Protesto em São Paulo reivindica punição para crimes da ditadura

Ex-presos políticos, parentes de desaparecidos e jovens realizaram ato em frente à sede do antigo DOI-CODI

Bruna Carvalho, iG São Paulo |

Ex-presos políticos e parentes de pessoas que desapareceram durante o período da ditadura militar (1964-1984) se reuniram nesta quinta-feira no Ato pela Memória e Justiça, reivindicando punição para os crimes de tortura ocorridos no Brasil.

Memórias de uma guerra suja:
- 'Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar'
- 'Delegado Fleury foi morto por militares'
- 'Chefes do atentado ao Riocentro mataram Baumgarten '

A manifestação ocorreu em frente à sede do antigo DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão subordinado ao Exército, responsável pela inteligência e repressão do governo durante o regime. Hoje, o prédio, que está localizado na rua Tutóia, no bairro do Paraíso, em São Paulo, abriga o 36º DP.

Carregando placas com fotos dos desaparecidos, os cerca de 60 presentes pediam que a sede do DOI-CODI fosse convertida em um centro cultural, aos moldes do que foi realizado no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde está instalado o Museu da Resistência. Estarrecidos com as novas revelações do livro "Memórias de uma guerra suja", publicadas com exclusividade pelo iG , ex-presos políticos compartilharam relatos ao lado de jovens integrantes de coletivos, como o Levante Popular da Juventude.

"Eu cheguei aqui no dia 4 de abril de 1974 com uma pergunta: onde está meu irmão? Ele está aqui? Ele foi preso no Rio? E essa é a mesma pergunta que eu faço hoje. Onde está Fernando? Ele foi incinerado nessa fazenda? Nessa usina em Campos? Até quando faremos essas perguntas?", afirmou Rosalina Santa Cruz, irmã de Fernando Santa Cruz, que desapareceu em fevereiro de 1974, aos 26 anos.

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Segundo o livro Memórias de uma guerra suja, que ouviu o ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra, Fernando era um dos 10 presos que tiveram seus corpos incinerados em uma usina de açúcar localizada em Campos, no Rio de Janeiro. Além de Santa Cruz, estariam nessa lista David Capistrano, Ana Rosa Kucinski, entre outros.

Segurando uma foto do jornalista Luiz Eduardo Merlino, morto em 1974, Angela Mendes de Almeida, sua então companheira, destacou que a luta para a punição aos crimes de tortura não é uma questão que se refere apenas ao passado. "A impunidade desses torturadores é a causa da brutal violência da polícia hoje. Mata e continua torturando para obter informações", disse.

A versão oficial divulgada na época conta que Merlino, preso em julho de 1974, teria se suicidado, jogando-se embaixo de um caminhão na BR-116, na altura de Jacupiranga, em São Paulo, enquanto estava sendo transferido para o Rio Grande do Sul. De acordo com o relato de testemunhas, entretanto, o jornalista de 23 anos foi torturado por 24 horas e preso em uma cela solitária. Com as pernas gangrenadas e sem receber atendimento médico, veio a falecer.

Comissão da Verdade:
- Entenda como funcionará comissão
- Nomes de integrantes ainda não foram escolhidos

Os participantes do ato eram unânimes em reivindicar que se comecem, o quanto antes, os trabalhos da Comissão da Verdade, instituída há seis meses. Criada em 18 de novembro, por meio da lei 12.528, a comissão precisa ter seus sete membros indicados pela presidenta Dilma Rousseff para dar início as investigações. Seu objetivo é esclarecer "as graves violações dos direitos humanos" praticadas durante o regime militar.

Ela tem dois anos para produzir um relatório contendo o resultado das apurações. Todo o acervo elaborado pela comissão será encaminhado para o Arquivo Nacional e integrará o projeto Memórias Reveladas.

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