Político na internet vai se expor, apanhar, receber críticas e terá de prestar contas, diz Duda Mendonça

O publicitário Duda Mendonça, guru de campanhas eleitorais, reconhece na internet o meio que pode ajudar a criar uma nova política no País. Para ele, a rede transforma a militância e os políticos. ¿Político na internet vai ter que se expor mais. Vai apanhar, vai receber críticas, vai ter que prestar contas das suas atitudes, mas é assim que vai conquistar a confiança e o respeito das pessoas. Como acontece na vida real, porque a internet é a vida real amplificada¿.

Nara Alves, iG São Paulo |

Leia abaixo a íntegra da entrevista de Duda Mendonça ao iG.

iG - O Brasil tem cerca de 64,8 milhões de pessoas com acesso à Internet e o maior crescimento está nas faixas mais pobres da população, segundo o IBGE. Como este cenário afeta as estratégias dos partidos?

Duda Mendonça - Em primeiro lugar, acho que obriga aos partidos e a quem mexe com campanhas a pensar e entender em profundidade a revolução da internet. Pense na mudança que deve ter sido a aparição do rádio que permitiu a um político falar para milhões de pessoas, a quilômetros de distância, instantaneamente. Pense na mudança que foi depois a televisão levando a imagem de um político à sala de cada casa, de falar olho no olho com cada cidadão na intimidade do lar. Essas foram verdadeiras revoluções na comunicação que mudaram não apenas a forma de fazer política, mudaram o mundo, e elas não chegam nem perto do que ainda pode acontecer com a Internet.

iG - Quais são as principais diferenças entre internet e os meios de comunicação tradicionais, como televisão, rádio e impressos?

Duda Mendonça - É a sua natureza democrática. Na TV, por exemplo, alguém cria um conteúdo e milhões de pessoas consomem esse conteúdo. Na Internet, todo mundo tem a possibilidade de criar conteúdos, de fazer rádio, televisão, cinema, jornalismo. E o mais importante: de interagir com outros. Nesse sentido, enquanto a TV é, em grande parte monólogo, a internet é, principalmente, diálogo. Essa é a grande mudança, especialmente para quem é político porque ele vai ter que ouvir, mas do que falar. Na TV, o candidato falava, não precisava nem podia ouvir. Na internet ele vai ter que ouvir. São milhões de pessoas que não apenas se informam, que não apenas dão a sua opinião, mas que todos os dias passam horas formando opinião na rede.

iG - A televisão será relegada a segundo plano?

Duda Mendonça - Você sabia que, em 2008, as horas de navegação à internet na Europa e nos Estados Unidos superaram as horas que as pessoas dedicavam a ver televisão? Isso também vai acontecer no nosso País e muito antes do que pensávamos. De alguma forma, todas essas pessoas estão fazendo política. Opinam, criticam, apóiam, se associam com outras com os mesmos interesses, e podem contagiar e mobilizar a outros milhares. A conversa que antes acontecia só no trabalho, ou no clube, ou no bar ou no bairro onde você morava, ou seja, no nosso pequeno mundo pessoal, agora acontece na web em escala global. E sem sair de casa. O bairro de quem usa Internet é o mundo. É só você entrar num site de notícias e prestar atenção aos comentários das pessoas sobre a realidade política para perceber que existe aí uma nova forma de militância. Já não é uma militância de comitê, partidária, de mobilização, de comício, mas uma militância de opinião. Isso me empolga, sabe?

iG - Como a internet muda a sua atuação como estrategista?

Duda Mendonça - Eu me reconheço uma pessoa de televisão, mas a minha concepção da comunicação eleitoral sempre foi de não impor, de apenas dar bons argumentos para que as pessoas escolham com liberdade. E isso não muda com a internet. Pelo contrário. Em uma democracia de opinião como é a internet, argumento continuará a ser, e cada vez mais, o mais importante. A política e os políticos, a maioria das instituições tradicionais, estão chegando um pouco tarde e deverão adaptar-se a essa nova realidade da internet para aproveitar as oportunidades que ela oferece.

iG - Sobre 2010, está na hora de o Brasil viver a experiência que os EUA viveram nas últimas eleições? 

Duda Mendonça - Não. A TV ainda tem muitos anos pela frente. E certamente ela também vai mudar para sobreviver. Mas é verdade que a TV, em pouco tempo, não terá mais o monopólio da comunicação. Basta ver o comportamento dos jovens. Um dos meus filhos tem 14 anos. E para ele a TV já não é a forma principal de se informar ou se relacionar como foi para a minha geração. Ele é da internet e daqui a pouco está votando. Nos Estados Unidos, essa brecha geracional já é visível. Segundo as pesquisas, as pessoas com mais de 30 anos ainda escolhem a TV como o principal meio para se informar. Enquanto quem tem menos de 30 anos prefere a Internet. No Brasil não conheço pesquisas, mas já dá para perceber que essa mudança será rápida. Você mesma falava, 65 milhões de brasileiros já usam Internet. Quantos anos demoraram a se espalhar desse jeito? Com certeza bem menos que a TV. A quantidade impacta, mas isso não é a coisa mais importante. O que realmente importa é a atitude e o comportamento das pessoas que usam internet. Elas tendem a ser mais atuantes, a dar e formar opinião, a se associar, criar correntes de opinião. Nesse sentido, elas podem tanto destruir uma candidatura como também podem ser uma força que potencie uma candidatura. E sem sair de casa.

iG - A internet será o principal palco das campanhas?

