Especialistas defendem investigações de relatos de ex-delegado

Ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vannuchi, classificou as informações como chocantes

Wilson Lima, iG Brasília |

Futurapress
Ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, classificou como "chocante" revelações de ex-delegado do DOPS

Historiadores e ativistas dos direitos humanos classificaram como chocantes as revelações do ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, no livro “Memórias de uma guerra suja” e defenderam a investigação destes relatos pela Comissão da Verdade, cujos trabalhos devem começar até o final deste mês.

No livro, que acaba de ser publicado pela editora Topbooks, o ex-delegado afirma em depoimento aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto fatos até então inéditos sobre a ditadura militar. Guerra afirma, por exemplo, que o delegado Sérgio Paranhos Fleury – titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo, considerado um símbolo da linha-dura do regime foi assassinado por um grupo de militares revoltados contra a abertura política no Brasil.

O ex-delegado também afirma no livro que militantes de esquerda foram incinerados em uma usina de cana de açúcar localizada no Rio de Janeiro e que os mesmos comandantes que planejaram o atentado do Riocentro foram os responsáveis pela execução do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982. Em outro trecho do livro, Guerra fala de um plano dos militares para matar Brizola e culpar Igreja Católica pelo atentado.

O idealizador da Comissão da Verdade e ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, defendeu a investigação destes fatos novos sobre o regime militar. “São informações bastante chocantes”, classificou Vannuchi. “Mas ainda não mudam aquilo que já sabemos sobre o período”, complementou.

Ainda segundo Vannuchi, o teor das declarações contidas nesse livro pode ser o “empurrão que faltava” para o início dos trabalhos da Comissão da Verdade. “A Comissão da Verdade pode multiplicar depoimentos como esse por 10 ou 50”, projetou. A Comissão foi criada em 18 de novembro do ano passado com o objetivo de “esclarecer as graves violações de direitos humanos” praticadas durante o regime militar. A indicação das pessoas que ficarão responsáveis por essa investigação é responsabilidade da presidenta Dilma Rousseff (PT). A expectativa é que essa indicação ocorra nos próximos dias. Para Vannuchi, Guerra deveria ser chamado a depor na Comissão da Verdade.

AE
Ministra Maria do Rosário disse que é papel da Comissão da Verdade analisar fatos narrados por ex-delegado

A atual ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, disse que o Brasil vive um momento positivo “em que os fatos são amplamente divulgados pelos mais diversos meios”. Ela também defendeu ser “o papel da Comissão da Verdade analisar esse e todos os demais relatos, depoimentos e informações sobre o período em questão”.

A historiadora Maria Aparecida Aquino, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) com mais de 20 anos de estudos sobre a Ditadura Militar, afirmou é necessária uma investigação ampla para cobrir as “lacunas históricas” do período. Ela também declarou que fatos como esses revelados no livro vão ajudar a descobrir detalhes que ainda são desconhecidos no período.

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