Advogado de ex-funcionário da Prefeitura de SP vê abuso em operação da polícia

Hussain Aref Saab, ex-diretor do setor de aprovação de prédios da capital, é acusado por ex-diretora de multinacional de receber propina; policiais fazem operação de busca e apreensão

Fábio Matos - iG São Paulo | - Atualizada às

A polícia fez, na manhã desta quinta-feira, uma operação de busca e apreensão na casa do ex-diretor técnico do Departamento de Aprovação das Edificações (Aprov) da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), Hussain Aref Saab, acusado de ter recebido propina para aprovar obras irregulares em shoppings de São Paulo, e recolheu documentos e back-ups de computadores. Reportagem publicada pela "Folha de S.Paulo" traz denúncia da ex-diretora da Brookfield Gestão de Empreendimentos S.A. (BGE), empresa do grupo Brookfield, Daniela Gonzalez, de que teria pago R$ 1,6 milhão em propina para aprovar obras irregulares dos shoppings Pátio Higienópolis e Pátio Paulista a Aref e ao vereador Aurélio Miguel (PR).

Leia mais: 'É o boom imobiliário', diz advogado de servidor que multiplicou patrimônio

Leia também: Funcionário da prefeitura é afastado por Kassab

Para o advogado de Aref, Augusto de Arruda Botelho, a ação policial desta manhã foi um abuso. “Recebo com surpresa e indignação. É uma medida desnecessária e chega a ser desrespeitosa”, afirmou ao iG . “Nós sabíamos desde segunda-feira dessa medida, pesquisando no Fórum Criminal da Barra Funda, e colocamos todos os documentos e o próprio senhor Aref à disposição das autoridades. Houve uma invasão da privacidade dele, que é um senhor de idade e foi acordado hoje às 6h30. A medida é abusiva e ilegal.”

Botelho rechaçou as acusações de Daniela disse que vai mover um processo contra a ex-diretora da BGE. “Essas afirmações são absolutamente inverídicas. Ela será processada criminalmente por nós. O senhor Aref não conhece essa pessoa, nunca teve nenhum contato com ela”, diz.

O advogado do ex-diretor do Aprov também acusou Daniela Gonzalez de tentar obter vantagens da ex-empresa. “Essa senhora move uma ação na Justiça contra o antigo empregador e também responde a inquérito por suspeitas de comportamento indevido. Além de ter feito denúncias mentirosas, é interesseira. Está claro que ela pretende obter alguma vantagem de seu antigo empregador”, afirmou Botelho.

Empresa diz que denúncias são 'infundadas'

Por meio de sua assessoria, a BGE desmentiu as denúncias da ex-funcionária e também faz acusações a Daniele. “A Brookfield Gestão de Empreendimentos S.A. gostaria de reforçar que desconhece os supostos atos de suborno e corrupção para com o poder público divulgados hoje, que decorrem de especulações e denúncias infundadas feitas por uma ex-diretora que, por ter praticado uma série de irregularidades durante sua gestão, está sendo alvo de uma investigação criminal”, diz nota oficial divulgada pela empresa (leia a íntegra ao final desta reportagem).

A BGE informa que, após a demissão de Daniela, em 2010, após ela “ter concedido um aumento de salário a si própria”, teve início uma apuração de “certos atos por ela praticados durante sua gestão, que culminaram na instauração de um inquérito policial”. Ao lado do marido, diz a empresa, Daniela seria suspeita de ter atuado como “laranja” em um esquema ilegal junto a prestadoras de serviço que teriam recebido pagamentos sem terem desempenhado qualquer atividade. Atualmente, diz a nota, o inquérito está sob segredo de Justiça.

Em nota publicada em seu site, o vereador Aurélio Miguel também rechaçou as acusações. “Estou indignado por me ver envolvido em algo que tenho insistentemente combatido desde os meus tempos de atleta: a corrupção. Estão desejando me calar, pois tenho sido uma das raras vozes de oposição ao atual governo municipal de São Paulo. Não irão conseguir”, afirma.

