Para ambientalistas, vitória do Veta, Dilma independe de decisão sobre Código

Mobilização tomou conta das redes sociais e popularizou tema antes mais restrito às classes ambientalista e política

Bruna Carvalho, iG São Paulo |

O assunto é complexo, envolve termos técnicos e compreensão jurídica. Mesmo assim, a mobilização contra o novo Código Florestal ganhou força e marcou presença não só nas ruas , mas, principalmente, nas redes sociais. O movimento foi estampado em tirinhas do Maurício de Souza, em placas seguradas por artistas de novela, em postes de avenidas. Com o mote "Veta, Dilma", perfis no Twitter e no Facebook se multiplicaram nos últimos meses pedindo para que a presidenta usasse seu poder contra o projeto aprovado pela Câmara dos Deputados em abril.

TV iG: Camila Pitanga pede para Dilma vetar o Código Florestal

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AE
Manifestantes protestam contra o novo Código Florestal no Parque do Ibirapuera, em SP

A principal página sobre o assunto no Facebook possui mais de 12 mil pessoas "curtindo" - quase o dobro dos usuários que "curtem" a página contrária à construção da usina Belo Monte -, a foto da modelo Gisele Bündchen com a frase: "Veta tudo, Dilma!" foi compartilhada na mesma rede social por quase 2 mil pessoas e o vídeo em que a atriz Camila Pitanga pede diretamente para a presidenta vetar o projeto foi visto por 20,5 mil usuários do YouTube.

Código Florestal: Chico Bento faz apelo: Veta, dona Dirma!

Divulgação
Foto de Gisele Bündchen com a frase: "Veta tudo, Dilma!" foi compartilhada no Facebook por quase 2 mil pessoas
Apesar de não terem conquistado uma vitória plena - a presidenta vetou 12 pontos do projeto, enquanto os ambientalistas queriam o veto total - alguns dos representantes do Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, uma coalizão de 200 organizações que coordena as manifestações, prometem não perder o fôlego e continuar na luta pela preservação das florestas.

E garantem: a força da mobilização já representa uma vitória concreta. "A gente vai dar mais fôlego para uma campanha do Greenpeace que já está na rua, do Desmatamento Zero. Já lançamos uma iniciativa popular que tem mais de 200 mil assinaturas, que trata da questão das florestas, que ficou de fora do Código Florestal", disse Márcio Astrini, um dos porta-vozes do Greenpeace.

O movimento na internet também foi feito por aqueles que não queriam nenhuma modificação ao texto da Câmara. O perfil no Twitter 'Não veta, Dilma' possui 106 seguidores e uma de suas principais diretrizes é: "Não veta, Dilma, ou o preço da comida vai subir." A campanha, que é anônima, também tem um blog.

Tramitação

O vai-e-vém do novo Código Florestal no Congresso começou em 2010. Apresentado por Aldo Rebelo em abril daquele ano, o projeto foi duramente criticado por ambientalistas e por parte da classe política. - tendo como principal porta-voz Marina Silva, que, na época, disputava a Presidência. Entre as medidas estavam a redução das Áreas de Preservação Permanente (APP) e a anistia aos desmatadores.

Mobilização: Governo recebe 2 milhões de assinaturas contra Código Florestal

O projeto de Rebelo foi aprovado no Congresso e seguiu para o Senado Federal. Em dezembro de 2011, o plenário da Casa aprovou um texto substitutivo, de autoria dos senadores Luiz Henrique e Jorge Viana - considerado pelo Planalto a melhor alternativa -, que foi encaminhado para análise da Câmara. Em abril, um terceiro texto, do relator Paulo Piau, - mais próximo da bancada ruralista -, recebeu aprovação da Câmara, seguindo para a sanção presidencial.

Dilma, segundo anunciaram seus ministros, vetou 12 pontos e fez 32 modificações. Entre elas, destacam-se a  recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs). Agora, ela será proporcional ao tamanho da propriedade rural e vale para todos os rios.

