Militante do movimento negro é alvo de críticas ao aceitar ser vice de ACM Neto

Ativistas veem contrassenso da professora Célia Sacramento, do PV, porque o DEM, partido do pré-candidato, foi ao STF contra as cotas raciais em universidades

João Paulo Gondim - iG Bahia | - Atualizada às

Divulgação
Célia Sacramento é a vice na chapa de ACM Neto

Anunciada nesta quinta-feira (14) como vice na chapa encabeçada pelo deputado federal ACM Neto (DEM) nas eleições para prefeito de Salvador, a professora Célia Sacramento, do PV, recebeu críticas de ativistas por conta de sua atuação no movimento negro.

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Em abril deste ano, a legenda de ACM Neto entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a inconstitucionalidade do sistema de cotas raciais em universidades. A tese foi derrubada por unanimidade. Além disso, a agremiação partidária e o PSDB – que ao lado do PPS completa a coligação – são opositores do decreto que normatiza a política de quilombos.

Célia colaborou com o Instituto Cultural Steve Biko. Trata-se de um curso pré-vestibular criado em 1992, em Salvador, voltado para negros de baixa renda, que inclui um curso de formação para a cidadania. A entidade declarou ser favorável às cotas. Ainda antes do anúncio de sua pré-candidatura, circulou a informação de que ela havia criado o instituto, o que foi negado pela sua diretoria.

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"Realmente nunca tive cargo lá, mas ajudei a construí-lo. É um absurdo eles não reconhecerem isso. Inclusive foram eles que me incentivaram a entrar na política. Fizeram até material para mim", afirmou Célia.

Apesar da sua militância, ela não escapou de protestos por se aliar ao DEM.

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"Ela se aliou a um partido que durante décadas colocou o negro em posição subalterna, humilhante", afirmou Hamilton Borges, coordenador da organização Quilombo X. De acordo com ele, no período em que a então Arena e o então PFL (antigas versões do DEM), esteve no governo do Estado, os negros eram assassinados com frequência. "Esse partido tem as mãos lavadas em sangue".

"Eu não retrocedi nas minhas propostas. Continuo favorável às cotas. Aceitei fazer parte dessa chapa não por causa do DEM, mas sim por [ACM] Neto. Se eu estivesse lá [no Instituto Cultural Steve Biko] faria a mesma coisa. Tenho certeza que ele vai abraçar as bandeiras do PV, aderir a políticas de promoção de igualdade racial, à sustentabilidade. [ACM] Neto me disse que quando foi assessor da Secretaria [estadual] de Educação [entre 1999 e 2002] quis implementar o sistema de cotas no Estado. Ele vai avançar nas nossas conquistas", afirmou Célia.

ACM Neto, por sua vez, declarou que a escolha da professora se deu em comum acordo entre os partidos da sua aliança e que o fato do candidato a vice-prefeito não ser do PSDB não significa rusgas com os tucanos.

Líder da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas da Câmara dos Deputados, Luiz Alberto (PT-BA) disse respeitar a opção ideológica da professora. No entanto, o congressista afirmou ser contraditório ela se juntar a um partido "contrário a qualquer ação de inclusão social". Para o deputado federal, o DEM foi oportunista na escolha do quadro para compor a sua chapa.

Diretor-executivo da Educafro, Frei David é outro que questionou a entrada de Célia Sacramento na chapa.

"A Educafro tem plena consciência de que todos os partidos brasileiros estão afastados das grandes pautas da comunidade negra. E é decisão da nossa entidade ter pessoas negras em todos os partidos, desde que tenham sensibilidade e capacidade para fazer essas pautas avançarem. No entanto, ela tem que responder para nós se tem força para que a coligação lute a favor do negro, apesar da péssima história do DEM, ou se corre perigo de ser engolida pela política doentia do DEM", disse o educador.

A socióloga Vilma Reis, diretora do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra se disse "perplexa" e que a postura do PV de se aliar ao DEM é "coerente" com a guinada à direita do partido Brasil afora.

Em nota, o Instituto Cultural Steve Biko declarou que "O atual posicionamento político da senhora Célia Sacramento não encontra respaldo nos princípios éticos, filosóficos e políticos que norteiam nossas ações e fizeram do Instituto Cultural Steve Biko uma referência nacional e internacional na promoção do antirracismo e dos direitos humanos".

Biografia

Em 2010, Célia Oliveira de Jesus Sacramento disputou uma vaga na Câmara dos Deputados. Teve 7.674 votos e não se elegeu. Formada em Contabilidade e bacharel em Direito, Célia tem 44 anos e desde os 16 milita em prol da causa negra. Nascida em São Paulo, logo foi morar na Bahia. Ela dá aula de contabilidade em universidades como a Federal da Bahia (Ufba), a Estadual de Feira de Santana (Uefs), Unime e Unijorge.

"Eu sempre ajudei as instituições que me chamaram para prestar assistências contábil e jurídica", disse Célia, que chegou a ser pré-candidata de seu partido na corrida para a prefeitura.

Também pesou na aceitação da aliança a expectativa de assumir Salvador em uma eventual vitória de ACM Neto, e sua provável renúncia ao executivo municipal para se candidatar ao governo do Estado, em 2014. Assim, Célia se tornaria prefeita.

Em maio, o PSDB oficializou apoio ao DEM à revelia do então pré-candidato tucano, o deputado federal e ex-prefeito de Salvador Antônio Imbassahy (1997-2004). A justificativa foi evitar "o erro histórico de 2008" quando ACM Neto e Imbassahy concorreram à prefeitura, pulverizaram o voto da direita e sequer foram ao segundo turno. Há quem conteste tal versão e diga que o tucano foi rifado da disputa para atender a um acordo costurado em São Paulo no qual o DEM apoiará o PSDB. Até agora, Imbassahy não fez movimentos de apoio a ACM Neto.

Ainda nesta quinta-feira, ACM Neto afirmou que ainda conversa com o PTN para a composição da sua chapa. A convenção do DEM vai ser na próxima segunda-feira (18).

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