Ex-delegado revela em livro que viraram cinzas os corpos de David Capistrano, Ana Rosa Kucinski e outros opositores da ditadura

A ditadura militar brasileira utilizou método da Alemanha nazistas ao incinerar os corpos de pelo menos dez militantes de esquerda na década de 70 . A comparação foi feita por ex-presos políticos e parentes dos militantes incinerados ouvidos pelo iG .

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“Ao longo dos últimos 40 anos buscamos de todas as formas saber o que foi feito de minha irmã e meu cunhado. A busca pelos corpos nunca deu em nada. Soubemos que a ditadura utilizou vários métodos e teve muito cuidado para desaparecer com qualquer vestígio. A versão da incineração é verossímil, é possível, e talvez explique porque nunca conseguimos encontrar. A ditadura fez uma cópia dos nazistas”, disse o jornalista Bernardo Kucinski.

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Ele é irmão de Ana Rosa Kucinski e cunhado de Wilson Silva que, segundo relato do ex-delegado Cláudio Guerra, foram assassinados e incinerados em uma usina no Rio de Janeiro.

Petista histórico e professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, Kucinski lançou recentemente o romance “K.” (Editora Expressão) no qual conta a história de um pai idoso em busca da filha, vítima da repressão.

O ex-delegado dá os nomes dos comandantes da operação, “os mesmos de sempre”:

“Soubemos que eles foram presos e levados para a casa de Petrópolis (um dos piores centros de torturas e assassinatos do regime militar). Os relatos sobre o destino dos corpos são vagos ou incompletos”, afirmou.

Diante das revelações do ex-delegado, a jornalista Rose Nogueira, integrante do grupo Tortura Nunca Mais e ex-presa política, também comparou os métodos da ditadura ao regime nazista.

“Fiquei estarrecida. As informações são aterrorizadoras pois remetem às práticas nazistas”, disse Rose, que foi companheira da presidenta Dilma Rousseff na ala feminina do presídio Tiradentes, em São Paulo.

Ela defende que os proprietários da usina Cambahyba, onde os corpos de pelo menos 10 militantes assassinados teriam sido incinerados , sejam punidos pela Justiça. “Este relato mostra que havia a colaboração de empresários com a ditadura. Empresários que muitas vezes deviam dinheiro ou viviam às custas do governo. Eles devem ser responsabilizados da mesma forma que os militares”, disse ela.

Segundo historiadores, pelo menos 2,6 milhões de judeus foram assassinados e incinerados em fornos nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

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