Prender apontador do bicho é 'enxugar gelo', diz diretor da polícia

Ao iG, Jorge Luiz Xavier confirma ligações da jogatina com Cachoeira e diz que prepara operação para prender ‘cabeças’ em outros Estados

Fred Raposo, iG Brasília |

O diretor-geral da Polícia Civil do Distrito Federal, Jorge Luiz Xavier, classificou de “enxugamento de gelo” a prisão de apontadores que atuam sem fiscalização em plena luz do dia no coração da capital federal, conforme o iG revelou na terça-feira . “Está errado? Está. A polícia deveria reprimir toda a conduta ilegal que tem na cidade? Deveria. Mas isso é impossível”, afirma o diretor, em entrevista exclusiva.

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Pedro Ventura/Agecom-DF
Xavier diz que objetivo é prender bicheiros por lavagem de dinheiro

“É mais eficiente golpear alguém num nível acima. Você limpa a área muito mais rapidamente”. Xavier assumiu o posto em fevereiro, no lugar de Onofre Moraes, flagrado em vídeo fazendo críticas ao governador Agnelo Queiroz (PT). Ele explica que prepara operações para prender os “cabeças” que controlam a jogatina em Brasília.

Xavier sinaliza que um dos prováveis alvos deve ser o empresário de jogos de azar em Goiás Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira . Preso desde fevereiro , Cachoeira é um dos pivôs da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigará sua ligação com parlamentares flagrados em grampos da Polícia Federal.

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“Há notícias que os fomentadores dessas práticas ilegais não são daqui”, conta. “Brasília tem bicheiro, mas não de ponta. Alguém do DF sempre vai descarregar as apostas em outro Estado, seja em Goiás ou no Rio de Janeiro”. Segundo o diretor, no DF não existe um “cabeça”. “Aqui não vai ter bicheiro que mora numa big mansão com 15 seguranças, e que viaja para a Europa três vezes por ano”.

Leia a íntegra da entrevista:

iG: Como pode haver jogo do bicho em frente ao Planalto, Senado e ministérios?

Xavier: A contravenção de jogo de azar tem pena muito pequena, nunca vai resultar em prisão de ninguém. Os apontadores, assim como gerentes de casa de bingo, nunca vão ficar presos, porque a legislação não permite. Há esse processo constante de enxugamento de gelo. Você retira, eles mudam de lugar por uns dias, depois voltam.

iG: O que tem sido feito para mudar este quadro?

Xavier: Quando cheguei, determinei a investigação mais profunda para identificar quem são os verdadeiros operadores e vamos procurar prendê-los por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros crimes que estejam associados (ao jogo). Estes sim, se forem presos, desmobilizam as bancas. É mais eficaz do que retirar das ruas por algumas horas esses apontadores.

iG: Mesmo sendo a ponta da jogatina, o apontador faz um trabalho ilegal.

Xavier: O apontador é empregado do bicheiro. Ele é abordado pela polícia e o dono (do jogo), que é quem efetivamente ganha dinheiro, não corre risco algum. Na década de 80, a juíza Denise Frossard decretou a prisão da cúpula do jogo no Rio e conseguiu mantê-la presa por alguns anos. Ela fez um trabalho de investigação concreto de investigar quem são essas pessoas para depois prendê-las. É o que vou fazer aqui, só que é um trabalho mais demorado do que recolher o apontador e devolvê-lo para a rua horas depois. Mas quando as operações forem deflagradas, e elas serão, os verdadeiros operadores é que vão presos.

iG: Estas operações estão previstas para este semestre?

Xavier: Não falo em prazo, mas acontecerão logo seja possível. Trabalhei por quatro anos na investigação de drogas, e nossas operações eram demoradas. Você mapeava a quadrilha, identificava quem eram os traficantes menores e ia subindo a escala até prender o fornecedor. Cansamos de prender em Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Não sou eu quem vai executar isso, mas já dei as coordenadas, está em andamento. Quando será não posso precisar, mas o foco é prender os cabeças.

iG: Há ligações com bicheiros do Rio de Janeiro ou mesmo de Goiás, como o Carlinhos Cachoeira?

Xavier: Há notícias que os fomentadores dessas práticas ilegais não são daqui. No DF, só teria pessoas de nível intermediário. Se isso se confirmar, como a prática delituosa está sendo executada aqui, a Polícia Civil pode sair e prendê-los em Goiás, no Rio ou onde tiver que prender.

iG: O que o senhor chama de contraventores de nível intermediário?

