“Minha esposa acha que fiz mal em aceitar convite”

Integrante da Comissão da Verdade, José Paulo Cavalcanti Filho afirma que investigações não serão contra nada ou ninguém

Wilson Lima, iG Brasília |

José Cruz/ABr 2004
José Paulo Cavalcanti em audiência com o ex-ministro Gilberto Gil em 2004
Ex-advogado de presos políticos e hoje escritor de renome internacional, José Paulo Cavalcanti Filho, disse que ficou surpreso com sua indicação para integrar a Comissão da Verdade, anunciada na noite de quinta-feira (10) pela presidenta Dilma Rousseff (PT). Mas a primeira resistência veio justamente de sua esposa (Maria Lecticia). Ela classificou como “ruim” a proposta porque acabaria com a tranquilidade do casal.

Nesta entrevista ao iG , Filho afirma que pretende “sepultar” dúvidas referentes a regime militar para que o país consiga, definitivamente, “virar essa página”. Ele admite que nem todos os casos de desaparecidos políticos serão investigados mas ressalta que as investigações não serão “contra ninguém, nem contra nada”, refutando a acusação de militares segundo os quais a Comissão da Verdade teria um caráter revanchista.

iG - Qual é a sua expectativa para os trabalhos da Comissão da Verdade?
José Paulo Cavalcanti Filho - Vamos conversar na quarta-feira para saber o que vamos fazer. Eu sei o caminho para dar errado: é cada um sair impondo sua opinião pessoal. A gente tem que buscar consenso. A coisa mais sensata é aproveitar a enorme força social que transparece em comissões da verdade que estão começando a funcionar em todo o lugar. Pernambuco acaba de criar a sua Comissão da Verdade. A primeira coisa que vou fazer é pedir para eles para nós trabalharmos em conjunto.

iG - Mas a Comissão tem limites e até que ponto vão as investigações?
Filho - Os limites já estão dados na lei que foi votada no Congresso Nacional. É apurar a verdade e ponto final. Você não pode pressionar por limites da lei da anistia, não pode pretender levar ninguém aos tribunais. Não é nada disso. É só contar a história do Brasil. Eu tinha uma amiga que era mãe de um dos desaparecidos (políticos). E uma vez ela resolveu fazer uma missa em honra a alma de seu filho. Eu perguntei por qual motivo. Ela me disse uma frase que ficou marcada. ‘Quando morre um filho da gente, por acidente ou doença, ele morre 100%. Mas quando é desparecido, ele só morre 99,99%. Fica 0,01% de chance no coração achando que ele pode voltar. Então eu quero sepultar isso. É ajudar a enterrar essa história e virar essa página. Ninguém constrói um país olhando para trás; só se constrói um país olhando para frente. Mas, por outro lado, o país tem direito a verdade. É uma visão muito tranquila. Eu pelo menos chego com uma visão muito tranquila com a esperança de desenvolver um trabalho que eu me orgulhe depois.

iG - Será que haverá tempo para apurar todos os casos de desaparecidos políticos?
Filho - Eu não sei se vamos ter chance de apurar todos os casos, mas é razoável esperar que boa parte deles nós possamos dar essa resposta. De qualquer forma vamos fazer isso com espírito público, sem nenhum interesse. Minha mulher, por exemplo, acha que fiz mal em aceitar (o convite). Espero que ela esteja errada.

iG - O que sua esposa falou para o senhor após o convite?
Filho - Eu perguntei pra ela ‘o que você acha?’. Ela disse que achava ruim. A vida está tão tranquila. Nós estamos aproveitando a velhice. Meu livro (Fernando Pessoa- Uma autobiografia) ganhou o prêmio da Bienal de Brasília, lancei ele há 15 dias em Portugal e é o livro mais vendido por lá. Aí ela disse, ‘a vida tá tão boazinha’. Mas eu não poderia faltar a esse compromisso. Não tem jeito. Não tem jeito.

iG - Mas a ideia mesmo é dirimir todas as dúvidas referentes ao regime militar...
Filho - Nós estamos queremos apurar a verdade, mais nada. Não é contra ninguém, nem contra nada. Queremos saber a verdade e fechar esse pedaço da história de vez em direção ao futuro.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG