Mais fraca, onda de gripe suína trará novos desafios em 2010

A sigla H1N1 foi ameaça repetida em todos os idiomas durante 2009. A primeira pandemia do século atingiu 207 países e infectou 220 mil pessoas no mundo, 13% brasileiros. Em junho de 2010, uma segunda temporada da Influenza A, conhecida como gripe suína, deve estourar no País. As previsões, porém, avistam diferenças importantes: será uma onda mais fraca e muito menos intrigante do que a primeira.

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

Na visão dos especialistas ouvidos pelo iG, são três os principais fatores que apontam para essa realidade. O primeiro deles é que os cientistas já começaram a desvendar algumas particularidades do vírus que apavorou o planeta matando crianças, jovens e grávidas. O segundo é a disponibilidade da vacina, uma barreira importante para conter a infestação de contágio. Além disso, a maioria da população já teve contato com o H1N1 e, por isso, está imunizada naturalmente. Isso torna a segunda onda mais fraca, aponta como terceiro motivo o pneumologista Eduardo Genofre, diretor da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Ao mesmo tempo em que proferem projeções mais brandas de contágio, os especialistas apontam os obstáculos que podem complicar a passagem do H1N1 pelo País. As mutações genéticas do vírus podem ameaçar a produção já em curso da vacina, afirmou o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado. Uma das mutações, inclusive, já foi identificada na Noruega, China, Finlândia, França, Itália, Brasil, Japão, México, Ucrânia e EUA e já está sendo monitorada pela Rede Global de Vigilância de Influenza. Até agora a variação do vírus não se mostrou como uma nova versão disseminada da doença. Outro problema aventado pelos médicos é a corrida desenfreada da população pela vacina, como aconteceu com a Febre Amarela no início do ano. Por ora, nenhum país do mundo conta com a quantidade de doses que gostaria de ter. Por isso, o grupo vacinado será limitado, avalia José Guedes, diretor do Instituto Butantan, responsável pela produção de doses nacionais.


Mais conhecimento científico

Se é possível apontar alguma vantagem na crise enfrentada mundialmente pelas autoridades de saúde em relação ao vírus H1N1 em 2009 ela certamente será científica. A rapidez com que o vírus se alastrou e a letalidade em públicos até então considerados fora de perigo, como os jovens, culminou em milhares de publicações científicas sobre o tema. Em termos práticos, isso já está servindo como base para um maior conhecimento sobre novos mecanismos para tratar a doença.

Até novembro de 2009, foram 30.055 casos no Brasil sendo que, desde julho, apenas as manifestações mais graves da gripe suína, com internação hospitalar, entraram para os registros. Pessoas que tiveram sintomas mais leves estão de fora da contagem e são elas que agora estão no centro dos estudos. Os médicos tentam decifrar como o mesmo H1N1 foi tão letal em uma parcela (1.632 mortes no País) e em outra provocou sintomas brandos, semelhantes aos de um resfriado. Nesta linha de ensaios científicos, o Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo (CVE) espera encontrar as primeiras conclusões já o ano que vem, com a análise comparativa entre vítimas fatais da doença e pessoas que nem perceberam a infecção.

Resposta exagerada

Além da pesquisa com vivos, um grupo de 17 pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), liderado pela patologista Thais Mauad, se utilizou do conhecimento fornecido pelos mortos ¿ as autópsias de vítimas do vírus¿ para avançar nas primeiras respostas sobre como o organismo reage na presença do H1N1. As análises mostraram que a resposta do corpo é muito agressiva: os mesmos anticorpos que tentam eliminar o vírus lesionam o pulmão. Além disso, com a doença, o caminho das bactérias até as funções pulmonares é facilitado. Os primeiros resultados da pesquisa estão na próxima edição do American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine.

As conclusões do trabalho foram feitas por meio de autópsia de 21 pessoas mortas por gripe suína na cidade de São Paulo. A exceção de uma, todas tinham alguma outra doença (ou no coração ou pulmonar) ou eram grávidas e obesas, afirmou a autora do estudo. As informações encontradas, diz Thaís, podem ser utilizadas para laboratórios terem diretrizaes para ensaios clínicos com novos medicamentos. Além disso, servem para autoridades de saúde definirem, de forma mais clara, os sintomas que caracterizam o paciente como suspeito e prioritário no atendimento. Durante o ano de 2009, estas informações apareceram em escalas. Foram necessários dois meses de epidemida em curso para crianças, jovens, grávidas, obesos, além de sinais como diarreia e falta de ar intensa despontarem como características da gripe A H1N1.

Novo programa

Além de um protocolo mais definido de atendimento de casos, a experiência de 2009 também definiu mudanças no programa nacional de combate a gripe A. Em termos proprocionais, os Estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Goiás foram os mais afetados pela gripe. Segundo o cordenador de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, ficou acertado que esses locais vão redesenhar suas estratégias de combate à disseminação do vírus. A partir das duas reuniões de avaliação com todas as Secretarias Estaduais de Saúde, realizadas no início de dezembro, os Estados estão readequando seus planos, o que inclui ampliação de unidades hospitalares (tidas como referência para o atendimento) e laboratórios para realização de exames, afirmou.

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