Para seguir no topo em 2010, vôlei brasileiro rechaça deslumbre de tempos passados

Atenta aos erros do passado, seleção prega treino, apego à vitória epés-no-chão para manter impecável o retrospecto da era Bernardinho

Aretha Martins, iG São Paulo |


Sete títulos da Liga Mundial, um ouro olímpico, todos os títulos sul-americanos disputados, duas Copas do Mundo, um Pan-Americano e, claro, o bicampeonato mundial no bolso. Eis o saldo da "era Bernardinho" na seleção masculina de vôlei. Para manter o ritmo e a ambição por títulos, o que precisa mudar, até mesmo para faturar em 2010 o tricampeonato mundial? Nada, absolutamente nada.

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Seleção brasileira no pódio de Atenas: mais um ouro na coleção

A cartilha está escrita. E faz tempo. Desde 2001, quando o técnico trocou as meninas pelos homens. Em primeiro lugar, para não cair no erro de gerações passadas, nada de deslumbramento com os resultados. Junte aos "pés-no-chão" um apego descomunal às vitórias e o intenso ritmo de treinos proposto por Bernardinho para entender porque, em 2010, nada mudará na rotina da seleção brasileira, que inicia o ano sonhando com a façanha do tricampeonato mundial.

Quando você nunca ganhou, não sabe como é e pode desanimar. Quando você já ganhou, vê que o gostinho é muito bom e quer repetir sempre, diz o meio-de-rede Rodrigão. Não tem jeito. Não pode parar nunca, sentencia o líbero Serginho. Sem horário para começar ou acabar (o treino)", completa o coro levantador Bruninho, filho do técnico Bernardinho.

Nós viramos ídolos e não tivemos cabeça para lidar com o sucesso. Ninguém conseguiu nos ajudar   Giovane Gávio, sobre Barcelona-92

Apesar das famosas e intensas sessões de treino que já ocorreram até em estacionamento, é consenso que está na cabeça, e não nas cortadas, a senha para a série inédita de vitórias desta década. Calejada pela perda de rumo da geração de prata e da primeira geração de ouro, a era Bernardinho fez dos pés-no-chão sua melhor política para lidar com o sucesso sem perder foco no esporte.

"Ele (Bernardinho) conseguiu colocar na cabeça dos jogadores que não poderiam repetir os mesmos erros das outras gerações, diz o ex-levantador Maurício. Nós viramos ídolos e não tivemos cabeça para lidar com o sucesso. Ninguém conseguiu nos ajudar, sintetiza o hoje técnico Giovane Gávio, que viveu o êxtase de Barcelona-92, a ressaca de Atlanta-96 e Sydney-00 e a reabilitação, já na era Bernardinho, em Atenas-04.

O próprio Bernardinho sabe o preço do estrelato repentino. Reserva de William da campanha da prata em 1984, ele é visto pelos próprios jogadores de atual seleção como peça-chave no processo para o time masculino do Brasil encarar com naturalidade as consequências das vitórias. Isso foi plantado pelo Bernardo durante anos e deve continuar, frisa Rodrigão.

Arquivo pessoal
Barcelona: vôlei masculino venceu, mas não manteve o embalo

Com o deslumbre sob controle e o foco dentro da quadra, Bernardinho também pôde promover uma mescla bem-sucedida de gerações. No início do seu trabalho, veteranos como Giovane e Maurício voltaram. Junto deles, Giba, Ricardinho e Gustavo ganhavam maturidade para dividirem a responsabilidade. Hoje, jovens como Leandro Vissotto e Lucão passaram pelo time de novos e, aos poucos, começaram a atuar com o time principal.

Tem muita pressão em cima da gente pelo histórico do Brasil. Claro que 2009 foi apenas um ano e dificuldades ainda estão por vir, mas a gente já mostrou que tem condições de estar lá em cima, afirma Éder, outro novato empolgado com a mentalidade vencedora que impera na equipe.

E, após mais de oito anos à frente da seleção, Bernardinho sabe muito bem como e quando exigir mais de seus comandados, seja lá qual for a faixa etária. O Bernardo é um louco, mas um louco moderado, brinca Giba. "Ele está sabendo muito bem controlar os mais velhos, segurando um pouco nos treinos. E a gente já sabe também a hora que pode puxar mais", completa.

Os puxões do treinador não acabam em 2010 e tampouco em 2012, quando se encerra o atual ciclo olímpico com os Jogos de Londres. Junto da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), a comissão técnica da seleção já começa a trabalhar quem serão os novatos que disputarão os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

A busca por novos talentos será intensificada. Presidente da CBV, Ary Graça tem planos de espalhar olheiros pelo país. Normalmente um menino de mais de 2m só quer atacar. Um estímulo seria colocar um Maurício (ex-levantador da seleção) para treinar junto com ele, para que ele vire levantador, planeja o dirigente.

A intensificação na busca por novos talentos é um dos poucos planos "novos" para que a seleção brasileira de vôlei continue obtendo os "velhos" resultados dos últimos anos. Ou seja, vitórias.

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