Multiplicação de patrimônio

Em maio deste ano, a "Folha de S.Paulo" noticiou que Aref, ex-integrante da gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD) acumulou, desde 2005, um patrimônio de mais de R$ 50 milhões e possui atualmente 118 imóveis. De acordo com o jornal, Aref comprou 106 imóveis durante o período em que ocupou o cargo na administração municipal. Ele tinha renda mensal declarada de R$ 20 mil, entre rendimentos de aluguéis e salário bruto de R$ 9,4 mil, incluindo a aposentadoria.

Na ocasião, Botelho justificou a evolução patrimonial de seu cliente citando o “boom imobiliário” . “É um ‘boom’ imobiliário não só para ele, mas para todas as pessoas que alugam imóveis. Os aluguéis foram reajustados em todas as capitais de forma exponencial. E o senhor Aref faz exatamente isso, compra imóveis com essa renda, já há muitos anos”, disse ao iG . “Ele ainda teve 11 imóveis recebidos por herança, e dois deles eram terrenos onde estavam construídas cinco casas em cada um. Todos foram locados. Essas locações geram uma renda, que é revertida em imóveis.”

Hussain Aref Saab, de 67 anos, era funcionário de carreira da Prefeitura de São Paulo e se aposentou em 2005. Ele foi assessor da Secretaria de Planejamento durante a gestão do ex-prefeito Celso Pitta (1997-2000) – na ocasião, a pasta era ocupada justamente por Gilberto Kassab. Em 2005, José Serra venceu as eleições municipais na cidade tendo o atual prefeito como vice, e Aref teve seu nome indicado pelo próprio Kassab para a Aprov.

Leia a íntegra da nota da BGE sobre o caso:

“A Brookfield Gestão de Empreendimentos S.A. gostaria de reforçar que desconhece os supostos atos de suborno e corrupção para com o poder público divulgados hoje, que decorrem de especulações e denúncias infundadas feitas por uma ex-diretora que, por ter praticado uma série de irregularidades durante sua gestão, está sendo alvo de uma investigação criminal.

Daniela Gonzalez ingressou na BGE em meados de 2008, tendo permanecido no Grupo até 2010, quando foi demitidano mês de abril, por ter concedido um aumento de salário a si própria. Após a sua demissão, teve início uma apuração de certos atos por ela praticados durante sua gestão, que culminaram na instauração de um inquérito policial para apuração da responsabilidade penal de Daniela Gonzalez, de seu marido Paulo Ricardo Junqueira de Assis, e de outros terceiros que teriam atuado como “laranjas”, em um esquema que inclui a operação de lojas em nossos empreendimentos em condições que não são usuais de mercado e, ainda, empresas prestadoras de serviços que receberam pagamentos sem terem efetivamente desempenhado qualquer atividade. A autoridade policial representou pela quebra de sigilo bancário, fiscal, telefônico e telemático de todos os envolvidos, tendo o Ministério Público opinado favoravelmente. Atualmente o referido inquérito policial se encontra em segredo de justiça.

Daniela Gonzalez move, ainda, uma Reclamação Trabalhista em face da BGE, na tentativa de obter indenização por verbas trabalhistas, supostamente não pagas, e por danos morais. Os pedidos são infundados, tendo a BGE, inclusive, ingressado com uma “Reconvenção” em face de Daniela Gonzalez, de modo a cobrar dela o devido ressarcimento pelas irregularidades praticadas e prejuízos causados.

A BGE sempre manteve uma reputação ilibada em todos os mercados em que atua, desconhecendo supostos atos de suborno e corrupção para com o poder público, e não hesitará em tomar todas as medidas adicionais que se fizerem necessárias em face da Daniela Gonzalez, além daquelas já adotadas, de modo a preservar sua imagem e reputação.”

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