‘Memórias de uma Guerra Suja’: veja as revelações sobre crimes da ditadura

iG teve acesso em primeira mão a livro que, com base em relatos de ex-delegado, deve servir de roteiro para a Comissão da Verdade

iG São Paulo |

Cláudio Guerra, ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), lançou bombas por todo o país e participou, em 1981 no Rio de Janeiro, do atentado contra o show do 1º de Maio no Pavilhão do Riocentro . Esteve envolvido no assassinato de aproximadamente uma centena de pessoas durante a ditadura militar.

O livro ‘Memórias de uma Guerra Suja’, escrito com base em relatos de Guerra aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, traz revelações sobre o próprio caso do Riocentro ; o assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten , em 1982; a morte do delegado Fleury ; a aproximação entre o crime organizado e setores militares; e dos nomes de alguns dos financiadores privados das ações do terrorismo de Estado.

Guerra revela, por exemplo, como incinerou os corpos de dez presos políticos numa usina de açúcar no norte do Estado do Rio de Janeiro. Corpos que nunca mais serão encontrados – conforme ele testemunha – de militantes de esquerda que foram torturados barbaramente. Os corpos de David Capistrano, Ana Rosa Kucinski e outros oito opositores da ditadura viraram cinzas.

Agência Porã
Guerra, ex-delegado do Dops, traz revelações sobre a ditadura em 'Memórias de uma Guerra Suja'

O ex-delegado conta ainda que o delegado Sérgio Paranhos Fleury, titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo e símbolo da linha-dura do regime militar, foi assassinado por ordem de um grupo de militares e de policiais rebelados contra o processo de abertura política iniciado pelo ex-presidente Ernesto Geisel. Em depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, Guerra conta ter participado da reunião em que foi decidida a morte de Fleury.

Oswaldo Jurno/AE
Símbolo da linha dura do regime, Sérgio Paranhos Fleury aparece em foto de 1978, em São Paulo

Participei do atentado ao Riocentro (durante as comemorações do Dia do Trabalhador, em 1981) e fiz parte das várias equipes que tentaram provocar aquela que seria a maior tragédia, o grande golpe contra o projeto de abertura democrática”, revela o ex-delegado Cláudio Guerra, do DOPS (Departamento de Operações Políticas e Socias), no livro ‘Memórias de uma guerra suja’. Cláudio Guerra conta que a bomba explodiu por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário por um erro do capitão Wilson Luís Chaves Machado.

Agência O Globo
No Riocentro, bomba explodiu antes da hora do atentado e matou agente de informações do Exército

Os mesmos comandantes do atentado no Riocentro mandaram executar o dono da revista ‘O Cruzeiro’, o jornalista Alexandre Von Baumgarten , em 1982, revela o ex-delegado no livro. Segundo Guerra, ele próprio foi encarregado inicialmente do assassinato. O plano era simular uma morte natural, aplicando em Baumgarten uma injeção com a substância letal. A perícia, combinada, apontaria como causa da morte um infarto comum. Guerra conta que os assasinos de Baumgarten levaram a vítima para alto-mar.

Arquivo Agência Estado
Protesto contra a censura à imprensa e a perseguição de jornalistas, meses antes do AI-5

O ex-delegado do DOPS também revela no livro que se disfarçou de padre para tentar assassinar Leonel Brizola, fundador do PDT e um dos líderes da resistência contra a ditadura militar . O disfarce era uma estratégia para responsabilizar a Igreja Católica pelo atentado. Segundo Guerra, a operação foi comandada pelo coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações - SNI) e pelo comandante Antônio Vieira (Centro de Informações da Marinha - Cenimar), os mesmos militares que, segundo ele, estiveram à frente do atentado no Rio Centro. Brizola sofreu uma tentativa de assassinato no Hotel Everest, no Rio de Janeiro, em 18 de janeiro de 1980, quatro meses depois de chegar do exílio. Uma bomba foi deixada na porta do apartamento do líder de esquerda, mas desativada em seguida.

AE
Brizola (5º na foto da esq. para a dir.) aparece ao lado de Tancredo e Montoro em comício das Diretas

O coronel-aviador reformado Juarez de Deus Gomes da Silva e Joseita Brilhante Ustra, mulher do coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, afirmaram ao iG que vão processar o ex-delegado do Dops do Espírito Santo . O ex-policial afirma no livro que ele, os dois coronéis e outros militares tramaram a morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo.

AE
Citado por Guerra no livro, o coronel reformado Ustra promete processar o ex-delegado

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG