Em 2010, renovação no Congresso deve ser menor do que na última eleição

A avalanche de escândalos que atingiu o Congresso em 2009 pode afastar as pessoas de bem da política. Por isso, apesar do arsenal inédito de ferramentas de informação à disposição do eleitor, o índice de renovação na Câmara dos Deputados deve ficar abaixo das últimas eleições, em 2006, quando atingiu 47%.

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

No Senado, onde dois terços das vagas estarão em disputa, a renovação pode ser maior não por razões éticas, mas por causa da influência do governo, que vai jogar seu peso e popularidade para reverter o quadro de maioria oposicionista na casa. A avaliação é do diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz.

O custo eleitoral, tanto financeiro quanto de desgaste de imagem, desestimula muita gente que poderia concorrer e renovar o Congresso. Estas pessoas são desaconselhadas pelas famílias que não querem vê-las em um ambiente de escândalos, disse Queiroz.

A falta de novos nomes facilita a reeleição dos atuais deputados que têm nomes e números já conhecidos do eleitorado, serviços prestados, estrutura de gabinete, bases eleitorais consolidadas e fácil acesso à mídia.

Para Queiroz, a renovação deve ser maior no Senado devido à influência e popularidade do governo, que vai jogar todo o seu peso para desconstruir a maioria oposicionista na casa. A questão ética é secundária até porque as eleições proporcionais ficam em segundo plano em relação às majoritárias, prevê Queiroz.

De acordo com o sociólogo Caio Magri, assessor de políticas públicas do Instituto Ethos e integrante da Articulação Brasileira Contra a Corrupção e Impunidade, de pouco adiantam os novos instrumentos em favor do eleitor diante de um sistema eleitoral viciado e dominado pelo poder econômico.

Estamos diante de uma situação complexa de apropriação do público pelo privado. O eleitor não pune coisa nenhuma porque é induzido a decidir seu voto pelo poder econômico das empresas que são os verdadeiros financiadores dos candidatos, disse Magri.

Segundo ele, isso gera um círculo vicioso que estimula a corrupção. É um sistema azeitado que funciona muito bem. Quando uma empresa apóia certo candidato ela está fazendo um investimento. Se o retorno não vier de forma lícita virá de qualquer outro jeito.

De acordo com o jornalista Fabiano Angélico, coordenador de projetos da ONG Transparência Brasil, as ferramentas à disposição do eleitor não fazem frente ao arsenal de mídia dos políticos. A verba parlamentar para divulgação é usada na verdade para propaganda eleitoral. Fica difícil para quem está ali, lutando no dia a dia, com uma educação ruim, ter disposição para romper este esquema. Não dá para culpar o eleitor. O eleitor é muito vulnerável, disse.

Para a procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal em São Paulo, a disseminação dos escândalos dificulta a percepção do eleitorado. Todos os partidos estão envolvidos, lembrou ela.

O deputado federal Dagoberto Nogueira (PDT-MS), campeão da farra das passagens com 40 vôos internacionais pagos pela Câmara, aposta neste efeito para dar um salto na carreira política. Ele é pré-candidato a senador. Perguntado sobre qual explicação dará a seus eleitores a respeito dos R$ 92 mil em dinheiro público gastos com passagens, algumas para parentes, Nogueira respondeu: Nenhuma. Não fiz nada de errado. Todo mundo me disse que aquele dinheiro fazia parte do salário. Sempre fui muito responsável com o dinheiro público. Este é meu maior patrimônio político.

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