Internet na China ameaça controle do regime comunista

Crescimento da web deve continuar acelerado, o que aumentará o trabalho para censurar informações que trafegam pela rede

Leandro Meireles Pinto, iG São Paulo |

O regime comunista da China, com várias restrições de imprensa e informação, vê na internet uma das grandes ameaças ao controle do que é divulgado dentro e fora do país. Para blogueiros chineses entrevistados pelo iG , a internet tem papel fundamental na busca por mais liberdade de expressão e de organização social, mas também é usada pelo próprio governo para atrair militantes e buscar dissidentes.

A China já é o país com mais usuários de internet no mundo. Segundo o China Internet Network Information Center, dos 22 milhões de internautas de 2000, a China alcançou 338 milhões neste ano. O total, no entanto, corresponde a apenas 22,5% dos chineses, número muito baixo se comparado a países como EUA, com mais de 70% da população online, e Dinamarca, com 90%.


China é o país com o maior número de internautas do mundo / Getty Images

Para 2010, o crescimento da internet chinesa deve continuar acelerado, o que aumentará o trabalho de Pequim para censurar as informações que trafegam pela rede.

O forte crescimento se deve ao grande salto que a economia chinesa deu nos últimos dez anos, possibilitando a uma maior parte da população acesso às novas tecnologias. "Apesar de a riqueza não crescer igualitariamente, é claro que a China está se tornando um país cada vez mais rico, possibilitando a mais gente ter acesso à internet e a novas tecnologias", diz Fauna, pseudônimo da blogueira do ChinaSmack.com , site que traduz para o inglês textos e artigos encontrados na "blogosfera" chinesa.

Ativismo digital e uso de novas tecnologias para burlar a censura e divulgar informação são importantes em todas as partes do mundo. Mas, na China, a internet é uma ferramenta essencial para o acesso ao conhecimento. "A cultura online na China não preenche apenas o papel de mídia e enciclopédia. Ela é uma janela para que as pessoas conheçam o mundo e também para que o mundo conheça a China", explica o colaborador de um grande blog sobre a vida cotidiana de Xangai, que pede para ser identificado apenas como Wang e para não ter o nome de seu site divulgado.

Por ser um país que restringe fortemente as liberdades civis, a internet chinesa virou terreno fértil para a organização de pessoas, veiculação de denúncias e reclamações e divulgação do que ocorre no país. "Com a internet, mais chineses podem se comunicar e compartilhar suas ideias, opiniões e preocupações", diz Fauna.

Segundo a blogueira, antigamente era impossível juntar um grupo grande para falar de política ou direitos humanos, por exemplo. "Hoje é mais fácil encontrar pessoas que pensam como você, o que nos torna mais confiantes sobre nossas convicções", afirma.

"Busca de carne humana"

Apesar dos lados positivos da internet e da interação que os chineses conseguem com ela, "a tecnologia está aí para todos", diz Fauna. Ela explica que, do mesmo jeito que um blog pode reunir centenas de ativistas pró-democracia, outro pode juntar milhares de partidários do Partido Comunista.

Um fenômeno que ocorre com frequência na China, e preocupa os blogueiros e ativistas do país, é o chamado "Human Flesh Search" ("Busca de Carne Humana", em tradução literal), em que centenas de pessoas se organizam para vasculhar, via internet, dados normalmente sigilosos sobre a vida de outras pessoas.

Na China, os maiores alvos são os dissidentes, blogueiros políticos e opositores do regime comunista. Os milhares de internautas que se organizam para buscar e divulgar os dados dos "inimigos" são conhecidos como "Human Flesh Search Engines" ("Buscadores de Carne Humana", em tradução literal).

Wang afirma que essa é uma das maiores preocupações dos internautas atualmente. "Na blogosfera chinesa, o anonimato é muito comum. As pessoas têm medo de colocar seu nome online e depois ter a vida devassada por esses grupos", diz.

A mesma opinião tem Fauna. "Os leitores não se importam se o autor de um blog não mostra sua identidade. Todos sabem que fazer isso na China pode trazer problemas", explica. "Fazemos isso por segurança", diz.

Censura na "Grande Muralha Virtual"

A Grande Muralha da China, uma das maiores construções já feitas pelo homem, tem sua versão online. E essa não é digna de admiração ao redor do mundo. "The Great Firewall of China" é o apelido dado ao sistema de censura que o governo comunista exerce sobre a internet no país, oficialmente criado em 2003 pelo governo sob o nome de "Golden Shield Project" ("Projeto do Escudo Dourado", em tradução literal).

Esse sistema de censura bloqueia completa ou parcialmente muitos dos principais sites visitados no resto do mundo.

Twitter, Facebook, YouTube, CNN e BBC são alguns exemplos do que os internautas chineses não têm acesso de forma legal. "Há sempre um jeito de burlar a censura usando alguns 'atalhos', mas isso é ilegal e pode ser punido", explica Fauna.

O blog dela, por exemplo, traduz diariamente para o inglês artigos e notícias que são publicadas em sites e blogs chineses. "Minha proposta é traduzir conteúdo interessante em inglês, o que torna a censura mais difícil e ajuda a divulgar o que o país tem de bom e ruim", explica.

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