços de seus membros. Em abril deste ano, Chalita foi eleito presidente municipal do PMDB em São Paulo, após seis meses de interinidade no cargo, com 124 dos 126 votos. O secretário municipal de Esportes, Lazer e Recreação, Bebeto Haddad, que era o presidente, foi excluído da Executiva – ele era contra a candidatura própria do partido. A direção nacional fez uma série de intervenções em diretórios municipais em todo o Estado e enfraqueceu os quercistas. A tese da candidatura própria se consolidou, com o mote de que o PMDB precisava voltar a ser protagonista nos grandes centros.

Leia também: Chalita vai usar o Rio como exemplo a ser seguido por São Paulo

Poder Online: Coordenador de Serra diz que Chalita é visto como 'traidor contumaz'

“O projeto da candidatura do Chalita conseguiu um feito muito importante, que foi a união do PMDB nacional, de todo o Estado de São Paulo, com grande participação do interior e logicamente da capital”, diz ao iG o presidente estadual do PMDB-SP, deputado Baleia Rossi. “Esse processo de reconstrução e de fortalecimento da identidade do partido passava, necessariamente, por uma candidatura majoritária na capital. Para nós, é um momento muito importante do PMDB.”

Ligado ao governador Geraldo Alckmin, mas com boa relação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a presidenta Dilma Rousseff , Chalita personifica o “novo PMDB”. Atrelado ao movimento católico Renovação Carismática, ele ajudou a dissipar ataques de cunho moral à então candidata Dilma nas eleições presidenciais de 2010 junto à comunidade religiosa. O peemedebista chegou a ser especulado como possível vice na chapa de Fernando Haddad e teve até o nome cotado como ministeriável de Dilma no início de 2011, mas as conversas não avançaram. Chalita manteve a pré-candidatura a prefeito com a chancela de Temer e da direção do partido.

Agência Estado
Gabriel Chalita (1º, da dir. para a esq.), ao lado do vice-presidente da República, Michel Temer (ao centro): presidente licenciado do PMDB foi o principal articulador de sua candidatura em São Paulo

Pesquisa e vice

Apesar do discurso otimista, Chalita chega à convenção que oficializará sua candidatura a prefeito com índices de intenção de voto pouco expressivos nas pesquisas eleitorais. No último levantamento feito pelo Datafolha, divulgado no dia 17, o peemedebista ostenta modestos 6%, em sexto lugar, atrás de Serra (30%), Celso Russomanno, do PRB (21%), Soninha Francine, do PPS, e Haddad (ambos com 8%), e Netinho de Paula, do PCdoB (7%). Chalita oscilou negativamente em um ponto, dentro da margem de erro, em relação à pesquisa de março. Já pelo Ibope, que divulgou pesquisa em maio, o peemedebista aparece com 6%.

“Nós não temos expectativa nenhuma de o Chalita crescer antes do horário eleitoral. Ele nunca disputou um cargo majoritário. Entendemos que as pesquisas hoje mostram um recall muito grande dos outros candidatos”, minimiza Rossi. “O Serra foi duas vezes candidato a presidente, foi prefeito, governador... O Russomanno foi candidato ao governo do Estado. O Haddad não foi candidato, mas tem a força natural do PT e base de apoio histórica do partido em São Paulo, um patamar muito sólido. A Soninha já foi candidata a prefeita. Nós recebemos a pesquisa com muita tranquilidade e estamos plenamente confiantes de que o Chalita, assim que se tornar mais conhecido, vai crescer assustadoramente.”

Leia mais: Russomanno descarta aliança com Chalita no primeiro turno

Entrevista: 'Eu era muito pequeno para o Serra ter tanta raiva de mim', diz Chalita

No último dia 19, antes de participar do 26º Congresso Brasileiro de Radiodifusão, em Brasília, Temer adotou discurso semelhante. “O que eu posso falar é o seguinte: as pesquisas de hoje não serão possivelmente as pesquisas do final das eleições. Acho que o Chalita é o candidato do PMDB com grandes chances. Evidentemente, terá dificuldades naturais, mas ainda há muito tempo para a eleição e temos exemplos de muitas eleições em que as pessoas começam com índice muito baixo e acabam ganhando”, disse. “Acho que o PMDB está num trabalho muito tranquilo. O Chalita está montando a campanha dele com muito vigor e acho que o que vai decidir a eleição é aquele período da televisão.”

A coligação que sustenta a candidatura de Chalita conta até aqui com os nanicos PSC, PTC e PSL. Mas o PMDB confia na força da própria legenda, que deve garantir a Chalita cerca de 4 minutos e 30 segundos por bloco na propaganda eleitoral – tempo inferior ao que terão Serra e Haddad, mas suficiente para que o candidato suba nas pesquisas, acredita o partido. De forte capilaridade municipal em todo o País, a legenda espera impulsionar a eleição de um bom número de vereadores em São Paulo. Hoje, o PMDB não tem nenhum representante na Câmara Municipal paulistana.

Agência Estado
Patinando nas pesquisas, o candidato do PMDB espera deslanchar após o início da campanha: partido adota discurso de união e espera voltar ao protagonismo na maior cidade do Brasil

Na convenção deste domingo, o partido pode não anunciar o nome do candidato a vice-prefeito na chapa de Chalita. Até agora, vários nomes já foram especulados, entre eles o do economista Delfim Netto, responsável pela coordenação do programa de governo, e do empresário Marcos Toledo, ex-presidente do Jockey Club de São Paulo e marido da senadora Marta Suplicy (PT-SP). Também houve rumores de que o PCdoB, descontente com a aliança entre o PT de Haddad e o PP do ex-prefeito Paulo Maluf , poderia apoiar Chalita caso desistisse da candidatura própria de Netinho, mas Rossi descarta essa possibilidade.

“Nós trabalhamos muito para isso, junto a Nádia Campeão (presidente estadual do PCdoB-SP), ao Orlando (Silva, ex-ministro do Esporte), ao próprio Netinho. Mas a gente até entende uma tendência maior deles apoiarem o Haddad, até por uma questão nacional e também por uma gratidão ao Lula. Particularmente, acho difícil que componham conosco neste momento”, afirma.

“Nós não começamos essa discussão a respeito do vice dentro do partido. O que existe até agora é mera especulação. O Delfim é um grande nome do partido e está coordenando todo o programa de governo do Chalita. É um grande nome. Mas, sinceramente, acho até que ele não aceitaria. De qualquer forma, nós não estamos discutindo ainda essa questão”, despista Rossi.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG