Thereza Collor: 'Não sei se tenho gás para política. É perigoso'

Vinte anos depois do impeachment de Collor, a alagoana fala sobre o filho que deve se candidatar este ano: 'É uma novidade para mim'

Nara Alves, iG São Paulo |

Edu Cesar/Fotoarena
A historiadora Thereza Collor, em sua exposição 'Joias do Deserto', na Fiesp
Ela tinha 29 anos quando chamou atenção num tailleur xadrez ao lado do marido, Pedro Collor de Mello, durante uma coletiva de imprensa em meio às denúncias de corrupção que culminaram no impeachment do irmão, o então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Agora com 49 anos, Thereza Collor continua atraindo olhares admirados por onde passa, mas prefere acompanhar de longe os acontecimentos políticos do País.

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Neste ano, no entanto, Thereza Collor terá um forte motivo para voltar à cena política. Seu filho mais velho com Pedro, batizado de Fernando em homenagem ao tio ex-presidente, tem hoje 28 anos. Com o sobrenome do avô materno, o usineiro e deputado federal João Lyra (PSD-AL), Fernando se lançou candidato do PSD a vice-prefeito de Atalaia, município próximo a Maceió, em Alagoas.

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"Não sei se tenho gás para a política. É muito perigoso", desabafa Thereza Collor sobre sua participação na campanha do filho em Atalaia. O receio se justifica. Segundo ela, na época das denúncias contra o presidente Collor, Thereza e sua família receberam ameaças e decidiram se mudar para Miami, nos Estados Unidos, onde moraram por um ano. Regressaram ao Brasil e, um ano depois, Pedro Collor morreu vítima de câncer, em 1994. Há mais de 10 anos Thereza é casada com o empresário Gustavo Halbreich.

"Meu filho se interessar por política é uma novidade para mim. Ele trabalha com meu pai na parte de comunicação da empresa. Política não seria minha primeira opção", lamenta. Para alento da mãe, o filho mais novo de Thereza e Pedro, Victor Collor, de 25 anos, optou pela fotografia e vive na capital paulista.

A campanha eleitoral acabou reeditando a briga da família Collor de 20 anos atrás. Isso porque o filho de Thereza enfrenta nas urnas Rodrigo Vigário, candidato do PTB, partido do tio, hoje senador por Alagoas. “Ele ( o senador Fernando Collor ) não apoia ( o sobrinho Fernando Lyra ) porque eles estão em partidos opostos. Pode acreditar. Essa família tem cada uma...”, diz.

“Ele (o senador Fernando Collor) não apoia (o sobrinho Fernando Lyra) porque eles estão em partidos opostos. Pode acreditar. Essa família tem cada uma...”

Morando com o marido em São Paulo, a alagoana conta que vai todo mês para Alagoas, onde tem uma fazenda. A historiadora, contudo, procura não se envolver com questões da política local em Maceió e região, onde seu pai, com quem fala muito pouco, é bastante influente. “Trabalho por Alagoas porque gosto de lá. Fiz muita coisa na Secretaria de Turismo, mesmo depois que saí de lá. Mas o meu partido é o Estado", afirma.

Edu Cesar/Fotoarena
Thereza mostra as peças que trouxe de viagens a regiões desérticas

Política no deserto

Dona de uma coleção de 2 mil peças entre brincos, colares, braceletes e outros adornos antigos produzidos em regiões desérticas do Oriente, Ásia e África, a historiadora Thereza Collor exibe seu acervo na exposição “Joias do Deserto” , em cartaz na capital paulista até o dia 10 de junho. O assunto, ao contrário da política nacional, lhe desperta verdadeira paixão. E suas posições sobre a conduta de líderes internacionais demonstram em grande medida seu sentimento com relação às mudanças que julga necessárias no Brasil.

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Ao falar sobre a primavera árabe , "que virou verão, outono e inverno", Thereza Collor observa como os regimes ditatoriais acabaram com qualquer tipo de organização de forças políticas partidárias. Os líderes  que antes comandavam os países árabes dominavam a população pela força e por meio da corrupção. "Na Líbia, para se manter no poder, a família ( Muamar Kadafi ) se armou pela força. Eles investiram no controle pela força em detrimento do bem estar social. Na Síria, é uma corrupção louca. O irmão controla isso, o primo aquilo. E você deixa de pensar no país para se perpetuar no poder”, considera.

Na Síria, é uma corrupção louca. O irmão controla isso, o primo aquilo. E você deixa de pensar no país para se perpetuar no poder”

“No Nordeste do Brasil tem isso também. As pessoas querem se perpetuar e adotam esse tipo de postura”, diz, sem citar nomes. "Aqui temos muitos partidos, muitos políticos e pouca eficiência", completa.

Thereza compara a situação dos ditadores com líderes que têm legitimidade. “Um sultão, por exemplo, não fica com essa história de roubar porque sabe que não precisa se reeleger. A rainha Elizabeth não precisa ficar comprando os súditos para votarem nela. Eu não sou a favor da monarquia, mas é um poder legítimo, que não precisa da força ou da corrupção”.

Thereza Collor critica também a postura do brasileiro. “As pessoas aqui não têm memória”, afirma. Os eleitores alagoanos podem não ter se lembrado do impeachment de Collor ao elegê-lo senador, mas certamente se lembram de Thereza. E na maioria das vezes com admiração".

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Ela conta que um dia chegou à sua exposição na Fiesp, na avenida Paulista, com uma mala cheia de livros e não tinha como voltar para casa. Nesta situação, foi abordada por uma senhora de mais de 80 anos e a filha. As duas agradeceram Thereza pela exposição. Na conversa, trocaram informações sobre onde moravam.

“Quando elas disseram que moravam no mesmo bairro que eu, pedi uma carona. Desci a escada todinha com a mala de chumbo na mão, atravessei a Paulista, cruzei toda a quadra e, quando chegamos no estacionamento, vi que o carro era uma Saveiro”, conta. Como na caminhonete Saveiro cabem apenas duas pessoas, o motorista e um passageiro, Thereza se ofereceu para pegar um táxi, mas as admiradoras não concordaram. A filha, então, colocou a mãe no táxi e fez questão de levar Thereza Collor até sua casa. "Algumas pessoas quando me veem ficam emocionadas", diz.

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