IBGE recebeu 9 mil sugestões para o Censo 2010

Pela primeira vez, um censo brasileiro irá investigar o tempo de deslocamento entre casa e trabalho, as línguas indígenas faladas no território nacional, o número de união de pessoas do mesmo sexo, a quantidade e disposição geográfica dos beneficiados por programas sociais e onde se localizam os bolsões de emigração no país. Esses são alguns dos temas novos que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) incluiu nos questionários que planeja levar a campo entre 1º de agosto e 31 de outubro do próximo ano, depois de analisar 9 mil sugestões para a pesquisa. A lista final de perguntas ainda não está fechada.

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro |

O IBGE contará com 230 mil recenseadores que percorrerão por três meses cerca de 58 milhões de residências nos 5.565 municípios do País ¿ esquadrinhados em 280 mil setores. Todo o processo custará R$ 1,4 bilhão. Parece caro, mas cada questionário domiciliar sairá por cerca de R$ 24. Realizado desde 1872, o Censo brasileiro é realizado a cada década e é um dos maiores do mundo.

A preparação para o Censo de 2010 começou há dois anos. O IBGE procurou ouvir sugestões de acadêmicos, políticos e cidadãos comuns ¿ que chegaram até pela internet. Audiências públicas, reuniões e comissões foram realizadas periodicamente com o objetivo de colher ideias novas e evitar erros na coleta de dados.

Afinal, como o censo é a pesquisa mais abrangente feita no país, ela costuma retratar a cada dez anos a realidade social e econômica dos brasileiros e dos municípios. Os resultados fornecem subsídios para a implantação de políticas públicas. A contagem populacional, por exemplo, serve de parâmetro para saber quanto cada cidade receberá de repasse federal.

Procuramos variáveis que sejam ferramentas de reflexão sobre o País para novas políticas públicas. Se em 2010 eu percebo que a mudança foi grande, eu preciso fornecer informações para esse Brasil novo, para que as transformações continuem, destaca o presidente do IBGE, Eduardo Nunes, em entrevista ao iG.

Censo para animais domésticos

Nunes explicou que muitas sugestões não aplicadas neste censo serão aproveitadas em outros levantamentos. Mas a maioria não vai emplacar em lugar nenhum, como a ideia de compilar informações sobre animais domésticos. Outros temas importantes também ficaram de fora por dificuldades operacionais ou inadequação ao objetivo da pesquisa. É o caso de aborto, violência doméstica ou consumo de drogas. Como perguntar sobre violência doméstica na frente do marido, por exemplo?, questiona o presidente do IBGE.

O critério de escolha das perguntas também passa por padrões usados internacionalmente. Mas algumas peculiaridades nacionais são levadas em consideração. Questões sobre raça e religião não costumam constar de censos em países europeus, onde ainda é muito forte a memória da Segunda Guerra Mundial e de conflitos com origens em perseguições étnicas e religiosas. Mas no Brasil, onde há política de cotas raciais, o levantamento de informações sobre esses assuntos pode ser  importante.

Não existe regra internacional, por exemplo, para perguntar sobre renda, mas num país como o nosso, onde a informalidade do trabalho ainda é muito grande, é importante aproveitar uma pesquisa desse porte para investigar o tamanho da renda, explica Nunes.

Experiência em Rio Claro

Essa questão, aliás, é uma das mais sensíveis. Como pode atestar Melissa Billi Matelli, uma das 230 recenseadoras que participou do censo experimental em Rio Claro ¿ cidade com 191 mil habitantes no interior de São Paulo que foi escolhida como laboratório para o Censo 2010. Quando perguntamos quanto as pessoas ganham, algumas ficam griladas e até batem a porta sem se despedir. Ficam com medo de falar, de a informação vazar.

Não foi o único obstáculo registrado por ela. Alguns entrevistados também receiam ser desmascarado por atos ilícitos. Às vezes o morador acha que nós queremos fiscalizar ele. Quando perguntamos sobre acesso à água e energia elétrica, alguns se irritam. Muitos nem abrem a porta, achando que vamos denunciá-los por algum ato incorreto, conta Melissa, salientando que os dados coletados são protegidos por sigilo.

De resto, Melissa não encontrou maiores problemas com as perguntas dos dois questionários, o básico, aplicado a todos, e o da amostra ¿ que será feito em 10% das residências do país.

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