Chico Macena (PT) afirma que ex-funcionário da prefeitura já era alvo de denúncias; Marco Aurélio Cunha (PSD) defende investigação e destaca bom funcionamento da Corregedoria

O líder do PT na Câmara Municipal de São Paulo, vereador Chico Macena, afirmou nesta terça-feira que o ex-diretor técnico do Departamento de Aprovação das Edificações (Aprov) da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), Hussain Aref Saab, afastado do cargo desde abril em meio a suspeitas sobre sua grande evolução patrimonial durante o período em que fez parte da gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), deve explicações. E criticou o prefeito por supostamente ter demorado a agir no caso envolvendo o ex-funcionário de sua gestão.

Leia mais: É o 'boom' imobiliário, diz advogado de servidor de SP que multiplicou patrimônio

Leia também: Funcionário da prefeitura multiplica patrimônio e é afastado por Kassab

De acordo com a Folha de S.Paulo, Aref acumulou, desde 2005, quando assumiu o Aprov, um patrimônio de mais de R$ 50 milhões e possui atualmente 118 imóveis. O ex-funcionário da gestão municipal teria comprado 106 imóveis em apenas sete anos, justamente durante o período em que esteve no cargo. Ele possuía renda mensal declarada de R$ 20 mil, entre rendimentos de aluguéis e salário de bruto de R$ 9,4 mil, incluindo a aposentadoria.

Em entrevista ao iG , o líder do PT na Câmara dos Vereadores defendeu uma ampla investigação sobre Aref. “Ele é um ótimo comerciante”, ironizou o petista. “É um episódio da mais alta gravidade que a imprensa está estampando. A prefeitura tem que se explicar e apurar o que ocorreu. Porque não é algo normal. Mesmo que ele diga que teve um ‘boom’ imobiliário... Ou ele é absolutamente acima da média de todos os compradores de São Paulo ou algo tem que ser esclarecido.”

Também ao iG , na última segunda-feira, o advogado de Aref, Augusto de Arruda Botelho, atribuiu o salto patrimonial de seu cliente à grande valorização no preço dos imóveis em São Paulo nos últimos anos . “É um ‘boom’ imobiliário não só para ele, mas para todas as pessoas que alugam imóveis. Os aluguéis foram reajustados em todas as capitais de forma exponencial. E o senhor Aref faz exatamente isso, compra imóveis com essa renda, já há muitos anos”, disse Botelho.

Saiba mais: Kassab diz que afastou funcionário por recomendação da Corregedoria

Macena lembra que já existem requerimentos que pedem explicações de Aref na Câmara, tanto na Comissão de Finanças quanto na de Constituição e Justiça. E critica Kassab, que, em sua visão, demorou muito para agir no caso. “Pelo que eu sei, (Kassab) demorou. Já faz alguns meses que apareceram outras denúncias, antigas, lá atrás”, disse o líder do PT. “Se alguém cometeu alguma irregularidade ou algum ato de improbidade, o mais correto não é pedir para ele sair, mas usar todos os instrumentos da prefeitura, e ela os tem, para exonerá-lo.”

Por meio de sua assessoria, a prefeitura de São Paulo disse ao iG que não comentaria as declarações do vereador do PT, mas reiterou que o prefeito agiu logo que recebeu uma denúncia anônima contra Aref, em fevereiro deste ano. Em abril, o funcionário deixou a prefeitura após decisão da Corregedoria Geral do Município (CGM) de abrir investigação. Na última segunda, a assessoria de Kassab havia confirmado ao iG que foi Aref quem pediu para ser exonerado, mas que isso foi feito após uma solicitação da própria gestão municipal. O ex-diretor do Aprov teria sido “compelido a pedir exoneração” depois de a CGM ter decidido abrir investigação contra Aref.

Gilberto Kassab (PSD) diz que ex-funcionário da prefeitura foi afastado assim que Corregedoria Geral do Município abriu investigação
Nilton Fukuda/AE
Gilberto Kassab (PSD) diz que ex-funcionário da prefeitura foi afastado assim que Corregedoria Geral do Município abriu investigação

“Já temos os requerimentos na Câmara. Vamos discutir isso com a bancada, ver em que pé estão essas requisições”, afirma Macena. “Ele deve explicações para a cidade e tem que esclarecer o que ocorreu.”

Base aliada

Se a oposição critica Kassab por supostamente ter demorado a afastar Hussain Aref Saab, o vereador Marco Aurélio Cunha (PSD), integrante da base aliada ao prefeito na Câmara Municipal, diz exatamente o contrário e elogia o bom funcionamento dos órgãos de fiscalização da prefeitura. “A denúncia foi feita pela própria Corregedoria, e eu acho isso absolutamente saudável. É um sinal de que a Corregedoria funciona. Esse é o primeiro ponto positivo dentro de uma coisa realmente negativa”, disse Cunha ao iG . “O prefeito Kassab identificou, tirou a pessoa e está aguardando as investigações. Lamento muito que isso tenha ocorrido, mas na gestão de uma cidade do tamanho de São Paulo essas coisas lamentavelmente podem acontecer.”

Marco Aurélio Cunha fez questão de manifestar sua posição favorável às investigações sobre a evolução patrimonial suspeita de Aref, mas entende que elas devem ser feitas no âmbito da CGM e do Ministério Público Estadual (MPE), que deve abrir inquérito civil para investigar o ex-funcionário da prefeitura ainda nesta terça-feira.

“As medidas tomadas são necessárias e corretas. Lamento muito que, no seio do governo, tenha existido esse tipo de situação. Merece investigação, sem dúvida, e isso já está acontecendo”, diz o vereador do PSD. “Nesse processo eleitoral, vão existir denúncias corretas e também vazias. O processo eleitoral leva a isso. A Corregedoria, tendo aberto o processo, além das investigações do Ministério Público, me parecem suficientes. E deixo claro mais uma vez: entendo que merece toda a investigação e toda a punição necessária, se for o caso.”

Desde a última segunda-feira, a reportagem do iG vem tentando entrar em contato com o vereador Roberto Trípoli (PV), líder do governo, mas ele não foi localizado até o momento. O vereador José Police Neto (PSD), na condição de presidente da Câmara Municipal, preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Hussain Aref Saab, de 67 anos, era funcionário de carreira da prefeitura de São Paulo e se aposentou em 2005. Ele foi assessor da Secretaria de Planejamento durante a gestão do ex-prefeito Celso Pitta (1997-2000) – na ocasião, a pasta era ocupada justamente por Gilberto Kassab. Em 2005, José Serra (PSDB) venceu as eleições municipais na cidade tendo o atual prefeito como vice, e Aref teve seu nome indicado pelo próprio Kassab para o Aprov.  

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.