Xavier: O DF não tem estrutura de sorteio próprio. Não tem um camarada que seja a ponta, que recebe este dinheiro todo. O apontador recebe uma mixaria. O sujeito que recolhe dele e repassa as apostas recebe um pouquinho mais. E a grande fatia fica realmente para os donos. E o bicho não tem tanta rentabilidade quanto o caça-níquel. Há uma simbiose entre jogo do bicho e bingo. Como o dinheiro deles é sujo, eles têm que transferi-lo para terceiras pessoas. Isto é crime, isso é lavagem de dinheiro. Queremos pegá-los pela lavagem de dinheiro.

iG: Brasília não tem bicheiro, então?

Xavier: Tem bicheiro, mas não de ponta. Alguém do DF sempre vai descarregar as apostas em outro Estado, seja em Goiás ou no Rio de Janeiro. Essa estrutura é bastante complexa e perigosa, porque fomenta o enriquecimento de criminosos, a corrupção nas instituições policiais ou nos outros órgãos da administração pública. Acaba tendo ligação com narcotráfico, contrabando, contrato de armas.

iG: Qual o perfil do bicheiro de Brasília?

Xavier: Aqui no DF não existe um cabeça, uma pessoa que você diz: ‘Esse camarada é multimilionário do bicho’. Aqui tem gente que ganha dinheiro sim, bastante razoável. Mas não é o final. Acima desse sujeito sempre vai ter alguém, até por conta da estrutura da polícia. O tráfico aqui não tem um supertraficante. Já prendemos bons traficantes, que tinham R$ 2 milhões ou R$ 3 milhões em patrimônio. Mas quando você fala no traficante carioca, do Mato Grosso ou do Paraguai você tem R$ 50 milhões, R$ 100 milhões, R$ 200 milhões de patrimônio.

iG: Como o senhor avalia o efeito prático da operação Barão de Drummond, que no ano passado prendeu 22 pessoas ligadas ao jogo do bicho?

Xavier: Ninguém ficou preso. Por isso não tenho interesse em fazer isso. Não quero manchete. Se quisesse deflagrar uma operação e pegar aquelas pessoas não seria difícil. Mas ia resolver o quê? No dia seguinte elas vão estar do outro lado da Esplanada. A gente monitora a ação deles, porque é a partir daí que vamos chegar em quem interessa efetivamente. Não temos interesse em fazer pirotecnia.

iG: Mas você ter uma banca do bicho em frente ao Planalto, ao lado do Senado, não é demais?

Xavier: Está errado? Está. A polícia deveria reprimir toda a conduta ilegal que tem na cidade? Deveria. Mas isso é impossível. Considero muito mais eficiente subir um degrau e golpear alguém num nível muito mais acima, que é o que a gente fez aqui com o tráfico. Quando se golpeia alguém de um nível mais alto, você limpa aquela área muito mais rapidamente.

Alan Sampaio / iG Brasília
Banca do jogo do bicho funciona em quiosque de venda de biscoito caseiro em frente ao Palácio do Planalto

iG: Quantas pessoas estão envolvidas no jogo do bicho no DF?

Xavier: O jogo do bicho no DF é muito menor do que no Rio de Janeiro e em outras unidades da federação. Mas é o suficiente para incomodar.

iG: E financeiramente, quanto a jogatina movimenta no DF?

Xavier: Não adianta fazer esse cálculo, porque tem uma cifra negra, que é aquilo que não está registrado, muito grande. Conhecemos o que a polícia apreende, mas tem um volume grande desconhecido. Falar em proporção poderia dar um disparate muito grande. Mas não é nada que seja tão relevante. É o suficiente para incomodar, mas não é o suficiente, por exemplo, para fazer como em outros Estados de se criar estruturas armadas de proteção.

iG: Essas estruturas não existem aqui?

Xavier: Não. Pode ter um bicheiro com um segurança. Isso é normal. Mas não vai ter um bicheiro que mora numa big mansão com dez, 15 seguranças, e que viaja para a Europa três vezes por ano. Não tem ninguém com esse porte. Mas tem criminosos importantes, porque eles se misturam com o bingo. Interessa dizer que há uma combinação entre jogo do bicho e bingo, e daí a pouco entre jogo do bicho, bingo e tráfico de drogas.

iG: Já existe esta relação do jogo ilegal com o tráfico de drogas?

Xavier: Não sei, mas pode ser que a gente chegue nisto. Consideramos esta possibilidade.

iG: O fato de o dinheiro do jogo de Brasília ir para outros Estados tem sido um problema para as investigações?

Xavier: Temos tradição de prender gente fora do DF. É normal que o dinheiro sujo saia daqui. Mas tem essa tradição por conta da repressão às drogas, da delegacia de repressão a roubos e furtos. Estamos acostumados a prender gente de fora daqui, muito mais do que as outras polícias. Mas dificulta porque vai precisar da cooperação das polícias de outros estados, eventualmente, para avançar na investigação. Dificulta mas não impossibilita.

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