Para os de até 10 metros, por exemplo, deve ser recuperada uma área entre 5 metros e 30 metros nas margens. Para rios com largura de mais de 10 metros, a recuperação varia de 5 metros a 100 metros. Também foi derrubada, de acordo com o anúncio, a anistia aos desmatadores.

Pedro Ladeira/AE
Até o último minuto, ambientalistas pediram veto a Dilma. Protesto aconteceu ontem à noite na Praça dos Três Poderes

Mobilização

"(A mobilização do Veta Dilma) começou na definição do texto do Senado. Quando as entidades ambientalistas perceberam que o texto do Senado seria idêntico ao projeto da Câmara, nós já fizemos a avaliação de que a batalha no Congresso estava perdida", afirmou Kenzo Ferreira, responsável pela área de Políticas Públicas do Greenpeace. Para ele, os três projetos apresentados são "ruins", sendo que o texto do Senado tem apenas uma "melhor forma, uma redação melhor". "As alterações entre um texto e outro são mudanças cosméticas", reforçou.

Exclusivo: 'Brasileiros não querem o Código Florestal', diz diretor do Greenpeace

"A discussão de floresta não tem que ser feita com essa faca no pescoço do lado ambiental. Ou você fica com uma proposta muito ruim, ou uma proposta horrível. Essa não é a discussão que a gente quer. A gente não quer discutir o quanto a gente vai deixar de proteger o meio ambiente, se é uma dimensão astronômica, ou se é só bastante", afirmou Astrini, do Greenpeace.

Divulgação
Ao lado da sua turma, Chico Bento faz apelo à presidenta Dilma

Segundo ele, a entidade acompanha a questão do Código Florestal há 12 anos e a mobilização não nasceu com a aprovação do texto de Piau na Câmara dos Deputados. Mas admite que o tema ganhou mais adeptos com a última votação - e o apoio de artistas conhecidos do grande público deu um empurrãozinho nessa popularização do tema. "O artista ajuda a promover a campanha ao se expressar como qualquer outro cidadão."

Entre os artistas que entraram na campanha - como o cineasta Fernando Meirelles, a apresentadora Hebe Camargo e o ator Wagner Moura -, a atriz Camila Pitanga foi uma das mais contundentes . Durante cerimônia oficial, na qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi homenageado por universidades cariocas, ela, a mestre de cerimônias, quebrou o protocolo. Durante sua fala, pediu licença para presidenta da República, que estava presente, e disparou: "Veta, Dilma". E foi aplaudida pelos presentes no evento.

Outra colaboração que virou hit na web, foi o quadrinho em que o personagem Chico Bento, do cartunista Mauricio de Souza, pede para "Dona Dirma" vetar o projeto do Código Florestal , porque “nóis percisa das matas, dos rio, dos pexe...i tá todo mundo achando qui isso vai sê mexido pra pior!". O quadrinho foi publicado pelo próprio autor da Turma da Mônica no Twitter e, em poucos instantes, estava presente em diversas páginas.

As mobilizações através da internet seguem uma tendência mundial , a exemplo do que foi feito nas revoltas dos países árabes e nos protestos contra a situação econômica na Grécia e Espanha. Mas para Ferreira, o "Veta, Dilma!" ganhou essa proporção por conta da pluralidade de forças que apoiaram a iniciativa. Entre as organizações que integram o Comitê estão a CNBB, a OAB e a Via Campesina. "Isso gerou uma liga que na internet virou esse fenômeno. Não é um fenômeno de internet. É um fenômeno social", afirmou.

"O fato de a sociedade brasileira se mobilizar como se mobilizou por poucas vezes nos últimos 30 anos - esse é um resultado concreto. A sociedade está mobilizada, está alerta, está de olhos bastante abertos para o que está acontecendo no Congresso Nacional. Nenhuma medida do governo vai passar em branco. Quem pensava que podia silenciar as leis do Brasil, já percebeu que é impossível", disse Ferreira. "O Veta, Dilma é uma conquista sem precedentes na história da luta ambientalista."

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