“Militares são cocorocas”, diz ex-prisioneira política

Nessa entrevista ao iG, a aposentada Ieda Seixas questiona: "qual o medo dos militares, se eles dizem que não houve tortura"?

Wilson Lima, iG Brasília |

Contemporânea da presidenta Dilma Rousseff durante a ditadura, a professora aposentada Ieda Akselurd Seixas foi presa, torturada e estuprada por militares no início dos anos de 1970. Praticamente toda a sua família sofreu com a repressão imposta pelo regime: o pai, Joaquim Alencar de Seixas, foi executado pelos militares; a mãe, Fani Akselrud de Seixas e dois irmãos também foram levados para os porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e torturados. Apenas o irmão caçula escapou. “Ele tinha 10 anos”, lembra.

A instalação da Comissão da Verdade para Ieda tornou-se uma questão de honra. Não para punir os crimes dos militares. Mas para mostrar ao Brasil histórias como a dela e de outras pessoas. Sobrevivente do regime militar, ela afirma que foi uma felizarda por ainda estar viva. Nessa entrevista ao iG , ela fala sobre o seu sentimento após a nomeação da Comissão da Verdade, questiona o medo dos militares e dá um recado aos jovens defensores do regime militar. “O cara não tem um cérebro, tem uma noz”.

iG - O que a senhora achou da Comissão da Verdade? O sentimento, para quem foi preso político, é “agora vamos mostrar que sofremos para o Brasil inteiro”?
Ieda Akselurd Seixas - Não necessariamente. A Comissão da Verdade vai mostrar para as gerações que vieram depois de mim essa parte da história. Mas uma história baseada na verdade. Eu não vou esperar punição. Eu quero mais é que esses torturadores morram de podre. Eu não tenho medo deles, mas não quero vê-los na minha frente.

iG – A senhora acha que a Comissão da Verdade chegou meio tarde?
Seixas – Pois é... Quantos anos temos de democracia? Pouco tempo. Pra mim a primeira eleição direta foi a do Collor. Pra mim eleição indireta continua sendo ditadura. E você já viu um incêndio? Pra juntar os pedaços não é uma coisa tá rápida. A eleição de Fernando Henrique, de Lula, de Dilma... A ditadura durou mais de 20 anos. Se você contar, na prática, tivemos pouco tempo de democracia. A Comissão da Verdade nessas alturas veio dentro do que é possível.

iG – E em relação à reclamação dos militares quanto aos trabalhos da Comissão?
Seixas – Bando de ‘cocoroca’ (velho, caduco). Eu não estou nem preocupada se eles estão interessados. Por quê eles tem medo se dizem que não tem tortura? Ele dizem que não houve tortura e por qual motivo estão com medo?

iG – Também há uma polêmica sobre as investigações dos crimes da esquerda...
Seixas – Olha, nós éramos infratores, e quais crimes nós cometemos? Todos nós da esquerda fomos torturados e cumprimos pena. Se nós cometemos crime, nós já pagamos a nossa parte... Ou não? Todo mundo que foi preso, mesmo depois da anistia, saiu por questões jurídicas. Não pela lei da anistia.

iG – Hoje, vários jovens com cerca de 20 anos, no máximo 30 anos, defendem o regime militar porque ele teria afastado a “ameaça comunista” do Brasil. Inclusive nas redes sociais. O que a senhora acha desse tipo de pensamento?
Seixas – Eu acho o seguinte. Tem que dizer para ‘esses carinhas’ que se alguém roubar o carrinho deles, eles pedem pena de morte para o ladrão, não é isso? O carro é a coisa mais importante. Para essa moçada não tem comentário. O cara não tem um cérebro, tem uma noz no lugar do cérebro. Então não conta. Pra você falar essa besteira agora é porque gente como eu brigou. Se fosse a ditatura, hoje, ele estaria caladinho. Na época, ele não podia sair na rua sem a carteira de trabalho que você era preso. Levado aos costumes. Às vezes, você estava desempregado simplesmente.

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