Acusado de torturar Dilma é alvo de manifestação no Guarujá

Jovens e ex-presos políticos protestaram em frente ao prédio de Maurício Lopes Lima, acusado de ter participado da morte de seis pessoas na ditadura

Bruna Carvalho, iG São Paulo |

Cerca de cem manifestantes realizaram na manhã desta segunda-feira um ato no Guarujá, litoral paulista, em frente ao prédio onde mora Maurício Lopes Lima , militar aposentado acusado pelo Ministério Público Federal de participar da morte de seis presos políticos e torturar outras 20 pessoas, entre elas a presidenta Dilma Rousseff , durante o período da ditadura militar (1964 - 1985).

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Paulo Rodrigo Iannone/Divulgação
Levante Popular da Juventude organizou o escracho no Guarujá, litoral paulista

Munidos de cartazes e faixas, os integrantes do grupo Levante Popular da Juventude e ex-presos políticos se uniram em coro para expôr à população local os crimes pelos quais Lima é acusado de ter cometido quando chefiava as equipes de investigação na Operação Bandeirantes (Oban) e no DOI-Codi, em São Paulo.

"Nós estamos aqui para denunciar um torturador, que sob a aparência de um senhor aposentado se esconde um monstro que torturou companheiros, políticos e estudantes. Nós viemos alertar seus vizinhos e a população geral que nós não vamos nos esquecer dos fascínoras que mataram nosso povo", afirmou Edmilson Costa, do PCB, presente no evento.

Esse tipo de ato, denominado escracho, é inspirado em movimentos semelhantes que ocorreram na Argentina e no Chile, e visa à desmoralização pública de agentes de repressão, uma vez que, juridicamente, eles não foram punidos. A não punição dos crimes da ditadura tem como base a Lei da Anistia, que perdoou os crimes cometidos entre 1961 e 1979 e foi validada pelo Supremo Tribunal Federal, em 2010. No entanto, a ONU (Organização das Nações Unidas) quer que o Estado brasileiro trabalhe para punir oficiais que praticaram tortura.

Maurício Lopes Lima é acusado de ser o torturador da atual presidenta que, na época, foi presa por integrar a organização VAR-Palmares, e de ter participado da morte de Vírgilio Gomes da Silva, o "Jonas" da ALN, organização de esquerda que defendia a luta armada.

Após escrever com letras vermelhas em frente à fachada do prédio, localizado nas Astúrias, "Aqui mora um torturador da ditadura" - letras que logo foram diluídas na calçada devido à chuva -, o grupo de jovens fez uma série de cenas, simulando sessões de tortura com choques elétricos, pau-de-arara e afogamento.

O som da bateria e dos coros chamaram a atenção das crianças de uma escola localizada em frente ao prédio do militar aposentado. Gritando "justiça, justiça, justiça", elas se amontoaram nas janelas das salas de aula para assistirem ao ato. Uma senhora, moradora do prédio há 30 anos, também chegou mais perto do portão da entrada. Ela disse que Lima vive sozinho e é seu vizinho há anos. "Eu sabia o que ele fez. Mas deviam ter prendido ele na época. Agora? Agora já passaram muitos anos", disse ela, que não quis se identificar por temer sofrer alguma represália do militar.

Arthur Muniz, morador da região, desconhecia a existência de Maurício Lopes Lima e sua história. "Eu acho que a manifestação é válida para que vizinhos saibam que tem alguém aqui que participou da ditadura como torturador. É lamentável nos dias de hoje que alguém assim continue solto, que uma pessoa dessa continue impune", afirmou.

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Maurício Lopes Lima é alvo de escracho em frente ao seu prédio, no Guarujá
Segundo um funcionário do prédio, Lima estava em sua casa no momento do ato, mas não atendeu o interfone.

Comissão da Verdade

Na última quarta-feira, a presidenta Dilma nomeou os integrantes da Comissão da Verdade, que será instalada oficialmente em 16 de maio . Sua função será apurar as violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil entre 1946 e 1988. De acordo com o texto sancionado, a comissão tem o objetivo de esclarecer os fatos e não terá caráter punitivo.

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Presente na manifestação, a ex-presa política Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha, disse esperar que a comissão tenha liberdade necessária para investigar os crimes cometidos na ditadura militar.

"O problema da comissão é a limitação. Foi instalada tardiamente e vem com muita fragilidade. Muito burocraticamente impedida de fazer um trabalho de investigação", disse. "(A comissão) tem que ter liberdade de investigar até as últimas consequências para apurar todas as circunstâncias, todos os agentes, o envolvimento deles, as ações criminosas, de sequestro, estupro, assassinato, desaparecimento de corpos."

Após realizar o ato em frente ao prédio, os manfiestantes deram a volta no quarteirão, entregando panfletos aos moradores para explicar a história de Maurício Lopes Lima. "O torturador mora ao lado e você nem sabia...", diz o texto.

A estudante de Artês Cênicas Lira Alli, 23 anos, integrante do Levante Popular da Juventude disse que o grupo planeja outras ações semelhantes a de hoje. "Essa luta não acaba com a Comissão da Verdade. Ela vai muito além. Nós seguiremos expondo esses crimes para a população, porque quando a população souber das atrocidades (cometidas no regime) vai querer que a Justiça seja feita", disse. Segundo Lira, hoje aconteceram, ao mesmo tempo, atos em 14 Estados do País. 

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