Um ano após pacificação, Morro Dona Marta é usado como vitrine do governo

Projeto inédito com Unidade de Polícia Pacificadora expulsou o tráfico, trouxe a ocupação permanente da PM e transformou o lugar

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

O Morro Dona Marta, localizado em Botafogo, na zona sul carioca, está na moda. A comunidade recebeu entre outubro e novembro de 2009 diversas visitas ilustres, entre elas, a cantora Madonna, o cônsul geral dos Estados Unidos, Dennis Hearne, e a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, a sul-africana Navi Pillay. Tantos holofotes para uma favela que já foi comandada por Marcinho VP, um dos traficantes mais procurados do Rio nos anos 90, tem um motivo: a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Instalado em dezembro do ano passado, o projeto inédito expulsou o tráfico, trouxe a ocupação permanente da Polícia Militar e transformou o lugar em vitrine do atual governo estadual na área de segurança pública.

Fabrizia Granatieri
Policiais militares fazem ronda no Santa Marta

Comandada pela capitã Pricilla Azevedo, a UPP conta com 120 policiais que se dividem em quatro turnos. Alguns agentes ficam localizados em pontos estratégicos da favela, enquanto outros fazem rondas "24 horas por dia" pelas ruas estreitas e íngremes do morro. Além da questão da segurança, o projeto para a comunidade trouxe outras melhorias sociais, como construção de casas e creches, saneamento básico, acesso gratuito à internet sem fio, regularização da rede elétrica e a implantação do bondinho que leva os moradores ao topo da comunidade em aproximadamente dez minutos.

Essas mudanças trouxeram duas consequências diretas para a comunidade e seu entorno: a valorização de imóveis, fazendo os aluguéis dobrarem de preço, e a redução do índice de criminalidade. De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), entre novembro de 2007 e novembro de 2008 foram registrados três homicídios no Morro Santa Marta. Entre novembro de 2008 e novembro de 2009, esse número manteve-se zerado. Outras reduções aconteceram no número de assaltos a pedestres (55 registros entre 2007 e 2008 contra 34 entre 2008 e 2009) e roubos de veículos (queda de 25 para 14 casos).

As notícias, no entanto, nem sempre foram somente positivas. Segundo a capitã Pricilla, no início da UPP, uma parcela de moradores do Dona Marta resistiu ao novo projeto. Para ela, a atitude foi compreensível, visto que a população da favela ficou por muitos anos sem conviver com a PM.

"O maior problema que nós encontramos no processo de implantação da UPP foi o comportamento de alguns moradores. Eles tinham a polícia como inimiga. Queriam enfrentar os agentes a troco de nada, de uma cultura que eles nem sabem a origem. Hoje, cerca de 98% dos moradores enxergam que nós só queremos o melhor para eles", avalia ela, que sempre anda armada, com um colete à prova de balas e acompanhada de, no mínimo, um policial portando um fuzil.

Fabrizia Granatieri
Capitã Pricila Azevedo ao lado do menino Alexandre, com a comunidade ao fundo

Apesar da avaliação da comandante, a reportagem do iG teve dificuldades para encontrar quem se pronunciasse a respeito da ocupação policial. Pessoas escolhidas ao acaso se recusaram a comentar a presença da PM. Um morador, que preferiu não se identificar, explicou que a comunidade teme que a ocupação seja passageira como a que ocorreu em 2001, durante o mandato do ex-governador Anthony Garotinho. Na ocasião, a polícia ocupou o morro e tempos depois saiu, deixando o caminho livre para o retorno do tráfico e para as punições dos criminosos aos moradores que tiveram algum tipo de relação com os policiais.

"Ninguém sabe até quando essa segurança irá ficar. De cabeça de político e bunda de nenê a gente pode esperar tudo. As pessoas estão céticas que isso pode ser mudado", relatou o morador. "A situação ainda está normalizando. Somente o tempo irá ajeitar as coisas. Um ano ainda é pouco".

Babilônia e Chapéu Mangueira: boa receptividade

Fabrizia Granatieri
Sede da UPP no alto do Morro da Babilônia

Ao chegar ao Morro da Babilônia, uma das favelas pacificadas pela PM no Rio, a reportagem do iG perguntou a um morador que estava na entrada da comunidade como fazia para chegar à UPP. A resposta, dada de imediato, indicou que a aceitação está sendo mais fácil. "É só seguir o corrimão azul, irmão. Pode entrar e fique tranquilo. Nossa comunidade é pacificada", disse entusiasmado.

Localizado no Leme, zona sul, o Morro da Babilônia divide com o Chapéu Mangueira uma UPP, inaugurada em junho deste ano, a quarta da capital fluminense. "O processo de implantação aqui teve uma grande vantagem em relação às demais favelas porque essa é uma comunidade vizinha ao Santa Marta. Os moradores já aguardavam a presença da PM porque viam o sucesso da pacificação lá", diz o comandante da UPP, capitão Felipe Magalhães. "Houve uma receptividade muito grande. Não existe o tráfico armado na comunidade e a Polícia Militar acabou sendo um ponto de referência do Estado aqui", completa ele, que não anda com escolta e passa pelas ruas das favelas cumprimentando as pessoas pelo nome.

Composta por 100 agentes, que se dividem em quatro turnos, a UPP desenvolve projetos sociais, como aulas de xadrez e violão, para aproximar cada vez mais a polícia dos moradores. A pacificação na comunidade também trouxe a valorização dos imóveis da favela e do entorno e a visita cada vez mais frequente de turistas, entre eles, muitos estrangeiros, que vão desfrutar a vista privilegiada que o morro oferece da orla de Copacabana e conhecer cenários usados nos filmes Tropa de Elite, de José Padilha, e Orfeu Negro, de Marcel Camus.

"As pessoas não precisam se preocupar em vir aqui porque sabem que a polícia está permanente. Também não corremos mais o risco de ter guerra entre facções rivais. Eu durmo tranquilo, como quase todos os moradores", relata o presidente da associação de moradores do Morro da Babilônia, Carlos Antonio Pereira, nascido e criado na favela.

Entre a população, há um consenso de que a questão da segurança foi uma melhora significativa após a ocupação policial. No entanto, eles também concordam que os serviços públicos ainda precisam melhorar. Os morros não estão com a rede elétrica regularizada, não contam com o prometido serviço de internet gratuita sem fio e estão sem o serviço de gari comunitário, suspenso após um problema com a antiga gestão das associações de moradores.

Fabrizia Granatieri
Capitão Felipe em frente a uma parede com a bandeira do Brasil e marcas de tiro

"Falta o governo realizar as ações que prometeu. Não adianta só colocar a PM. A corporação não vai trazer iluminação pública, saúde, abastecimento de água e um projeto de habitação", ressalta Pereira, citando ainda a apreensão da comunidade de que a UPP seja uma política passageira. "Se formos encarar que o governador que está hoje não estará amanhã, nós temos que ficar preocupados".

De acordo com o capitão Felipe Magalhães, as dificuldades de infraestrutura já estão sendo tratadas. Sobre a presença da polícia, ele foi enfático. "O que difere a UPP dos outros projetos que já foram realizados é que desta vez a Polícia Militar veio para ficar. Esse é o principal medo da comunidade: que um dia ela saia", finaliza.


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