Polícia pacificadora reduz índices de criminalidade na Cidade de Deus

"Ainda tem muita coisa para ser feita. É um trabalho de médio prazo", diz comandante

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Inaugurada em fevereiro deste ano, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, vem mudando aos poucos a realidade desta comunidade mundialmente conhecida graças ao filme do cineasta Fernando Meirelles. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que as taxas de criminalidade na favela vêm caindo e, para a Polícia Militar, essa redução pode ser atribuída ao projeto de pacificação.

BBC
Base da Unidade da Polícia Pacificadora na Cidade de Deus

"Ainda tem muita coisa para ser feita. É um trabalho de médio prazo. Essa comunidade ficou por muito tempo controlada pelo tráfico, aproximadamente 40 anos. O grande avanço da UPP foi a retirada dos elementos armados das ruas e a reconquista do espaço público", avalia o capitão Sidnei Pazini, que comanda a unidade. "O tráfico está agonizando na Cidade de Deus. A nossa meta é extinguir completamente essa atividade ilegal daqui. Quase todos os dias são realizadas prisões".

Segundo o ISP, entre novembro de 2007 e novembro de 2008, foram registrados 34 homicídios na Cidade de Deus. No período entre novembro de 2008 e novembro de 2009 o número caiu para seis. Os dados referentes a roubo de veículos (queda de 68 para 11), assalto a pedestres (redução de 83 para 42) e roubo em ônibus (diminuição de 141 para 41) também são significativos.

De acordo com Pazini, apesar dos avanços obtidos, a presença da PM ainda encontra uma resistência grande na comunidade. Para ele, projetos sociais que estão sendo desenvolvidos - escolinhas de futebol para crianças e ginástica para a terceira idade - vão ajudar a conquistar a confiança dos moradores. O comandante argumenta que a resistência da população ocorre por medo ou por algum tipo de resquício do tráfico, como a presença de olheiros.

"Famílias inteiras trabalhavam em prol do comércio ilegal de drogas, se beneficiavam dele. Existiam dinastias dentro do tráfico. A Cidade de Deus era a grande distribuidora de entorpecentes para a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes. Imagina o quanto eles arrecadavam aqui", explica o comandante, revelando que os criminosos expulsos da comunidade procuraram abrigo em outras áreas do Comando Vermelho, como o Complexo do Alemão, por exemplo. "Foi preferível para eles migrarem para outras regiões do que para novas modalidades de crimes porque isso os deixaria muito expostos", conclui.

Favela do Batam: exemplo

Única comunidade pacificada do Rio que era dominada pela milícia antes da ocupação da Polícia Militar, a Favela do Batam, em Realengo, na zona oeste, convive bem com a UPP dez meses após sua inauguração - ocorrida em fevereiro deste ano. De acordo com o comandante da unidade, capitão Ricardo Ribeiro, cerca de 95% dos moradores aceitam a presença dos PMs.

"A comunidade abraçou e confia na UPP de uma maneira que nós não esperávamos que fosse tão rápido. A gente esperava chegar neste objetivo, mas não era esperado neste curto período", relata otimista.

Divulgação
Policiais da UPP da Favela do Batam promovem festa de natal para as crianças da comunidade

Na Favela do Batam, a polícia também criou ações para aproximar a corporação dos moradores. Entre os projetos montados estão os trabalhos de reforço escolar, horta comunitária e escolinhas de natação e futebol para quase 280 crianças.

"O objetivo dessas ações foi tirar a ociosidade dessas crianças, dar qualidade de vida para elas e mudar a imagem da polícia, fazendo com que as crianças tivessem uma percepção boa e levassem isso para os pais", avalia o comandante.

Para o policial, o risco de ter olheiros da milícia na comunidade é quase nulo. De acordo com a PM, boa parte dos milicianos que ocupavam a favela já está presa. "Esse fato serviu como aviso de que não toleraríamos qualquer prática que tivesse ligação com a milícia. Realizamos diversas operações contra jogos de azar, por exemplo", diz. "Não fazemos um trabalho de enfrentamento e sim de prevenção para evitar a ocorrência de crimes", conta o capitão.


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