Duda Mendonça - Ainda não dá para fazer campanha só na Internet, mas também seria um erro grave depreciar a Internet. Eu acho que nesse ano vai haver uma mistura: Internet invadindo os programas de TV e TV invadindo a Internet. Vão ter mais debates pela Internet. A própria TV vai chamar a atenção sobre o que acontece na rede com a eleição.

iG - O que os eleitores podem esperar encontrar nos sites de partidos e nas redes sociais (Twitter, Orkut, Facebook) em 2010?

Duda Mendonça - Por enquanto os sites dos partidos são apenas para os militantes ou para os jornalistas. Não tem maior atrativo para os internautas, para as pessoas comuns. A forma, o conceito dos sites partidários deve ser repensado radicalmente ou ficaram apenas como presenças institucionais, quase burocráticas. Não esqueça que a Internet, pela sua natureza, é quase o reino da liberdade pessoal. Você só vai aonde você quer ir. Esse não é apenas um problema para a política. Também para a publicidade comercial. Todo aquilo que interfere com o que você realmente quer ver é chato. Você entra num site de noticias e aparece um pop-up de propaganda e a maioria fica incomodada. De um jeito ou outro é uma interferência. Agora, basta outro internauta, que você nem conhece, fazer correr a bola de que tem alguma coisa interessante para que milhões de pessoas corram atrás. Primeira coisa: não dá para impor nada. Dá para fazer coisas interessantes porque as coisas interessantes interessam.

iG - Qual experiência o senhor já teve com relação a essas novas ferramentas na internet?

Duda Mendonça - Eu estou pensando muito na internet. É um desafio e eu gosto de desafios. De fato, na última eleição, tive um blog e fiquei surpreso com o interesse das pessoas. Foi ótimo. Modéstia à parte acho que fui o primeiro marqueteiro a ter um blog e me abrir a discussões com todo tipo de pessoas, desde estudantes de propaganda até candidatos a vereadores. E assim como eu, acredito que muitos outros profissionais estarão pensando coisas parecidas. Com certeza, na próxima eleição vão ter surpresas, avanços. Já tem vários políticos com perfil no Facebook, no Orkut ou com seguidores no Twitter. É apenas o começo de um novo caminho na forma dos políticos interagirem com as pessoas e isso é bom. Aproxima. Mas também é um compromisso que você assume com essas pessoas. Como disse o Pequeno Príncipe, você é responsável pelo que cativa. Político na Internet vai ter que se expor mais. Vai apanhar, vai receber críticas, vai ter que prestar contas das suas atitudes, mas é assim que vai conquistar a confiança e o respeito das pessoas. Como acontece na vida real, porque a Internet é a vida real amplificada.

iG - O senhor acredita que ferramentas de microfinanciamento pela Internet podem funcionar nas campanhas no Brasil? 

Duda Mendonça - É obvio que um clima de suspeita não favorece a confiança. A minha sensação é que as pessoas tendem mais a contribuir, inclusive com dinheiro, para quem não tem recursos. É a história de Davi e Golias. As pessoas ajudam mais a quem mais precisa e a quem fez alguma coisa para ganhar a sua simpatia e a sua confiança. É o caso do Obama. Ele era o Davi e, ainda assim, abriu mão de receber o financiamento do Estado para fazer a sua campanha e isso, junto com outros fatores, sensibilizou a população americana. Ele fez do limão uma limonada. Aliás, esse tema da Internet e as campanhas aparecem muito por conta da campanha do Obama. Mas é bom lembrar que o uso da Internet na campanha do Obama foi um fenômeno porque Obama conseguiu encarnar um fenômeno social e não o contrário. A ideia de que Obama organizou milhões de pessoas pela Internet é, no mínimo, uma simplificação. Esses milhões de voluntários já existiam, na rua e na web, esperando apenas uma nova liderança que se reconhece a sua existência. Até porque seu adversário com certeza tinha também uma estrutura de internet, mais ou menos eficiente, mas tinha. Ao final, o que acaba prevalecendo é o momento político e a capacidade de uma liderança de aproveitar esse momento político. E claro, um bom marqueteiro e uma boa campanha sempre ajudam.

iG ¿ Qual é o pior adversário nas campanhas?

Duda Mendonça - Sabe qual é o pior adversário que a gente enfrenta quando faz campanha: a falta de interesse na política. Especialmente entre os jovens. Acho a internet um meio fantástico para aproximar à política aos jovens. Entrar em contato com eles de uma forma menos careta. De interagir com eles, de ouvir o que eles têm a dizer.

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