Piloto do Morcego Negro vira cozinheiro em praia badalada de Maceió

Vinte anos depois, o hoje chef de cozinha Jorge Bandeira de Melo serve em seu restaurante o “filé do presidente”, em homenagem a Collor

Ricardo Galhardo, enviado a Maceió |

Mais pretensioso do que propriamente sofisticado, o restaurante Le Corbu, localizado a duas quadras da disputada praia de Ponta Verde, em Maceió, possui um cardápio pomposo com descrição tão detalhada dos pratos que, em alguns casos, chega a informar a temperatura usada na preparação. Entre diversos títulos em idioma francês chama a atenção o “filé do presidente”, que leva filé mignon, espaguete, cebola, manteiga e molho de soja.

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O prato nem de longe está entre os mais pedidos da casa, especializada em culinária tradicional francesa com um toque nordestino, mas se mantém no cardápio por outro motivo: a receita é do senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), frequentador assíduo e grande amigo do proprietário do Le Corbu, o chef Jorge Bandeira, mais conhecido fora dos meios gastronômicos alagoanos como Jorge Bandeira de Melo, ex-sócio de Paulo César Farias, piloto do Morcego Negro, jatinho que simbolizou a corrupção no governo Collor, e que conduziu PC em sua fuga que começou no interior de Pernambuco em julho de 1993 e terminou em Bangcoc, na Tailândia, cinco meses depois.

O Globo
O piloto Jorge Bandeira de Melo ajudou PC Farias a fugir do Brasil para a Argentina, onde estudou gastronomia. Virou chef e hoje é dono de um restaurante em Maceió

Desde 1997, Bandeira de Mello trocou as aeronaves pelo fogão, atividade que exerceu antes do governo Collor em um restaurante e em uma empresa que fornecia comida para companhias aéreas.

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No Le Corbu (homenagem ao arquiteto suíço Le Corbusier), Collor ainda é tratado como presidente por garçons, funcionários e boa parte dos frequentadores, na maioria integrantes da elite política e financeira alagoana.

Ricardo Galhardo/iG
O Le Corbu serve, entre diversos títulos em francês, o “filé do presidente”, em homenagem a Collor
No Le Corbu, cadeiras do designer holandês Mies Van Der Rohe convivem com uma TV de plasma que transmite o último capítulo da novela “Avenida Brasil”. O discutível hábito de cheirar a rolha do vinho ainda é uma praxe.

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Ali o impeachment que o afastou da presidência em 1992 não existiu. O assunto é tabu e quando mencionado é de maneira distinta do restante do País, numa versão em que Collor é a vítima do sistema político nacional.

Nos dias mais movimentados, Bandeira comanda pessoalmente as panelas e faz a ronda pelas mesas para checar se tudo está nos conformes. De acordo com pessoas que frequentam o restaurante, ele apresenta ótima forma física e excelente humor, longe da arrogância que marcou os tempos da República de Alagoas.

“Jorge criou um refúgio, uma espécie de vale dos dinossauros onde o tempo parou em 1991. Mas sem dúvida aprendeu as lições de todo aquele processo. Hoje ele é mais pé no chão. Sabe que quanto mais alto você chegar, maior será a queda”, disse um amigo que preferiu manter o nome em sigilo.

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